Gustavo Hofman

Gustavo Hofman

Em região disputada por russos e ucranianos, um brasileiro se destaca na liga local

Gustavo Hofman, de Moscou (RUS)

Gustavo Hofman
Lukas jogou ons últimos quatro meses pelo Krymteplytsia
Lukas jogou ons últimos quatro meses pelo Krymteplytsia

O assunto ainda incomoda bastante os russos. A simples pergunta " E a Crimeia?" gera longa explicação, justamente devido à contestação internacional sobre a anexação da região pela Rússia.

Lá, assim como em praticamente todos os cantos do mundo, há e sempre houve futebol. Como quase sempre acontece: com brasileiros - mas no caso específico da Crimeia, apenas um.

Lukas Brambilla, de 22 anos, se tornou há quatro meses o primeiro jogador nascido no Brasil a atuar na região pós-guerra. Ele é natural de Caxias (RS) e fez toda base no Juventude; Passou pelo Náutico e na metade de 2017, através de contatos de seu empresário, foi parar em  Molodizhne, na região norte de Simferopol, para defender o Krymteplytsia.

"Quando surgiu a proposta, pesquisei sobre a região, mas não sabia exatamente tudo que tinha acontecido lá nos últimos meses. Sabia que tinha acontecido a guerra", conta Lukas. "Sempre quis jogar fora do país", completa.

Em 1783 a Península da Crimeia passou a fazer parte do Império Russo, depois da Guerra Russo-Turca. Assim permaneceu até a Revolução de 1917, quando a região ganhou autonomia de república pertencente à União Soviética. Durante a II Guerra Mundial, foi rebaixada à condição de Oblast (equivalente aos nossos estados) e, em 1954, transferida por Nikita Kruschchev à Ucrânia, recuperando nos anos 1990 a autonomia republicana. Por fim, em março de 2014, com o conflito separatista no leste ucraniano, um referendo considerado ilegal pela Ucrânia determinou que a região voltasse a fazer parte da Rússia - o que foi prontamente atendido por Vladimir Putin.

Além dos russos, dez outros membros da ONU reconhecem a Crimeia como território pertencente à Rússia. A Uefa, porém, não. Assim, a federação de futebol crimeu organizou seu próprio campeonato nacional, já que não foi autorizada a filiar seus clubes nas ligas russas e se recusava a permanecer na estrutura ucraniana.

"A estrutura que encontrei lá me surpreendeu. Tem hotel, campo de treinamento, piscina, sauna... São oito times na primeira divisão, sendo cinco do mesmo nível e outros três bem fraquinhos", explica o atacante brasileiro. Dois são tradicionais desde os tempos de Premier Liga ucraniana, FC Sevastopol e Tavria Simferopol, e foram refundados com a anexação. "Na capital, Simferopol, tem bons públicos".

Lukas, que passou por dificuldades com o ciúme dos atletas russos e ucranianos, tem sido auxiliado por Alexander Zherdev, ex-jogador russo que passou pelo futebol brasileiro, no Brasilis, de Oscar Bernardi. Ele fala fluentemente português e é filho do empresário que intermediou a viagem do Rio Grande do Sul para a Crimeia.

Ainda sem saber se voltará, já que seu contrato acabou neste mês, Lukas tem o convite do presidente do Krymteplytsia para fazer a inter-temporada em Portugal, mas analisa outras possibilidades para dar sequência na carreira. As pessoas que o ajudam fora de campo buscam uma vaga na segunda divisão russa.

Enquanto a política segue como um imbróglio na Península da Crimeia, o futebol vai encontrando formas de sobrevivência.