Mayara Munhos

Mayara Munhos

Ela superou depressão e medo de perder. Hoje, é faixa roxa quase marrom, mas já dá trabalho para as pretas

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Eu acompanho a Thamara desde quando ela era faixa azul, tendo em vista que quando eu peguei a minha azul, ela já era graduada há um ano e eu podia cruzar com ela em algum campeonato por aí. E vendo seu desempenho em competições, sempre me perguntava como ela conseguia conciliar estudo, estágio e, ainda por cima, treinar e levar ouro em tudo.

Hoje, ela é faixa roxa e sua graduação de marrom está prevista para esta semana. Mas acontece que ela decidiu se arriscar em alguns campeonatos já usando a faixa marrom e já tem confrontado atletas de renome. Então, eu decidi conversar com ela e entender de onde vem esse talento todo!

Thamara Ferreira, 21 anos, ex-estudante de direito e atleta da PSLPB Cícero Costha.

Ela estudava direito de manhã, fazia estágio à tarde e ia treinar às 17h, na época, na equipe Barbosa.  "Eu tinha uma rotina muito puxada. Chegou uma hora que perdi a bolsa do curso. Achei que não era o jiu jitsu me atrapalhando, mas sim a faculdade, porque eu estava tão ligada ao jiu-jitsu, que não aceitava nada me atrapalhar", contou. Isso aconteceu quando ela ainda era faixa branca, quando ganhou o Campeonato Paulista no peso e absoluto. Além disso, ela contou que enquanto estava na faculdade ou no estágio, pensava que podia estar na academia e isso a prejudicava muito. Até que um dia, ela decidiu largar tudo e correr atrás do sonho de viver do jiu-jitsu

"Chegou o momento de dizer aos meus pais que não queria mais aquilo, ainda mais que papai, na época, queria pagar a faculdade para mim, depois de ter perdido a bolsa. Conversei com eles, e eles não aceitaram de cara. Mas depois que bati o pé e fui atrás de tudo, eles viram que não tinha jeito. Era aquilo ou eu não seria feliz. Tranquei a faculdade, larguei o estágio, e só fui treinar. Economizei um bom dinheiro ali no estágio, e dava para pagar algumas coisas até eu me acertar na minha nova fase".

Nunca é fácil, mas aos poucos Thamara mostrou aos pais que era isso que queria e, hoje, eles a apoiam muito.

instagram.com/thamarabjj
Thamara e suas parceiras da Cícero Costha
Thamara e suas parceiras da Cícero Costha

A mudança de equipe

Desde a faixa branca, Thamara treinava na Barbosa, mas foi na faixa azul e quando decidiu viver o jiu-jitsu que mudou para a equipe Cícero Costha.

Como tudo na vida, ela contou que a mudança não foi fácil, mas reconhece muito o valor da ex-equipe e de seu ex- professor, Marco Antônio Barbosa.

"A mudança foi complicada, há um tempo, estava pensando em sair. Foi uma equipe que me fez crescer muito, agradeço muito até hoje por tudo o que o Mestre Barbosa fez por mim, abrindo as portas pra eu treinar... E eu decidi sair"

Mas ao decidir sair, ela se viu sem equipe. Por conhecer muitas meninas de outros times, contou que elas a chamaram para treinar, mas ela decidiu que só optaria por uma equipe que a fizesse bem e que a fizesse se sentir em casa. "Eu treinei em várias, mas a Cícero foi onde mais me identifiquei." E lá está até hoje.

Ao se mudar, contou que ficou morando no TUF - que é o alojamento para os atletas da Cícero Costha. Na época, o TUF era misto e podiam morar homens e mulheres. Ela conta que tinha seu quarto com as meninas e que foi uma experiência ótima, em que ela aprendeu muito e que viu sua rotina mudar totalmente. 

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Thamara e a faixa preta Cinthia Mizobe
Thamara e a faixa preta Cinthia Mizobe

"A gente tinha uma rotina puxada, fazíamos três treinos por dia. Era 40 minutos andando de casa até a academia. Treinávamos às 9h, 10h30 e meio dia, voltávamos para a casa, almoçávamos, íamos para a academia e nem tínhamos quem nos auxiliasse, fazíamos nosso próprio treino de musculação. A gente ia levando. Eu morava com várias meninas lá e foi uma época em que cresci muito de todas as formas. Lá vi muita coisa que me deixou com mais vontade ainda de seguir em frente. Eu vi menino bem novo não ter quase nada pra comer, sabe? Não tinha dinheiro pra comer, chegava no fim de semana, o menino ia lá e era campeão Sul Americano, Brasileiro... Eu parava, pensava que se eles conseguiam, eu também conseguiria. Na época, minha família passou a me ajudar e eu vi que dava para seguir em frente. Essa fase me ajudou muito

Sobre as pessoas que treinam e que moraram com ela, ela diz que as admira muito porque são amigas de verdade. "Um ajuda o outro. Se for para dividir o prato de comida, eles dividem. São realmente humildes".

A faixa marrom vem aí: mas ela já tem dado o que falar na marrom + preta

E apesar de a Thamara estar lutando de faixa marrom nos campeonatos, ela ainda é faixa roxa, mas ela vai ser graduada no dia 18 deste mês, próximo sábado. Ela lutou o primeiro campeonato de marrom e preta juntas em Los Angeles (Grand Slam) e sua primeira luta foi com a Baby, de cara a atual campeã mundial de sua categoria na faixa preta. "Me deixou bem nervosa", destacou a atleta.

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Thamara x Baby, no Grand Slam em Los Angeles
Thamara x Baby, no Grand Slam em Los Angeles

Thamara perdeu e foi lutar a repescagem contra a Erin Herle, mas a vitória foi da americana e Thamara não medalhou.

"Eu sai de lá bem chateada, mas no outro dia estava enxergando de outro modo. Senti que poderia ir melhor nas próximas, só precisava treinar e melhorar minha cabeça e não havia motivo para ficar triste, sendo que era um campeonato grande com meninas experientes. O mais triste foi que travei nas duas lutas e não sabia muito bem o que estava fazendo"

Em seguida, ela lutou um campeonato não federado e venceu duas faixas pretas, entre elas, Ana Maria Índia, que além de faixa preta há anos é, também, atleta de MMA. 

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Thamara no pódio contra as faixas pretas.
Thamara no pódio contra as faixas pretas.

Seu segundo campeonato grande foi o Grand Slam, dessa vez no Rio de Janeiro, no último final da semana. Em sua chave, só havia meninas de peso e para as quais ela já tinha perdido algumas vezes.

"Estava nervosa, mas dessa vez era diferente, estava confiante! E graças a Deus deu tudo certo, como eu planejei de verdade. Sem travar (risos), alegre e com vontade de ganhar, de deixar meu melhor ali. Se fosse para perder, que eu perdesse lutando."

Sobre o Grand Slam do Rio de Janeiro

Foi acompanhando as chaves que percebi que eu precisava expor essa mulher (hahaha). No último final de semana, rolou o Grand Slam da UAEJJF no Rio de Janeiro e as categorias femininas eram faixas marrons e pretas misturadas. Thamara estava lá, competindo com grandes nomes como Ana Carolina Vieira, Erin Herle e Renata Marinho. E ainda assim, chegou até a final, contra a Ana Carolina "Baby". 

Sua primeira luta foi contra Andressa Cintra, da Checkmat, que ela venceu pela quarta vez (elas já tiveram cinco confrontos) por 4x2, avançando para lutar contra a gringa Erin Herle (Alliance) pela segunda vez. Dessa vez, ela venceu por duas vantagens e foi para a final. "Eu fiz questão de representar o Brasil! Aqui não, risos" - conta - "Lutei mesmo de verdade, porque a primeira vez que lutei com ela eu não consegui me sentir bem, estava bem travada como falei. Dessa vez foi pra valer".

As lutas foram no sábado e as finais programadas para o domingo:

"É a segunda vez que luto com a Baby, é complicado explicar, eu gosto de lutar com ela, não de levar pressão risos. É alguém que eu acompanho desde quando comecei, parece que estou sonhando. 'Caraca, alguém me belisca, será que foi tão rápido assim eu da azul pra onde estou agora?!' risos. O tempo, para mim, passou muito rápido. Lutar com meninas de grande influência me deixa muito ansiosa e faz com que eu me dedique ainda mais para tudo continuar dando certo".

UAEJJF
Sua luta contra a Baby, este final de semana.
Sua luta contra a Baby, este final de semana.

Thamara ficou com o vice, após a vitória da Baby por um estrangulamento na final. Uma luta bem dura entre as duas!

Durante o campeonato, Thamara publicou em seu stories no Instagram um pedido de desculpas pela explosão de emoções no sábado e ela aproveitou para expor o motivo.

"Foi uma surpresa tão grande que toda luta que eu terminava, eu chorava. Parecia uma menina depressiva. Toda luta que eu fazia eu chorava. Eu agradecia. Eu estava com tanta vontade, que não conseguia expressar meus sentimentos na hora. Dava vontade de chorar de felicidade, meu Deus do céu, era tudo misturado"

E sem dúvidas, a emoção foi gigante e muitas vezes nem conseguimos nos expressar em palavras. No final, ela contou que está muito satisfeita com seu desempenho e que só está com mais e mais vontade de treinar e vencer.

"Foi incrível, eu já estava muito feliz por estar ali na final. Meu segundo campeonato grande de marrom e tudo deu certo como um dia eu pedi a Deus, fazer uma final dessas. Eu lutei muito bem, me soltei bem na luta, fiz guarda o tempo todo, o que eu gosto muito de fazer. Me sinto bem fazendo guarda, mas ela é passadora nata, precisava estar um pouco mais preparada e menos solta. Não posso vacilar me abrindo tanto, com a Baby então, nem um pouco (risos). Mas estava tão feliz e confiante, que não liguei em arriscar, em me soltar. Queria mesmo era lutar alegre e deixar o meu melhor ali no momento. Mostrar a muitas meninas que dei muitos passos para trás, perdendo na minha faixa roxa inteira, e olha onde estive! Tudo é possível!"

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1º Lugar: Baby; 2º Lugar: Thamara; 3º Lugar: Renata Marinho. Categoria até 70kg
1º Lugar: Baby; 2º Lugar: Thamara; 3º Lugar: Renata Marinho. Categoria até 70kg

Planos futuros e objetivo

Thamara tem muitos motivos para estar feliz, já que passou por momentos complicados durante a faixa roxa. Ela passou por um quadro de depressão, que foi onde teve muito medo de lutar e perder, mas hoje, já vem superando a má fase.

"Deus faz tudo perfeito. Eu sinto que estou chegando cada vez mais perto de tudo o que sonho. Não por ter ganhado de pessoas com grande influência, mas por voltar a lutar bem, depois de passar por alguns momentos difíceis na roxa, como depressão, medos absurdos de lutar e perder. Sendo que derrota sempre fará parte da nossa vida de atleta. Mas tudo isso foi muito importante para mim. Hoje, não tem medo de perder para ninguém, pois sei o quanto isso me ajudou um dia a entender o quanto preciso acreditar ali dentro. E se eu quero isso, eu vou conseguir, é só questão de tempo. Não temo mais nada"

Rodrigo Basaure
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O melhor de tudo é que ela se sente muito bem e que está muito feliz. Não há nada mais lindo do que ver uma mulher, tão nova, com tantas conquistas em seu currículo, estar inspirada a mostrar para outras mulheres que nós também podemos.

"Sempre esperei por esse momento, me preparei demais para isso. Dizem que tudo acontece na faixa marrom, estou preparada para viver momentos incríveis e ganhar muitas coisas. Para mim, a responsabilidade não aumenta, o que aumenta é a vontade de sair na mão e ser uma referência também um dia, isso sim. Quero mostrar a muitas meninas que conheço, que todas nós podemos, só é preciso trabalhar duro e querer mais do que qualquer um."

Sobre ser referência um dia: Thamara, considere-se referência. Oss e que a história dela sirva de inspiração para tantas outras!