Mayara Munhos

Mayara Munhos

Mulheres faixas pretas dividem valor do prêmio em campeonato mundial de jiu-jitsu

Grapple TV
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Hoje estou aqui para falar sobre um assunto que divide opiniões: a premiação feminina em campeonatos. Eu já falei sobre isso aqui no BJJ Fórum, mas acho que é válido falar de novo por conta de um episódio que aconteceu nesse final de semana e gerou uma mobilidade muito grande nas redes sociais.

Nos Estados Unidos (Long Beach, Califórnia), rolou o Campeonato Mundial da Sport Jiu-Jitsu International Federation (SJJIF), em que o absoluto faixa preta masculino e feminino ofereciam a mesma premiação: 15 mil dólares para a campeã. Mas é claro, desde que houvesse 12 atletas inscritas, no mínimo. Resultado? Algumas atletas espalhadas em suas categorias, um total de 13 faixas pretas, mas na hora do absoluto, cinco inscritas.

Isso gerou uma grande revolta por parte das meninas. Tayane Porfírio, por sua vez, decidiu publicar, falando sobre a competição (e sua conquista) em suas redes sociais.

Em seguida, ela publicou novamente uma foto das faixas pretas que estavam presentes no absoluto e, na legenda, contou sobre uma divisão de prêmio entre elas.

Então, decidi juntar algumas das atletas que participaram do absoluto e conversar sobre o que aconteceu. As participantes foram Jéssica Flowers, Tayane Porfírio, Ana Carolina Vieira (Baby), Nathiely de Jesus e Claudia do Val.

Segundo a Tayane, elas dividiram o dinheiro por estarem na mesma situação. "Todas nós tiramos dinheiro do bolso para vir lutar, estávamos todas na mesma situação. Então, decidimos dividir o prêmio", contou.

Claudia do Val também disse que a divisão da premiação tinha sido feita de uma maneira não muito boa. "Para começar, tinha que haver, no mínimo, quatro atletas para ter premiação, mas o feminino só tinha quatro categorias. E com menos de 12 meninas, só a primeira colocada ganhava dinheiro. Acho que o organizador pode não ter pensado bem, mas conversamos sobre tudo isso com ele."

Por conta de a categoria não ter atingido 12 mulheres, a premiação foi de cinco mil dólares, divididos entre elas. Uma atitude maravilhosa que não é algo que esperamos ver por aí.

Infelizmente, muitos comentários ofensivos apareceram nas redes sociais, de todos os lados, o que é uma pena e apenas enfraquece o nosso esporte. Estamos lutando todos os dias para que a divisão feminina cresça e a tendência é essa, desde que andemos sempre juntas. 

O que aconteceu no final de semana, apesar de um gesto bonito, é uma pena, porque poderia ter sido 15 mil dólares, o que provavelmente cobriria todo o gasto que a campeã teve com o deslocamento para lutar. Isso sem contar as outras colocadas.

O evento da SJJIF foi muito generoso em ter optado por uma premiação igual, levando em consideração que a categoria masculina tinha 145 inscritos na faixa preta e a feminina, apenas 13. Isso mostra que no masculino, caso todos lutassem o absoluto, a premiação de 15 mil dólares seria quitada só com os valores de inscrição, e o feminino estaria bem longe disso - lembrando que também houve premiação em dinheiro para as categorias. 

Todas as informações sobre chaves, premiações e entradas podem ser encontradas aqui. Também não podemos culpar apenas as mulheres por não estarem lá. Vi muitas delas dizendo que não sabiam sobre o evento, o que talvez tenha sido apenas um erro de direcionamento, mas que também serve para os próximos, já que tudo de novo é acerto e erro. Foi o primeiro evento que ofereceu a mesma premiação para ambas as categorias, e isso é um grande marco.

Como eu já disse no texto que escrevi anteriormente, o lado do organizador conta muito na hora de definir uma premiação. Muitas pessoas reclamam sobre pagamentos diferentes, mas se esquecem de parar para analisar os números e o que vale mais a pena para quem está, de certa forma, lucrando. A realidade é essa: mais inscritos, mais público, mais dinheiro. E vice versa. 

Porém, temos, também, que parar para pensar no nosso papel dentro disso tudo. Nosso papel como mulheres e atletas. Eu nunca gostei de lutar absoluto por me sentir leve demais, mas por outro lado, eu não vivo de dinheiro de campeonatos e treino jiu-jitsu por hobby. A primeira vez que decidi entrar foi recentemente porque, ao sair do pódio da minha premiação na categoria, a organizadora perguntou a todas quem lutaria o absoluto. Todas as meninas iam respondendo "não" e, quando chegou em mim, ela falou "depois vocês reclamam que não tem premiação" - o campeonato estava oferecendo uma premiação generosa, que bancaria um pouco mais do que a inscrição, ainda que não tivéssemos atingido o mínimo de atletas estipulado anteriormente. 

Parece que isso me fez virar uma chavinha na cabeça e pensar que eu poderia estar prejudicando outras adversárias, que por sua vez, poderiam estar lá só por conta do prêmio, e eu decidi me inscrever e fazer minha parte. O que me motivou foi que, por ser uma defensora do jiu-jitsu feminino, inclusive publicamente, não seria justo fazer diferente na hora da luta. Estou lá para me divertir, se ganhar, ótimo, senão, ficarei feliz em ter ajudado quem realmente estava dependendo daquela grana.

Então, a reflexão que quero deixar hoje para você, seja homem ou mulher, independentemente de faixa e bandeira é: o que te motiva a lutar um absoluto? O que te desanima? Todas nós estamos atrás do mesmo objetivo, mesmo que de maneiras diferentes, e temos que caminhar juntas. 

Que a parceria das faixas pretas do final de semana sirva de exemplo para a união no meio do jiu-jitsu. Que a iniciativa da SJJIF sirva de exemplo para outras. Mas que tudo isso sirva mais ainda de exemplo para incentivar cada vez as mulheres a estarem nos tatames, competindo e mostrando que realmente estamos crescendo. As portas estão abertas, pode ser que não totalmente, mas estão se abrindo aos poucos, e precisamos tirar disso o melhor para todas nós.

Para acompanhar as postagens das meninas citadas no texto, é só clicar no link do Instagram delas: Tayane PorfírioNathielyAna CarolinaJéssica Flowers e Claudia do Val.

Até semana que vem!