Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

A diferença entre não querer e não saber atacar no Brasil

Renato Rodrigues, do DataESPN
ESPN
Corinthians 0 x 0 Grêmio foi um jogo muito criticado pela qualidade do futebol apresentado
Corinthians 0 x 0 Grêmio foi um jogo muito criticado pela qualidade do futebol apresentado

Corinthians x Grêmio. Líder e vice-líder do Brasileirão 2017. 0 a 0, poucos chutes no alvo e mais um caminhão de críticas sobre qualidade do futebol que praticamos em solo brasileiro. Obviamente que não se mede a qualidade de um jogo por chances criadas ou mesmo o número de gols, mas a partida em Itaquera nos traz uma reflexão ainda mais ampla e que nos direciona ao tipo de produto que temos assistido em nossos estádios.

A primeira questão é tentar identificar o que foi tão criticado neste jogo e, principalmente, o que causou tanta desaprovação na Arena Corinthians. Talvez o fato mais explorado foi a falta de finalizações no alvo (Corinthians 0x3 Grêmio). Feito isso, o próximo passo é buscar os motivos para tantos erros e/ou a falta de criatividade. E é aí que o assunto começa a ficar maior e passa a ser de interesse não só de corintianos e gremistas.

Quando temos apenas o número X de finalizações, caímos naquele velho problema de apenas interpretar algo frio, que estaciona na informação e fica longe do conhecimento e sabedoria (já falamos sobre isso aqui no blog). Porque o mais importante não é o quanto, e sim como você finaliza. Por exemplo: você prefere que seu time finalize três vezes cara a cara do goleiro - o que aumenta as chances de marcar - ou um que dê 22 chutes, mas todos eles pressionados, sem ângulo ou mesmo de uma distância difícil de vencer o goleiro?

Agora sim entramos no assunto central deste texto. Muito tem se falado que no Brasil ninguém quer ter a bola e que todas as equipes abrem mão de atacar. Simplesmente escolhem isso e seja o que Deus quiser. Mas será realmente que todos optam por essa estratégia de maneira consciente? Vocês conseguem observar clubes que buscam ter a bola e, na maioria das vezes, não sabem o que fazer com ela? Fico com a segunda opção e explico o porquê.

Vivemos em nosso país uma transição (ainda que lenta) do futebol jogado de maneira aleatória e totalmente instintiva - ainda tem muito time jogando assim - para uma maior absorção de conceitos e ideias atuais. Mas é aí que entra a confusão dentro de todo este cenário. Ter um time organizado, na cabeça de grande parte das pessoas que acompanham futebol, é ter um time que defenda bem. Que jogue compactado quando é atacado, que consiga construir grandes fortalezas defensivas, característica predominante de alguns dos últimos campeões que vimos por aqui.

Mas é assim que realmente funciona? Uma equipe só deve se organizar para defender? Seria correto afirmar que na frente basta deixar com a habilidade do atacante e a visão de jogo do camisa 10 que tudo se resolve? 15 anos atrás talvez...

Definitivamente, não. Para atacar é cada vez mais necessário que se tenha uma organização, uma ideia e um plano por trás de tudo (o gol do Vasco na análise abaixo mostra um pouco disso). Principalmente pelo fato de as defesas, inclusive aqui no Brasil, estarem cada vez mais fortes. As famosas linhas de 5 defensores, que são tendência na Europa, partem para esse lado de controlar melhor os espaços e bloquear ataques milionários, onde não falta qualidade técnica. Tal medida se encaixa na mutação do esporte. Se cria ou melhora algo, se pensa e cria outra saída para neutralizar. Posição e sobreposição. Inventa, reinventa... 

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E olhando para o cenário brasileiro atualmente você consegue visualizar equipes que mostram uma boa coordenação de movimentos sem a bola. Times que defendem por zona, com blocos bem compactos e que causam dificuldades até para adversários mais fortes. Por outro lado fica cada vez mais claro que tem faltado a tal da organização ofensiva por aqui. Estratégias que miram a abertura de espaços e, principalmente, condicionem nossos jogadores a um drible ou mesmo uma finalização limpa e cristalina.

A palavra condicionar é a chave para toda essa discussão. Se reclama muito, por exemplo, que o futebol atual quer engessar ou mesmo robotizar os jogadores, tirando deles o drible e o improviso. Mas não é por aí. Um bom treinador neste caso não brecaria uma jogada individual, mas sim a potencializaria, colocando seu atleta em uma situação onde ele vai triplicar as condições de sair vitorioso nesse duelo. Nada adianta pegar um jogador, por mais habilidoso que seja, e mandar ele ir para cima de um oponente que tenha duas ou três coberturas atrás dele. É só se recordar de Neymar, ainda pelo Santos, quando enfrentou o Corinthians por Libertadores e Paulistão. Não era Alessandro que o neutralizava, e sim o bom trabalho de coberturas organizados por Tite. 

Neste caso, a sua equipe, de forma coletiva, precisa se mobilizar para deixá-lo em uma situação de 1 contra 1 de fato. Pode ser um simples movimento de apoio para gerar igualdade numérica no setor ou mesmo um movimento de outro companheiro que arraste uma das coberturas e crie um espaço a ser atacado. Podemos pontuar várias maneiras e mecanismos para se chegar ao mesmo fim. E eles são todos coletivos. A questão principal é: pensar, planejar, treinar e executar nas partidas.

O exemplo do drible vale para qualquer situação que envolva o futebol. Bons estímulos e ambientes bem estruturados, sempre induzindo o atleta à aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, são capazes de melhorar tudo. Finalização, passe, cruzamento, lançamento... E leve isso em consideração inclusive para outras áreas profissionais fora do futebol.  Não é  a prática que nos leva a perfeição. A boa prática que nos eleva a maiores patamares.

Ao levar tudo isso em conta, voltamos ao jogo entre Corinthians e Grêmio, mas sem deixar de conectar todas as ideias olhando para todo campeonato. Está enganado quem diz que o Corinthians não quis ter a bola e preferiu jogar em contra-ataques. A questão foi o que fazer com a posse, gerar desequilíbrios e espaços.  Muitos erros de tomada de decisão e de acabamento das jogadas - das duas partes inclusive. Passes e mais passes que não conseguiam gerar vantagens em zonas importantes do campo. Falta até de confiança para executar um passe mais arriscado em alguns momentos (veja no vídeo abaixo)

Muitos em espaço pequeno e dificuldade para sair da pressão: Calçade e DataESPN analisam Corinthians e Grêmio

E tudo isso tem a ver com a posse de bola, tão questionada durante essa temporada. São Paulo de Rogério Ceni, Flamengo de Zé Ricardo, Santos de Dorival... Equipes e treinadores que, por algum momento, tentaram executar um modelo que priorizasse a posse de bola, mas que acabaram com trabalhos sucumbidos. Cada um com sua particularidade, mas todos arruinados por um jogo ofensivo que não fluiu. 

Vivemos tempos de passes óbvios. De fazer o mais fácil e não o melhor. De esperar uma furada do adversário para marcar um gol. Se a construção de um bom time para muitos começa lá de trás, já passou da hora de avançarmos para o campo de ataque. No fundo somos um país que gosta de atacar. O que falta é se organizar para isso.

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