Mauricio Barros

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As mudanças recentes na maneira de jogar dos cinco principais campeonatos da Europa

Maurício Barros, blogueiro do ESPN.com.br
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A manipulação e análise dos dados do futebol na Europa vem levantando algumas questões no grupo que compõe o FutLAB (Maurício Barros, blogueiro e comentarista dos canais ESPN, e os economistas Celso Toledo, Fábio Moraes e Marco Laes, especialistas em estatísticas). Uma delas é detectar as principais mudanças no jeito de se jogar futebol no Velho Continente ao longo dos últimos anos.

Para aqueles que acompanham a história do nosso esporte favorito, a evolução não é nenhuma novidade: avanços no preparo físico e em esquemas táticos fazem com que, ao compararmos um jogo da década de 1970 com uma partida da atualidade, tenhamos a sensação de estar assistindo hoje quase que a um outro esporte, muito mais veloz, talvez menos “artístico”, certamente com maior ênfase na defesa.

Infelizmente, a coleta sistemática de estatísticas é um fenômeno recente, e não conseguimos retroagir para décadas anteriores. A nossa ideia foi, então, analisar numericamente a evolução ocorrida entre 2010 e os dias atuais. Felizmente, porém, no período em que temos os bancos de dados completos, observamos o auge de uma das maiores revoluções táticas do futebol, que vamos chamar aqui de o “estilo Barcelona” de se jogar – ou, alternativamente, “futebol total”.

Obviamente, o conceito do “futebol total” não é novo: ao longo da história teve aparições, porém quase sempre efêmeras, como na Hungria de 1954, e no Ajax e na Seleção Holandesa do início da década de 1970. No Barcelona, este conceito surgiu na década de 1990, com a chegada de Cruyff (trazendo, obviamente, suas experiências como jogador do Ajax e da Holanda), espalhou-se pela sua academia, La Masia, e alcançou seu auge com o assombroso sucesso no período em que Pep Guardiola assumiu a posição de treinador.

Será que o sucesso do Barcelona imprimiu uma marca no futebol, e espalhou seus conceitos de posse de bola, passes curtos, e paciência ao manter a bola circulando até surgir a opção de passe vertical, para o resto do continente europeu? Bem, como sempre acontece nas análises da FutLAB, vamos aos números. A análise é dividida em dois pontos básicos: a evolução dos passes, e das finalizações, analisando as cinco grandes ligas da Europa: Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra e França. Os dados são da Opta, parceira da ESPN.

  • Passes

Quando se trata de posse de bola, (de uma maneira bastante simplificada) podemos observar nos técnicos duas visões antagônicas: aqueles que acreditam num futebol proativo, baseado na posse de bola (pensem em Guardiola), e aqueles que acreditam que o jogo é vencido por quem comete menos erros, e que a melhor maneira de atacar é se aproveitar de um erro do adversário e sair no contra-ataque (pensem em José Mourinho). Será que o sucesso do Barcelona inspirou os demais times da Europa a dar maior importância à posse de bola? Será que os ex-jogadores do Barcelona que se tornaram técnicos de grandes clubes, como Guardiola, Lopetegui, Blanc e Luis Enrique, exportaram a filosofia azul-grená?

Primeiramente, vamos olhar a evolução do número de passes por jogos nas cinco grandes ligas, ao longo das últimas sete temporadas:

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Estes números, por si só, são notáveis. Enquanto, na média dos cinco campeonatos, eram dados na temporada 2010/11 917 passes por jogo, este valor subiu para 979 passes por jogo em 2016/17, um aumento de 6,8% em apenas 7 anos, uma importante transformação no jeito de jogar em um período tão curto. As maiores mudanças foram observadas nos campeonatos Alemão e Francês, com um aumento de quase 10% no número de passes por jogo (e, curiosamente, a menor mudança ocorreu na Espanha, berço da “revolução”).

Como os times conseguiram aumentar tanto a quantidade de passes dados por jogo? Basicamente, os passes se tornaram mais curtos:

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E passes mais curtos geram uma maior precisão:

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Estes passes não são apenas mais curtos: hoje são dados mais passes para trás (uma das marcas registradas do Barcelona), e são feitos menos cruzamentos, em especial cruzamentos longos (definidos por nós como aqueles em que a bola viaja mais de 35 metros no ar – o chuveirinho clássico).

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Em resumo, os times passaram a valorizar muito mais a posse da bola, procurando reduzir o número de erros ao reduzir a distância dos passes, não ter vergonha ao passar para trás, e chuveirar cada vez menos (não reportamos aqui, mas o número de lançamentos também vem caindo ano a ano). A escola do Barcelona parece, assim, ter se espalhado pela Europa: todos querem ter a bola no pé cada vez mais, e vêm adaptando o estilo de jogo para tanto.

  • Finalizações

Esta mudança na maneira de ter a posse de bola, e avançar no campo, obviamente gerou mudanças na maneira de se finalizar. Um número interessante, que não esperávamos, é que o número de finalizações por jogo vem diminuindo – ou seja, os times chutam cada vez menos:

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Os times estão chutando menos, porém de uma maneira cada vez mais certeira; abaixo, temos que em todas as ligas os chutes estão acertando cada vez mais o gol:

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Como os times vêm ganhando eficiência em suas finalizações? Ao se aproximar cada vez mais do gol: enquanto a distância média das finalizações na temporada 2010/11 era de 20,4 metros, na última temporada este valor caiu em quase 8%, para 18,8 metros.

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Os times estão, desta maneira, finalizando menos, porém de muito mais perto, levando a um aumento na precisão. E como nascem estas finalizações? Este aumento no número de passes levou a um maior número de finalizações geradas por uma assistência de um companheiro, diminuindo, assim, o número de finalizações fruto de jogadas individuais:

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Com exceção da Espanha (que já contava com um alto número de finalizações assistidas), todos os demais campeonatos viram um aumento no número de finalizações criadas de uma maneira mais coletiva. Com exceção da Alemanha, estas finalizações são cada vez mais fruto de jogadas trabalhadas, e menos de contra-ataques:

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Esta mudança (radical para um período tão curto) em como os times finalizam mudou a quantidade de gols marcados? Em média sim, e para cima:

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Podemos observar que Alemanha e Inglaterra, que já apresentavam um elevado número de gols por jogo, mantiveram-se razoavelmente constantes ao longo do tempo (até com uma leve queda na Alemanha). Já os outros três campeonatos apresentaram uma explosão na quantidade de gols marcados, e no continente como um todo o valor passou de 2,66 gols por jogo para 2,83.

  • A última revolução tática?

Ao observarmos os números, é inegável que o futebol europeu vem passando por uma profunda transformação em sua maneira de jogar ao longo da última década, e há a marca do Barcelona nesta mudança: os times cada vez mais estão valorizando a eficiência, procurando aumentar a posse de bola com passes curtos, muitas vezes para trás, a fim de manter consigo a bola, e finalizando menos porém melhor, com finalizações cada vez mais perto do gol, fruto cada vez mais de jogadas trabalhadas. O novo lema do futebol parece ser “vamos manter a bola conosco, envolvendo cada vez mais o time todo, finalizando menos porém melhor”.

Seria este, então, o futebol total, o estilo Barcelona de jogar, o último estágio das táticas do futebol? Não. Seja na natureza, seja nas relações humanas, a evolução é inexorável, e existe sempre a pressão constante para superar o que é considerado melhor em um determinado momento. O futebol já viu diversos esquemas táticos serem tidos como ideais – a “pirâmide” 2-3-5, o W-M, o 4-2-4, o 4-3-3, o 4-4-2, o 3-5-2, e agora o futebol total, “sem-posição”, está em voga. Um novo esquema surge para derrotar uma tática já estabelecida, e apostamos com vocês que, daqui a alguns anos, surgirá uma resposta ao estilo Barcelona de jogar. Se é que já não surgiu, não é, Real Madrid de Zidane?