Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira

De mascotinhos ao caldeirão, uma aula sobre como usar o mando de campo para esmagar o adversário

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Flamengo e Cruzeiro fizeram ações de marketing envolvendo as suas mascotes antes do jogo que abriu a decisão da Copa do Brasil. O Urubu recebeu a Raposa e a Raposinha no aeroporto, os levou ao Cristo Redentor, à praia, passearam juntos, lindo! O intuito, aparentemente, era mandar uma mensagem pacífica. Nobre. Pouco útil também. Sem ingressos para a final, os de sempre tentaram invadir o Maracanã, que viveu uma noite de violência, com bombas, correrias, brigas entre organizadas rubro-negras e tiros.

 

A mensagem enviada por intermédio das mascotes não surtiu o efeito desejado porque os dispostos a tumultuar não se comovem com nada, muito menos com ações de marketing, ainda mais tão pueris. Fica apenas aquela coisinha bonitinha, infantil, mas comprovadamente inútil, por melhor que tenha sido a boa intenção dos departamentos de marketing de Flamengo e Cruzeiro. O caso do time rubro-negro, por estar em casa, esse tipo de cortesia esfria o clima de rivalidade fundamental numa partida decisiva.

 

Não, evidentemente não estamos defendendo agressividade contra o adversário, ameaças físicas, nada disso. A defesa aqui é pela atmosfera que faz o visitante temer o mandante, a ponto de entrar em campo e se assustar, de os jogadores se perguntarem "como vamos fazer para jogar aqui?". Isso não se faz na porrada, mas na maior festa possível da torcida (algo que a CBF praticamente impede), no barulho extremo, na tensão proporcionada ao visitante que pode fazer alguns tremerem. Assim é o futebol. Isso é mando de campo.

 

Aos rubro-negros mais antigos, basta puxar pela memória, para os mais novos, temos o YouTube e o vídeo abaixo. No jogo de maior público na história do Campeonato Brasileiro, com 155.523 pagantes, o Flamengo precisava virar o jogo que estava 2 a 1 para o Santos, placar da vitória obtida no Morumbi com 114.481 pagando ingressos. Note no vídeo abaixo o que aconteceu depois do espetacular recebimento do time da casa, com foguetório e festa histórica na entrada em campo. Preste atenção em cada detalhe até o 1 a 0.

 

 

Antes de a bola rolar, os jogadores estão concentrados. Zico, o capitão, sinaliza aos seus companheiros o tempo todo, como quem pede atenção, garra, luta. Veja o vídeo de novo, note como os jogadores de preto e vermelho disputam a bola com imensa disposição, observe como Élder, camisa 7, recupera a posse para dar início ao que seria a jogada do primeiro gol. Veja como, depois de empurrar a pelota para as redes, o camisa 10 da Gávea gesticula para os companheiros. Era preciso mais um gol. Terminou 3 a 0. Flamengo campeão.

 

O experiente time do Santos ficou atordoado. A atmosfera daquele Maracanã era assim nos grandes jogos e os que visitavam o Flamengo temiam ir até lá. Sabiam que o time carioca não era imbatível, mas às vezes parecia ser quando estava no seu ambiente. Isso mesmo, no seu ambiente, não no do rival. Como fizera o Santos num Morumbi lotado e com enorme pressão. Mando de campo pra valer, uso da própria casa e sua torcida para assustar o adversário, recursos lícitos, do futebol, que fazem muita diferença.

 

Sei que muitos discordarão, mas acredito que ações de marketing como aquela esfriam essa atmosfera. O Cruzeiro não é inimigo do Flamengo, mas se os dois estão decidindo um título, naqueles dias eles serão grandes rivais, ou deveriam ser. Talvez o sejam na peleja de volta, em Belo Horizonte, vai depender do ambiente que o time Celeste criará no Mineirão, onde conquistou títulos arrancados no apoio de sua gente, como a própria Copa do Brasil em 2000. Virada espetacular sobre o São Paulo com gol no lance derradeiro.

 

 

Assista novamente. Note como Fábio Júnior vai buscar a bola no fundo das redes ao empatar a partida apenas 11 minutos antes do apito final. Veja como Geovanni arranca para tomar a frente, ficar com a bola e sofrer a falta que lhe daria a chance de desempatar a finalíssima, como era necessário para o Cruzeiro ficar com o troféu. Desculpe se você não acredita nisso, mas tenho absoluta convicção de que essa atmosfera e o desejo incontrolável de derrotar o rival, encarando-o como tal, é o que movem um jogador numa jogada como essa.

 

Na noite de quinta-feira, o River Plate deu uma aula do que é mando de campo. A entrada das equipes na cancha com um Monumental de Nuñez entupido e prestes a explodir, fez os jogadores do Jorge Wilstermann tremerem. Sim, estavam apavorados, apesar da gigantesca vantagem construída na Bolívia, onde alcançaram estupendos 3 a 0. Em 19 minutos já estava 3 a 0 para os argentinos, tudo igual. Aos 36 o quarto gol, o da virada no agregado. Final, 8 a 0. Épico.

Os Millonarios esmagaram literalmente o adversário. O mesmo que eliminou o Atlético sem levar gol em 180 minutos de futebol e foi derrotado pelo Palmeiras por 1 a 0 apenas com gol nos acréscimos, em São Paulo, além de vencer em solo boliviano, provocando a queda do técnico Eduardo Baptista.

 

 

Veja o vídeo mais uma vez, preste atenção ao momento dos cumprimentos entre os jogadores e note como os atletas do clube de Cochabamba parecem assustados. Imagine o que se passava por suas mentes naquele momento, mesmo com a vantagem de três gols. O clima, a atmosfera absurda criada pelos hinchas do River foram um combustível sem igual para uma equipe voraz, determinada, intensa, disposta a arrancar a classificação e deixar tudo no gramado. "Huevos" dizem os portenhos. Não posso imaginar tamanha atuação sem essa gente a empurrar.

 

 

Os modismos e as cópias cretinas do que se faz na Europa esfriam nosso ambiente de estádio, assim como os próprios, agora chamados "arenas", mais frios por eles mesmos. A entrada em campo dos times ao mesmo tempo, as limitações na festa, que também atingem a Argentina, embora menos do que no Brasil; as restrições e, com todo respeito, os frios, gélidos mosaicos, bonitos e "silenciosos", não ajudam. Já ações de marketing de bichinhos amiguinhos não fazem o cidadão violento deixar de sê-lo e cria uma atmosfera boa para o visitante.

 

A final da Copa do Brasil em clima de respeito entre torcedores e dirigentes é bacana, elogiável, necessária, parabéns! Mas isso não pode passar do ponto, a rivalidade alimenta o futebol e é capaz de fazer um time ir além do que iria normalmente quando ela transborda das arquibancadas para o campo. Resta saber como as Raposas receberão o Urubu em Belo Horizonte. Só espero que o perdedor não chegue a comemorar com o campeão.

 

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