Gabriela Moreira

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R$ 480 mil em dinheiro vivo em casa para gastar em viagens? Por diárias do COB, só se Nuzman viajasse por mais de mil dias seguidos

Diego Garcia e Gabriela Moreira, do ESPN.com.br
Getty
Carlos Arthur Nuzman na sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro
Carlos Arthur Nuzman na sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro

A defesa de Carlos Arthur Nuzman, em processo que corre na Justiça Federal, alega que os cerca de R$ 480 mil encontrados em dinheiro vivo na casa do presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) eram recursos para viagens do cartola. Contudo, segundo apuração da ESPN, seriam necessários, pelas regras do comitê, mais de mil dias para conseguir gastar toda a quantia.

A reportagem conversou com pessoas de dentro do COB que avisaram que, de acordo com o procedimento interno de viagens, os funcionários do Comitê recebem adiantamentos, que vêm em forma de diárias. E os valores são fixados em R$ 150 por dia para eventos em solo brasileiro e outros US$ 150 se forem usados em viagens internacionais (nesse valor não entram despesas com hospedagem).

Ou seja: por esse sistema, como tinha R$ 480 mil que alegava ser para viajar, o presidente do COB iria passar 1.066 dias (cerca de três anos) longe de casa - isso, se computados os valores encontrados em reais como gastos em viagens para o exterior.

Em busca e apreensão na casa do presidente do COB feita no começo de setembro, a Polícia Federal encontrou valores em cinco moedas diferentes, nas seguintes quantidades: R$ 102.950, US$ 35.472, 67.720 euros, 1.315 libras e 8.260 francos suíços. Na conversão para reais, mais de R$ 480 mil. Valor bem superior aos R$ 148 mil que o cartola tinha em contas bancárias.

Há um mês, Nuzman exaltou legado da Olimpíada e responsabilidade em entrevista exclusiva à ESPN

Segundo fontes de dentro do COB, não é prática do Comitê utilizar dinheiro vivo na hora de dar os adiantamentos, pois isso é feito por meio de cartões de viagem com bandeiras MasterCard ou Visa oriundos do Banco Rendimento, especializado em câmbio e moedas estrangeiras. 

Para completar, um PDF interno do COB chamado "Guia Prático do Usuário (GPU)" - criado pelo próprio órgão para auxiliar no procedimento de solicitação de diárias ou despesas de viagens nacionais ou internacionais - diz logo em seus slides iniciais que "...as diárias ou despesas de viagem somente poderão ser solicitadas após a emissão da passagem...".

Conforme pessoas próximas a Nuzman, por outro lado, o presidente do COB costumava fazer seus gastos e depois pedia para ser ressarcido. Fontes de dentro do órgão rebatem e dizem o contrário, que o cartola normalmente utiliza o cartão de viagem durante as viagens.

O dirigente é investigado por supostas propinas durante o processo de votação e eleição do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada 2016. Por conta das investigações, ele não pode deixar o Brasil e foi ausência em evento do COI na semana passada, no Peru.

Para ter uma explicação concreta do próprio dirigente sobre o dinheiro e os procedimentos de viagem do COB, a reportagem enviou alguns questionamentos, por e-mail. Contudo, o Comitê informou que não pode responder às perguntas sobre esse tema por conta das investigações que correm atualmente na Justiça Federal contra Nuzman, que vem sendo defendido por advogados. 

"Como o processo está em julgamento, não vamos comentar nada", limitou-se a dizer o COB. 

Pessoas do órgão também disseram que Nuzman viaja com muita frequência não somente pelo COB, como também pela Rio 2016, pelo  COI (Comitê Olímpico Internacional), IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo), Odesur (Organização Desportiva Sul-Americana) e Odepa (Organização Desportiva Pan-Americana).

A reportagem tentou contato com o escritório de advogados do presidente do COB, mas não conseguiu até a publicação.


Confira, abaixo, as perguntas feitas a Nuzman que ficaram sem resposta:

"Temos informações aqui que a defesa do Nuzman alega à Justiça que os R$ 480 mil encontrados na casa do presidente do COB eram para viagens. Além do que, segundo nos foi passado, o COB possui um procedimento de adiantamento para viagens com diárias de R$ 150 por dia para viagem nacional e/ou 150 dólares para viagens internacionais. De acordo com nossas fontes, essa quantia não é dada em dinheiro vivo, e sim em cartões de viagem. Para completar, segundo nos foi informado, esses valores são - ou deveriam ser - colocados no balanço do COB. Diante dessas informações, as perguntas são:

1) Como presidente do COB, Nuzman precisava utilizar o cartão de viagem do COB em viagens nacionais ou internacionais? Sem resposta.

2) Se sim, por que o Nuzman possuía essa quantia (cerca de R$ 480 mil) em casa e não utilizou (ou pretendia utilizar) o cartão de viagem - e, como segundo nos foi informado, ele mesmo fazia em suas viagens pelo COB - como todos os funcionários? Sem resposta.

3) Se não, como o presidente fazia para efetuar seus gastos ou prestar contas? Sem resposta.

4) Quantos dias Nuzman pretendia ficar fora e para onde pretendia viajar, já que estava com R$ 480 mil em casa? Sem resposta.

5) De acordo com o guia prático dos procedimentos de viagem do COB, ao qual tivemos acesso, "...as diárias ou despesas de viagem somente poderão ser solicitadas após a emissão da passagem...". Portanto, se o COB só libera o dinheiro após a passagem marcada, por que Nuzman tinha esse dinheiro sem ter as passagens? Sem resposta."