Mayara Munhos

Mayara Munhos

Ela era 'guitar hero', ficou famosa em reality show, teve duas filhas e conquistou faixa preta no jiu-jitsu

Arquivo pessoal
Manu com os pais cascas grossas.
Manu com os pais cascas grossas.

Sabem a Syang? Guitarrista, participante da Casa dos Artistas em 2002... Pois bem, ela é faixa preta de jiu-jitsu. E eu conversei com ela para conhecer sua história e entender como é conciliar a música com o tatame.

Syang começou sua vida na música bem cedo. Já aos oito anos tocava piano, mas um tempo depois ganhou um violão. Seu sonho era tocar guitarra. "Essa história é velha", relembra, rindo - "meu pai não me deixava tocar guitarra porque dizia que era coisa de sapatão. Meu avô e minha mãe me levavam escondidos às aulas de violão". 

E então, perceberam que ela estava curtindo e a presentearam com uma guitarra. Foi quando ela começou a tocar, aos 12 anos. Com 17, gravou seu primeiro disco com a banda 'Detrito Federal', pela gravadora Poligram. Ficou bastante tempo tocando com o grupo e, em seguida, criou uma banda feminina, chamada 'Autópsia'. Mas foi com a 'P.U.S.' que fez mais sucesso e na qual passou mais tempo.

"Entrei para o P.U.S. e toquei 12 anos. Era uma banda de metal pesada. Gravamos seis ou sete discos, nos lançamos até no Japão. E aí foi minha maior trajetória na música. Eu passei a fazer bastante coisa na MTV, chamavam a gente sempre pra tocar. Eu tocava ao vivo com  Skank, Chico Science, Jota Quest... Eu sempre estava no meio como guitarrista mulher, que era diferenciado, né."

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Syang em sua época de banda.
Syang em sua época de banda.

Depois do P.U.S., Syang lançou sua carreira solo e seu disco pela Warner. Então, passou a fazer muitos shows, tocou no Rock in Rio e entrou para a Casa dos Artistas, que a tornou conhecida além da música. "Eu já era famosa no mundo underground", conta. "Todo mundo se conhece, é igual no jiu-jitsu (risos)". 

Mas paralelamente, a guitarrista sempre teve sua história com o esporte. Seu pai era jogador profissional de futebol em um dos maiores times de Brasília e sua mãe era atleta de saltos ornamentais. Por conta disso, sempre carregou o DNA esportivo dentro de si e sempre competiu em diferentes modalidades, desde criança. 

"Um dos meus sonhos, mesmo novinha, era fazer Kung Fu. Achava o máximo, sempre quis um kimono. E com o tempo, comecei a treinar boxe, logo que sai da Casa dos Artistas. Fiz quatro anos de boxe na Companhia Atlética, treinei com o Cebola e foi nessa época que eu conheci o Portuga (Eduardo Santoro). Ele treinava jiu-jitsu do lado, no mesmo horário que eu treinava boxe. E a gente sempre se cruzava, começamos a nos paquerar, nos olhar..."

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Syang e seu marido, Eduardo Santoro
Syang e seu marido, Eduardo Santoro

E aí começou sua história: com o jiu-jitsu e com o seu marido, o faixa preta Eduardo Santoro, ou Portuga, para quem conhece a fera. Um dia, depois de tantos olhares entre tatames e ringues, Syang e Portuga trocaram telefone na musculação, combinaram de sair e, desde então, não se largaram mais. E isso faz 13 anos.

"Quando a gente começou a namorar, eu lembro que o Du saiu do lugar que ele dava aula há muito tempo e a gente foi procurar uma academia nova pra ele dar aula, em Moema. Aí, quando achamos, tinha poucos alunos e ele falou 'pô, vem treinar comigo'. E eu já era louca pra treinar jiu-jitsu. Mas era sempre só homem e eu não sabia como chegar. Inclusive namorando com ele, lembro do meu primeiro treino: eu não tinha kimono ainda e eu falava 'que roupa eu vou?'. Aí ele falava: 'ah, bota uma calça de treino, blusa... Como se fosse fazer capoeira'. Me troquei e fiquei muito sem graça de entrar no tatame primeira vez. Mas me apaixonei pelo jiu-jitsu e nunca mais parei. Comprei kimono e, agora, sou aluna dele desde a faixa branca, há 12 anos."

Syang parou por dois anos, para ter as filhas Manu e, dois anos depois, Nina. 

Em outubro de 2016, recebeu sua faixa preta. Hoje, ela e sua família moram em Redondo Beach, na Califórnia, onde foram para abrir uma academia, que funciona há oito meses e está indo super bem. "Estamos com sessenta alunos e muitas crianças. Estou com uma turma feminina bem bacana e, aos poucos, fui trocando a música pelo jiu-jitsu."

Antes de ir para os Estados Unidos, Syang fazia muitos shows. Durante três anos, tocou com uma banda de sertanejo/rock, em que fazia participações especiais no meio do show, tocando rocks famosos. "Era muito legal", disse. "Fiquei uns três anos fazendo show todo final de semana e viajei bastante, mas era algo que me deixava muito cansada". Chegava em casa sempre de madrugada e suas pequenas acordavam cedo. Acabava ficando muito cansada e, por já estar muito inserida no meio do esporte, deixou a vida musical de lado.

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Time feminino da Syang - ESJJ.
Time feminino da Syang - ESJJ.

"Nós já tínhamos nossa academia aqui no Brasil há quatro anos. Nossa equipe é a Excellence School of Jiu-Jitsu (ESJJ), fica na Chácara Santo Antonio. Eu já dava aula pra mulheres, crianças... Ficava muito na academia, treinando, e ainda tinha os shows no final de semana. Eu já estava me desligando dos shows. E então decidimos vir para cá (EUA) e entrei de cabeça no jiu-jitsu. Hoje, a gente administra a academia juntos. Estou totalmente dentro do jiu-jitsu, só não voltei a competir. Fui campeã do SP Open na branca e, na azul, fui campeã Internacional. Na roxa, disputei o Mundial na categoria adulto e perdi... Depois  na marrom, em Portugal, no Europeu, fui campeã. Agora falta a preta. Competi um em cada faixa. Agora que estou bem focada no jiu-jitsu, quero entrar em algumas competições. Era para eu ter ido para o Mundial de Masters e muita gente fala que é desculpa. Pode até ser desculpa (risos), mas eu estava aqui com as crianças, de férias... Sou bem competitiva. Então, para entrar numa competição, gosto de estar bem preparada". 

Syang nunca entrou no jiu-jitsu pensando em competir, mas por estar treinando bem, seu mestre a colocou num campeonato ainda de branca. Competiu na azul, e logo em seguida, engravidou. Teve a Manu, depois voltou a treinar, pegou faixa roxa grávida da Nina, parou novamente e, depois, treinou bastante para lutar o Mundial. "Toda vez que entro numa competição, penso que vou entrar em todas, porque é legal demais, a adrenalina e tal. Eu tenho vontade de voltar. Nos próximos campeonatos, vou tentar. Se eu conseguir treinar direito será neste ano. Mas tudo o que treino acabo competindo porque gosto de treinar forte."

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E a música?! Syang também pretende voltar a tocar daqui um tempo. Uma banda a chamou para tocar lá nos Estados Unidos e ela não chegou a ir ao ensaio, porque o tempo ainda está curto e está focada na academia. Portanto, acha que ainda não é hora. "Sinto saudades de tocar e estar no palco, mas estou focada na academia e na minha família, mas em breve pretendo voltar".

Em relação aos treinos femininos, Syang destaca uma importância muito grande para quem quer começar, principalmente tendo em vista que muitas meninas se sentem intimidadas por verem muitos homens. Ela conta que está percebendo uma ascensão muito grande no público feminino e destaca que uma das suas maiores vontades quando quis montar uma turma de mulheres é porque muitas não gostam de treinar com homens. 

"Elas não se sentem bem, tem vergonha de começar... Tenho duas alunas que não gostam, que dizem que os homens a deixam roxas, mesmo que façam de leve. A gente tem que respeitar, tem gente que não gosta e não se sente bem mesmo. Tem outras que o marido não gosta, que não se sente bem por ser um esporte de contato. Então, esse treino feminino veio para agregar e trazer essas meninas para treinar também". 

Para Syang, os maridos têm receio de as esposas treinarem e ainda que eles sejam faixas pretas, não se sentem seguros. Uma pena, porque jiu-jitsu é um esporte como qualquer outro. "O crescimento é absurdo. A Manu já está treinando, vai começar a competir e pegar faixa cinza agora em outubro. A mulherada está dominando e treinando forte".

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O casal com as lindas: Nina e Manu.
O casal com as lindas: Nina e Manu.

Esse é o outro lado da vida de Syang, que talvez muitas pessoas não conheçam. Incrível ver que a mulherada domina onde quer que esteja! E ela, no auge de seus 48 anos (sim, eu também demorei para acreditar, nem sei se acreditei ainda) está aí: tocando nas horas vagas, treinando sempre e dando muito valor para sua família.

"Estamos super felizes na Califórnia, vivendo um sonho. Aqui é muito legal de morar. O Brasil não estava fácil, muito perigoso para criar filho, e a gente está feliz aqui. A academia vai bem. E hoje, faço o que amo."

Muita sorte nessa nova jornada!