Gustavo Hofman

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Split, mas pode chamar de Hajduk Split

Gustavo Hofman

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Em todos os cantos da cidade, há referências ao Hajduk
Em todos os cantos da cidade, há referências ao Hajduk

*Capítulo extraído do livro "Quando o futebol não é apenas um jogo", publicado em 2014

Poucas cidades no mundo vivem o futebol como Split, no litoral da Croácia. Ou melhor, poucas no mundo vivem o time local como Split.

Sem qualquer exagero, você não anda mais do que duas ou três quadras pela belíssima cidade  sem ver alguma referência ao Hajduk Split. Uma pichação, uma bandeira na janela, um torcedor com a camisa, um cachorro com a roupinha do clube. É simplesmente impressionante como o Hajduk é o maior símbolo de Split.

Banhada pelo Mar Adriático, a cidade é um destino frequente para turistas europeus que buscam belas praias e diversão no verão. Pela proximidade, os italianos costumam dominar a área nesse período. As praias são geralmente pequenas e com a encosta das áridas montanhas terminando praticamente na água, uma paisagem bem diferente para o público brasileiro.

Se no verão Split ferve, no inverno ela é um ponto certo para descanso. O Palácio Diocleciano é sua principal atração e, sem dúvida alguma, de uma beleza extrema. No entanto, como é aberto e foi tomado por lojinhas e restaurantes em seu interior, perdeu um pouco do encanto dos séculos passados. A orla, à noite, é um passeio imperdível a dois, enquanto do Monte Marjan se observa toda essa beleza do alto.

Gustavo Hofman
Vista da litorânea Split a partir do Monte Marjan
Vista da litorânea Split a partir do Monte Marjan

Nesse cenário espetacular surgiu o Hajduk Split em 13 de fevereiro de 1911, sob o Império Austro-Húngaro. Sete anos depois, com o surgimento da Iugoslávia, o Hajduk passou a disputar o Campeonato Iugoslavo de futebol.

Até a independência, foram nove títulos nacionais iugoslavos e nove copas, se tornando um dos times mais vitoriosos da extinta nação. Desde então, as glórias continuaram, com mais seis títulos croatas e seis Copas da Croácia. Com isso, também, a participação nas competições europeias se tornou algo muito frequente, mas com poucos resultados expressivos.

Clube que revelou nas últimas décadas talentos mundiais. Para citar apenas alguns: Stjepan Andrijasevic (ex-Monaco e Celta), Igor Stimac (ex-Derby County e West Ham), Robert Jarni (ex-Juventus, Real Madrid, entre outros), Alen Boksic (ex-Olympique de Marseille, Lazio, Juventus e Middlesbrough), Slaven Bilic (ex-West Ham e Everton e ex-técnico da seleção croata), Igor Tudor (ex-Juventus), Stipe Pletikosa (ex-Shakhtar Donetsk e Spartak Moscou) e Darijo Srna, um dos grandes ídolos da história do Shakhtar.

De qualquer modo, a torcida do Hajduk Split não é movida por títulos. A paixão dos torcedores, que se sente nas ruas, é algo alheio a conquistas.

Split lhe proporciona uma imersão na história do Hajduk de maneira extremamente saborosa. É possível reviver os primeiros dias do clube, visitando o estádio Stari Plac, casa do time entre 1911 e 79. Pequeno, acanhado, quase escondido em um bairro residencial, atualmente é palco dos jogos de rúgbi do RK Nada.

Gustavo Hofman
Stari Plac, antiga casa do Hajduk Split e atualmente palco de rúgbi
Stari Plac, antiga casa do Hajduk Split e atualmente palco de rúgbi

Como a cidade é pequena, quase 200 mil habitantes, de lá mesmo você caminha em direção a uma área mais afastada, onde fica localizado o moderno estádio Poljud. Casa de muitos jogos da seleção croata e com capacidade para 35 mil torcedores, ainda possui belíssima vista para o Mar Adriático.

É difícil imaginar a vida de um torcedor do Dinamo Zagreb em Split. Os dois clubes têm a maior rivalidade do país, com o clássico sendo chamado de "Dérbi Eterno", mas a torcida da equipe da capital é bem maior e também tem presença no litoral. Zagreb tem quatro vezes a população de Split, e a proporção entre as torcidas é bem parecida. Mesmo assim, não deve ser fácil gritar gol do Dinamo por lá, isso porque em Split ou você torce para o Hajduk Split ou você finge que torce para o Hajduk Split.

E é da principal torcida organizada do Hajduk que vem a história mais curiosa. Em 1950, um grupo de estudantes de Split, que estudavam em Zagreb, decidiu fundar um grupo organizado para fazer uma enorme festa no clássico que aconteceria com o Estrela Vermelha, de Belgrado, capital da Iugoslávia. Vjenceslav Zuvela, Ante Doric, Ante Ivanisevic, Sime Perkovic, Pocrnjic, Ticic e Vlado Mikulic só não sabiam que nome dar ao grupo.

No meio do ano, a Copa do Mundo que aconteceu no Brasil teve grande repercussão entre os fãs de futebol no país, e por causa da competição os estudantes conheceram a palavra "torcida". Assim, em 28 de outubro de 1950, surgiu a Torcida, principal organizada do Hajduk Split até os dias atuais. No dia seguinte, a equipe croata bateu a sérvia por 2 a 1. Ao final da temporada, o Hajduk foi campeão nacional invicto.

Em uma nação fundida pelo papel e não por ideologias semelhantes, era natural a perseguição de Belgrado aos revoltosos. A Torcida passou, então, a ser alvo do governo sérvio, que via nela uma forma de a população de Split se manifestar contrariamente ao regime do ditador Tito.

Nas semanas seguintes à fundação, a Torcida teve seu líderes presos e foi proibida de existir. A partir daí, foram três décadas de atuação clandestina. Nada de bandeiras ou símbolos.

Divulgação
A famosa Torcida do Hajduk Split
A famosa Torcida do Hajduk Split

Um governo ditatorial, porém, nunca conseguirá reprimir tudo que deseja. Os integrantes da Torcida seguiam se reunindo na arquibancada leste do Stari Plac. Cantavam e protestavam. A violência cresceu muito nesse período.

Somente em 1980 a Torcida saiu da clandestinidade, e na década seguinte foi decisiva para os croatas na Guerra da Iugoslávia, que desfragmentou toda região.

Assim como outros grupos organizados de torcedores, sempre acostumados ao combate entre si e com policiais, os integrantes da Torcida estavam na linha de frente das batalhas contra os sérvios. Uma placa no setor norte do estádio Poljud lembra os nomes de 27 membros da organização que morreram na guerra pela independência da Croácia.

Por toda essa história, pelo seu significado para o povo, o Hajduk Split não é apenas um clube de futebol. É muito mais do que isso. É a representação de toda população local diante dos opressores.

Trata-se da melhor forma de se mostrar para o resto do país, para todo continente e para o mundo. No passado, era a força contra a Sérvia; Hoje em dia, a rivalidade com Zagreb.

O clube não é chamado de Dalmatinski ponos, Orgulho da Dalmácia, à toa.

Nesta quinta-feira o Hajduk Split recebe o Everton, pelos playoffs da Liga Europa, e a ESPN Brasil transmite o jogo ao vivo, a partir de 16h. Na ida, os ingleses venceram por 2 a 0.