Mauricio Barros

Mauricio Barros

O rebaixamento não é uma posição na tabela. É um estado de espírito

Maurício Barros
MARCELO D. SANTS/FramePhoto/Gazeta Press
Dorival Jr no jogo do Sao Paulo contra a Chapecoense pelo Brasileiro
Dorival Jr no jogo do Sao Paulo contra a Chapecoense pelo Brasileiro

 O gênio Cartola, torcedor do Fluminense, cantou que o mundo é um moinho e reduz a pó as ilusões. Se eu não tivesse essa voz de galinha, entoaria que o rebaixamento é um redemoinho que, quando pega um clube grande, prende feito carcará. O time pode até botar a cabeça para fora e se agarrar num galho do barranco, mas será pura ilusão. Um simples vacilo, o graveto se quebra e lá se está novamente, girando rumo ao fundo. Ou se segura num tronco rígido, livrando cinco ou seis pontos de vantagem para o primeiro da zona, ou vai ficar na gangorra até a última rodada, quando o monstrengo da Série B subirá para o bote final. Já vimos esse roteiro com Palmeiras, Corinthians, Botafogo, Galo, Grêmio, Inter. Agora é a vez do São Paulo.

Para o grande, o rebaixamento não é uma posição, mas um estado de espírito. O São Paulo “contraiu rebaixamento” desde que seus comandantes, Leco e Vinícius Pinotti, que não parecem ser do ramo da bola, decidiram botar uma placa “Família Vende Tudo” no Morumbi. Rogério Ceni perdeu jogadores fundamentais, foi sabotado pelos chefes, e isso inviabiliza qualquer análise de seu trabalho. O clube não teve autoestima para peitar senão todos, pelo menos alguns dos jogadores que tinham propostas para sair. O suposto saneamento financeiro falou mais alto que o propósito esportivo, razão de ser do clube. Baixou a febre nos cofres, mas o time gangrenou e está na UTI. Com a “baixaestima” em alta.

A dupla de cartolas demitiu Rogério, causando uma comoção na torcida, e contratou Dorival Júnior. Saiu no desespero trazendo reforços questionáveis. A Maicossuel (o que diabos ele tem?), juntaram-se Jonatan Gómez (Messi do Mundo Bizarro), Arboleda (é bom ou não é? Confesso que não sei), um Denílson genérico. Entre os acertos, Petros, Hernanes e, acho, Marcos Guilherme. Tudo com o campeonato em andamento e o time despencando na tabela. A canoa sendo remendada em plena correnteza, reforço indo direto do aeroporto paro vestiário. Chegou? Bota pra jogar imediatamente!

As partidas em casa são uma tomografia dessa verdadeira doença coletiva em 3D. Fica tudo muito claro desde o apito inicial. A torcida mostra todo o seu amor, incondicional, enorme. Hoje vai. Não são 90 minutos, mas sim 90 últimos minutos, jogados como acréscimos, no desespero. O adversário naquela retranca louca. O tricolor trocando passes, vai de um lado, volta pro outro, sem conseguir penetrar. Os jogadores dando a vida em cada dividida. Quando o gol finalmente sai, é como se fosse final de Libertadores. Dois minutos depois, o time toma o empate. E a aflição  recomeça. Bola na trave, canelada. E gol do adversário. Uma festa fantasma onde estão todos lá: o legislador Murphy, a Dona Inhaca, o Sobrenatural de Almeida, o Boitatá. 

A Dorivalgina 40 gotas não tem funcionado, e olha que a tabela do fim do turno era mais fácil. O São Paulo segue girando na água, porque perdeu dois jogos-chave contra Coritiba e Bahia justamente depois de ensaiar a reação com as vitórias sobre Vasco e Botafogo (foram dois gravetos). O clube voltou à boca do sumidouro. O alento é que há um turno todo pela frente e alguns troncos espalhados pela margem, que precisam ser agarrados. O primeiro é o escorregadio Cruzeiro, no domingo.