Leonardo Bertozzi

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Destaque em clube 'odiado', brasileiro tem sonho frustrado por inversão de mando na Liga Europa

Leonardo Bertozzi

Photonews/Getty
Stênio em ação pelo Shkëndija
Stênio em ação pelo Shkëndija

O sorteio dos play-offs da Liga Europa mandou muitos torcedores do Milan ao Google para "descobrir" o Shkëndija, da Macedônia. Mas há alguém que pode explicar melhor sobre o adversário dos rossoneri por um lugar na fase de grupos do torneio continental.

O atacante Stênio Júnior, único brasileiro no elenco do clube, atua no país há quatro anos e falou ao ESPN.com.br sobre sua expectativa para o confronto - e a frustração de não poder atuar em um dos grandes palcos do futebol mundial.


Expulso no jogo de ida contra o Trakai, da Lituânia, na terceira fase preliminar, Júnior foi suspenso por duas partidas pela Uefa. O sorteio, inicialmente, determinou a primeira partida com o Milan na Macedônia. Mas, por questões logísticas, a ordem dos mandos foi invertida, e o brasileiro não poderá atuar em San Siro no dia 17 de agosto. A volta será um semana depois.

"Ainda não engoli bem, mas a gente tem de cumprir", lamenta. "Estava contente porque faríamos o primeiro jogo em casa e eu poderia jogar na Itália, realizar aquele sonho do jogador. Então houve a mudança e fiquei um pouco mais chateado. O importante agora é pensar em fazer um bom trabalho na segunda partida, para aproveitar a exposição e colher os frutos. Vai ser bom para o futebol da Macedônia. Temos de pensar num todo, não só no lado pessoal".

O Shkëndija é de Tetovo, mas terá de atuar em Sköpje por causa da estrutura do estádio. Como outro time do país, o Vardar, fará o jogo de ida no mesmo campo (contra o Fenerbahçe), houve a troca da ordem, como previsto em regulamento.

  • Só no mapa

O time de Stênio Júnior, porém, só é macedônio na geografia. A cidade tem maioria étnica de albaneses, e foram eles que fundaram o clube. O Shkëndija é, para eles, mais que um time de futebol. É uma representação nacionalista. O hino albanês é cantado por sua torcida organizada, a Ballistët, antes de cada partida. E as tensões históricas fazem com que haja um ódio recíproco com a maioria dos times da Macedônia.

"O clube é renegado dentro do país", conta o atacante. "É um dos clubes grandes, mas não conta com a receptividade dos macedônios em geral. As torcidas costumam entrar em confusão depois dos jogos. Mas não me envolvo com estas questões. Tenho amigos macedônios e albaneses e sou tratado com o mesmo respeito e amizade. Vim para jogar futebol. Mas muitos brasileiros que já vieram para cá acharam estranho. As coisas aqui na antiga Iugoslávia são complexas". 

Na época do regime comunista, o Shkëndija chegou a ser desfeito pelo governo iugoslavo, pelo simbolismo que adquiria para o nacionalismo albanês. Somente em 1991, com a separação da Macedônia, o clube ressurgiu. Campeão em 2011, se afirmou nos últimos anos como um time que luta pelas primeiras posições. Vem de dois vice-campeonatos e ganhou a copa nacional em 2016. No cenário internacional, os resultados vêm melhorando - é o segundo ano seguido nos playoffs da Liga Europa.

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Stênio chegou no início de 2014 ao Shkëndija. Descoberto no futebol cearense, onde se destacou pelo Horizonte, ele foi inicialmente transferido para o Litex Lovech, da Bulgária, mas foi o empréstimo ao Pelister, da Macedônia, que representou a grande virada: "Joguei metade do campeonato de 2013/14 no Pelister, fiz 8 gols, e fui para o Shkëndija como a transferência mais cara do país. Foi algo entre 100 e 150 mil euros".


  • Seleção?

Adaptado ao futebol e à vida na Macedônia, o atacante é pai de uma bebê de dois meses e não pensa em sair do país agora. Pelo contrário: já foi procurado sobre a possibilidade de defender a seleção local. "Isso já foi conversado, perguntaram se eu queria me naturalizar. Vejo como uma boa oportunidade", confirma. "É uma forma de participar de grandes partidas pela seleção do país, buscar mais formas de me destacar. Só falta um ano para completar os cinco exigidos pela Fifa".


"Hoje tudo é mais fácil aqui. Posso buscar o melhor para cuidar da saúde da esposa e da minha filha com tranquilidade", festeja. "É claro que nossa família no Brasil está ansiosa para voltarmos no fim do ano, por causa do nascimento da bebê (risos)".

Antes, há o Milan, que gastou 42 milhões de euros em Leonardo Bonucci, um dos melhores zagueiros do mundo, em meio a uma série de contratações que reformularam o time e criaram grande expectativa para a temporada. Para Júnior, é só um motivo a mais para se motivar: "É uma experiência a mais enfrentar não apenas o Bonucci, mas toda a equipe do Milan. Não dá para prometer nada agora. As coisas acontecem na hora".

E não seria melhor um adversário mais acessível? O brasileiro vê o lado positivo. "Não que a gente não quisesse um adversário mais fácil para chegar à fase de grupos. Mas pegar um Milan é motivo de alegria. Não tira nossa confiança nem nos abate. Podemos fazer história. As zebras acontecem no futebol. Quem sabe a sorte não esteja do nosso lado?", conclui.