Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira

Lendária, após 35 anos a seleção de 1982 ainda faz o Brasil buscar explicações

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br
Getty
Paolo Rossi (20) comemora seu terceiro gol pela Itália ao lado de Antognoni (9)
Paolo Rossi (20) comemora seu terceiro gol pela Itália ao lado de Antognoni (9) e Scirea (7)

Reunião de craques comandados por um técnico especial, a seleção brasileira da Copa de 1982 é até hoje merecidamente lembrada. Mas a dramática derrota para a Itália ganha, a cada ano, contornos poéticos que escondem as razões daquele pesadelo.

Era um time quase que totalmente formado por jogadores excepcionais. Mas faltavam a ele algumas características que visões mais puristas rejeitarão eternamente, mas necessárias numa disputa tão feroz. Em parte por algumas ideias de Telê Santana.

A seleção de 1982 não era sólida defensivamente. Saiu perdendo em três dos cinco jogos que fez naquele Mundial, ante União Soviética, Escócia e Itália. Só não foi vazada nos 4 a 0 sobre a amadora equipe da Nova Zelândia. Era muito vulnerável.

O duelo com a Azzurra representava óbvio perigo, mas poucos brasileiros queriam acreditar nisso. Um deles, talvez o único, era Zezé Moreira. O ex-treinador, já aposentado, trabalhou como observador de Telê naquela Copa do Mundo.

Após os 3 a 1 sobre os argentinos, o velho Zezé estava no debate que a TV Globo exibia a cada fim de noite. Ele havia acompanhado o categórico triunfo italiano sobre o time do jovem Maradona no mesmo estádio Sarriá onde morreria o sonho brasileiro.

Em determinado momento, o experiente treinador fez o alerta que despertou risos de canto de boca e certo desdém em alguns dos demais. Zezé elencou as virtudes do conjunto de Enzo Bearzot, avisou que a Itália sem vitórias na primeira fase mudara.

No vídeo abaixo, trecho do intervalo do jogo na transmissão da TV para o Brasil.

O veterano técnico citou Cabrini e suas arrancadas pela esquerda, de onde, livre, cruzou para o primeiro dos três tentos de Paolo Rossi no fatídico 3 a 2. Deixou claro, a peleja que se aproximava era mais perigosa do que o Brasil (quase) inteiro imaginava.

Não adiantou. As palavras de Zezé mal repercutiram e suas observações levadas a Telê foram insuficientes. Por que o Brasil jogou em 5 de julho de 1982 como havia feito até então, sem cuidados especiais, frágil lá atrás, mesmo quando tentava se defender.

Houve outras decisões discutíveis, como "domesticar" Serginho. Atacante alto forte e brigão, o (até hoje) maior goleador da história do São Paulo tinha comportamento de frade franciscano. Não era o mesmo numa equipe quase proibida de levar cartão.

Reprodução
Mesmo quando defendia com todos os homens o Brasil era frágil na retaguarda
O terceiro gol italiano: mesmo quando defendia com os 11 o Brasil era frágil na retaguarda

Sim, as lesões de Reinaldo e Careca tiraram de Telê as duas opções mais adequadas para a camisa 9. Mas Chulapa estava contido, e quando a chapa esquentou, como no lance da camisa de Zico rasgada por Claudio Gentile, o Brasil se viu carente de um homem mau.

Sim, era preciso ser bom e ser mau. Falamos de um futebol diferente do atual com suas inúmeras câmeras, julgamentos por imagens e fair-play. Basta rever o Brasil 0 x 2 Holanda de oito anos antes (vídeo abaixo) ou Argentina 0 x 0 Brasil na Copa anterior para perceber.

Defesa só razoável ante adversário forte, que fizera ótimo Mundial em 1978. Estilo bonito, ofensivo, mas desprotegido, otimismo exagerado ao redor, como se a possibilidade de derrota não existisse. E com feras "domadas". Era o cenário em Barcelona.

Getty
Seleção italiana perfilada antes do jogo contra o Brasil pela Copa do Mundo de 1982
Zoff, Antognoni, Scirea, Gentile, Collovati e Graziani (de pé); Rossi, Conti, Oriali, Cabrini e Tardelli

Perder para a Itália foi algo que nos surpreendeu, machucou, mas não houve injustiça nos 90 minutos. Eles foram superiores, mais competitivos e estavam preparados para vencer. O Brasil não estava preparado para perder. Por isso essa ferida jamais cicatrizará.

Foi a seleção da minha vida e aquela a Copa na qual torci (pra valer) pela última vez pela equipe que depois viraria "da CBF". Eram nossos ídolos em campo. Sofremos com eles e por eles. Mas 35 anos depois ainda vasculhamos a memória em busca de explicações.

Mas elas sempre estiveram diante dos nossos olhos.