Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

Início, meio e fim: a trajetória de Rogério Ceni em uma visão mais sistêmica sobre o São Paulo

Renato Rodrigues, do DataESPN

Gazeta Press
Rogério Ceni não resistiu os resultados ruins e foi demitido do São Paulo
Rogério Ceni não resistiu os resultados ruins e foi demitido do São Paulo

Rogério Ceni caiu. O que muitos desacreditavam, principalmente por ser talvez o maior ídolo da história do São Paulo Futebol Clube, aconteceu. Mais um que vira estatística na cultura do futebol brasileiro que tritura um treinador atrás do outro. Mas foi correto demitir o ex-goleiro? Onde estão os erros dele? O que não funcionou em seu modelo de jogo? Só ele errou nestes seis meses de trabalho? Como detectar o que existe de certo e errado dentro de um ambiente tão complexo de se analisar? 

Pois bem. É fato que, no Brasil, estamos acostumados a sempre escolher um vilão para cada tragédia que vivemos. Treinador, presidente, diretor, zagueiro que falha... Tem até gente nadando contra toda essa maré que acaba entrando no balaio por ignorância de quem passa informação e cria opinião. Mas chegaremos neste ponto lá na frente. 

Olhar para o São Paulo hoje e tentar apontar um culpado ou mesmo um só problema dentro de tudo que se enxerga dentro de campo é praticamente impossível. Falaremos dos últimos seis meses, mas é fato que o Tricolor, que desde sua última conquista (Sul-Americana 2012) teve nada mais nada menos que 11 treinadores, tem vilões de todas cores, formas e estilos para escolhermos. Enquanto não enxergamos o futebol como algo sistêmico, com vários aspectos interligados, vamos continuar tratando apenas os sintomas, e não a doença. Aliás, reflexão válida para outras esferas da nossa vida.

Então vamos separar a trajetória do ex-capitão são-paulino como treinador em alguns tópicos. Tentar entender os objetivos, os erros, as questões de campo e fora dele. Olhar de uma forma mais abrangente, explorando questões táticas, ambiente, escolhas no modelo de jogo, planejamento, resultado x desempenho... Vamos nessa:


Início: a escolha do modelo de jogo como fator decisivo

Ao assumir a equipe, Rogério Ceni garantia, desde suas primeiras entrevistas, que o objetivo era construir um modelo de jogo ofensivo e de muita agressividade. Que gostaria de ter um time que jogasse no campo do adversário, com muita pressão na bola e passes rápidos para desequilibrar as defesas adversárias. No geral, ideias complexas para se colocar em prática com menos de um mês de pré-temporada. No fim, foram escolhas determinantes para o seu futuro.  Definições que, de certa forma, o levaram até a demissão.  Talvez muita informação ao mesmo tempo. Não ter ensinado primeiro o "A-E-I-O-U" para, só depois, tentar separar as sílabas.

Com o calendário brasileiro tão congestionado, escolher e trabalhar uma forma de jogar na pré-temporada se torna cada vez mais importante. Com o ritmo de quarta e domingo,  pouco se treina. O dia a dia acaba servindo para "lembrar" situações já treinadas e ajustar ideias. Olhe para a Europa e veja a relevância que os profissionais dão a este longo período de treinamentos. É nele que os pilares de um modelo de jogo são construídos, visando uma estrutura forte que suporte toda a temporada.

Ciente da sua inexperiência, sobretudo com treinamentos, Rogério trouxe Michel Beale. O auxiliar-técnico inglês, com passagens por Chelsea e Liverpool, chegava para ser um suporte ideológico na criação de uma identidade para a equipe. Ceni viu no contratado alguém que pudesse o ajudar na construção dos treinamentos e exercícios que estimulassem seus atletas a jogar dentro de um modelo totalmente novo, até mesmo no âmbito nacional. 

Empolgado com a chance de ser ídolo também fora das quatro linhas, estreitou sua relação com as categorias de base, estudou equipes que praticavam um futebol parecido com o que buscava,  se aproximou da Análise de Desempenho para dissecar adversários, buscar exemplos de jogadas, vídeos referenciais, ideias novas... Enfim, tudo que poderia ser feito para iniciar bem o novo desafio. Por conta disso, trazia consigo grandes expectativas.

Apesar de ter treinado formações com três zagueiros durante os amistosos pela Flórida Cup, até por conta do passado recente são-paulino e a tendência europeia neste sentido, escolheu o 4-3-3 como a plataforma base para o São Paulo. As variações eram mínimas, geralmente para o 4-2-3-1. A questão mais importante, no entanto, era o modelo e também o fato de optar por uma linha defensiva com quatro jogadores, algo que mudaria em certo momento da temporada. Rodrigo Caio, volante nos primeiros dias de trabalho, pediu para voltar a zaga. Com João Schmidt de malas prontas para a Europa, achou (e acertou) com Jucilei. Problema resolvido.

Em seu momento ofensivo, o Tricolor atuava com seus zagueiros bem adiantados, compactando a equipe para sufocar o oponente em seu campo. Juntos do primeiro volante, faziam o balanço defensivo e ajudavam na organização ofensiva. Saiam com passes mais agudos, quebrando linhas e buscando apoios verticais. Seus laterais, abertos rentes à linha lateral, geravam amplitude (abrindo o campo) e em alguns momentos até profundidade. Com isso, o treinador são-paulino centralizava seus pontas para gerar superioridade numérica por dentro e trabalhar o jogo curto com velocidade. 

Mas a grande identidade da equipe nos primeiros jogos era a pressão pós-perda da bola. Era um time que, ao perder a posse, atacava a bola com muita agressividade. Rogério cobrava isso incansavelmente. O São Paulo praticamente não entrava em fase defensiva, muito por trabalhar nessas transições mais agressivas, retomando a bola rapidamente e, de novo, acelerando o jogo próximo do último terço do campo. E foram nessas transições defensivas que os primeiros erros começaram a aparecer. 

A perda da intensidade, principalmente no segundo tempo, fazia do São Paulo um time que fazia muitos gols, mas que também sofria muitos. As transições defensivas, desorganizadas e por vezes "preguiçosas" por parte de alguns atletas, começavam a virar o tendão de Aquiles para Ceni. Se buscava uma pressão mais adiantada, mas, quando essa bola saía da pressão, via sua equipe dando campo e espaços para os adversários atacarem. No geral, o desempenho no mínimo satisfatório (veja no vídeo abaixo uma linha do tempo tática do São Paulo de Rogério Ceni)

DataESPN: Em 3 etapas, Calçade analisa os 6 meses de trabalho de Rogério Ceni no São Paulo

Meio: os problemas estruturais e o questionamento das convicções

Até então novidade, o São Paulo de Rogério Ceni passou a ser melhor compreendido por seus adversários. Os espaços para se acelerar o jogo no terço ofensivo, antes mais frequentes, foram desaparecendo. Os rivais passaram a dar a bola para o Tricolor. Equipes mais organizadas e com estilo reativo, apostando em contra-ataques e em bolas paradas, principalmente, começaram a se dar melhor nos confrontos. Mais posse de bola, mais volume ofensivo, mais escanteios, cruzamentos, finalizações... As estatísticas frias, que pouco explicam o futebol, jogavam ao lado do treinador. Por outro lado, os resultados não vinham, mesmo que com bom desempenho em alguns jogos.

As transições defensivas eram cada vez mais desastrosas. Cícero, por exemplo, mostrava grande dificuldade neste retorno. Não tinha forças para colocar pressão na bola e muito menos se colocar atrás da linha dela rapidamente. Se por um lado a sua característica de construção, do passe e da circulação da bola, era importante, suas atribuições defensivas eram cada vez menos eficazes dentro do contexto coletivo da equipe. Com o coletivo cada vez mais enfraquecido, começou um festival de falhas individuais, Lucão, Rodrigo Caio, Douglas, Maicon... Quase que uma por rodada. 

Não pressionar o portador da bola continuava a ser um problema. A intensidade sem bola, importantíssima nos movimentos de perde e pressiona, continuava caindo. De um modo geral, faltava ao São Paulo aprender a alternar ritmo durante os jogos. O São Paulo era uma equipe que, basicamente, acelerava, perdia e pressionava, e acelerava novamente. Alternar ritmo nada mais é que intercalar momentos de maior pressão e intensidade, com um jogo mais posicional. É tentar recuperar a posse e não acelerar a todo instante, cadenciar também, "descansar" com a bola. Manter a agressividade do modo que Ceni queria durante 90 minutos é impossível. Ninguém no mundo consegue. E poucos têm o calendário tão desgastante quanto o nosso. A primeira convicção de Rogério Ceni começava a ser quebrada.  

Outra questão muito importante que enguiçava a fluência do modelo de jogo são-paulino era o trabalho dos pontas. Ficava cada vez mais claro que, tirando Marcinho, as opções no elenco não conseguiam fazer esse trabalho mais curto por dentro, com toques rápidos e com grande velocidade de execução, principalmente por se tratar de uma zona muito pressionada no campo. A queda de desempenho de Cueva também era sentida, já que se trata do jogador com mais recurso técnico para tal função.

Ao mesmo tempo os contra-ataques adversários castigavam o São Paulo. As bolas paradas defensivas também chegaram a ser problema durante um período. Com tudo isso, a confiança e a força mental dos atletas iam ladeira abaixo. Fez da equipe de Rogério Ceni um time incapaz de reagir à situações desfavoráveis. Era cada vez mais nítido o abatimento com gols tomados. Foram várias os momentos de bom desempenho, gol sofrido e apagão geral. O time simplesmente parava de jogar. Resultado: duas eliminações em poucos dias. Paulistão, para o rival Corinthians, e Copa do Brasil, para o Cruzeiro.

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Veja o gráfico da oscilação do São Paulo de Rogério Ceni no Brasileirão
Veja o gráfico da oscilação do São Paulo de Rogério Ceni no Brasileirão

Fim: a ruptura na essência da equipe e os erros conceituais

Nem o desempenho vinha mais. Convencido de que não poderia manter o nível de intensidade que planejou no início do ano, Rogério mudou. Ao invés de conduzir sua equipe a um nível de entendimento para que se alternasse melhor o ritmo, entendeu que era o momento de buscar uma fase defensiva mais posicional. As transições defensivas, que antes eram marcadas por pressionar a bola, seja onde ela estivesse, passou a ser feita com intuito de colocar o máximo número de jogadores atrás da linha da bola. Marcar de forma mais zonal, controlando espaços. 

O sistema com três zagueiros também foi fixado e o São Paulo passou a defender em um 5-4-1. Tinha algumas leves variações nessa fase defensiva e na fase ofensiva usava o 3-4-3 (ou 3-4-2-1), soltando ainda mais os laterais. O balanço defensivo, por exemplo, não mudava tanto. Já que foi se trocado um zagueiro por um volante. Em certo momento, aliás, a equipe cresceu de produção. Passou a ter um desempenho melhor e conquistar vitórias. A mais emblemática delas contra o Palmeiras, dentro de casa.  Militão, com muita versatilidade, foi a boa notícia e era peça chave para variações para o 4-2-3-1.

Só que o São Paulo equilibrado passou a se transformar em um São Paulo pouco criativo. A falta de pressão ao portador da bola passou então a desencadear um outro tipo de erro: o posicionamento corporal da linha defensiva. A ideia de alinhas cinco jogadores neste momento, inclusive, é justamente para neutralizar infiltrações. Mas o resultado foi o inverso. Errando muito o conceito de bola coberta e descoberta, a linha defensiva era vazada a todo momento. O clássico contra o Corinthians é um grande exemplo. Portador da bola sem pressão, jogadores todos posicionados de frente e não lateralmente, complicando a troca de direção. Os 15 primeiros minutos na Arena do rival foi praticamente um massacre, todo criado em cima dessa situação conceitual, básica até. Algo que cabia ao treinador explicar aos atletas e corrigir nos treinamentos.

Outro fato muito equivocado era a formação dessa linha, principalmente em bolas que poderiam resultar em impedimentos dos atacantes adversários. Por estar sempre torta, com jogadores saindo e outros ficando, deixava os rivais sempre em condições para chegar na cara do gol. Resumindo, já não se pressionava o adversário mais a frente, mas também não se controlava espaços como o proposto.  A mistura de ideias causou uma desordem geral.

O fato de ter tentado construir a equipe a partir do ataque e não da defesa, também pode ter influenciado para tamanha confusão. Talvez a inexperiência tenha sido decisiva neste momento. Ao meu ver, de fato, o ídolo poderia ter investido mais em conhecimento, se resguardado por um período maior e, principalmente, pegado um pouco mais de rodagem, seja como auxiliar, nas categorias de base, clubes menores...

A ruptura de comportamentos criados lá no início custava caro. Os atletas não desenvolveram a antiga ideia e nem absorveram por completo a nova. Enquanto isso, jogadores chegando, outros saindo... Um mercado livre dentro do clube, que complicou ainda mais a construção de uma nova ideia. Sendo bem claro, foi uma tentativa de se trocar de pneu e de carro ao mesmo tempo, com ambos em movimento. Um caos, uma situação praticamente impossível de administrar com bom desempenho em campo. 
 

O futebol (ou falta dele) no São Paulo

Se olharmos para outras comissões técnicas pelo país afora fica claro que o São Paulo tem problemas. Além de um estafe reduzido, Rogério tinha ao seu lado poucas pessoas pensando futebol. Beale e Pintado eram os auxiliares. O primeiro já teve seu perfil pontuado aqui. Já o ex-volante são-paulino tem características totalmente diferentes. Após grande rodagem como treinador, chegou ao clube por conta da sua identificação e por ter um caráter mais agregador, com a ideia de ser uma ponte entre comissão e jogadores. Em sua vasta carreira pelo interior paulista como técnico, no entanto, Pintado sempre apresentou conceitos e ideias de jogo totalmente diferentes das tentadas por Ceni.

A Análise de Desempenho, diferente do que muitos pensam, não tem o poder de tomar grandes decisões dentro do contexto de um clube futebol. Chegou de maneira mais profissional ao São Paulo somente em 2015 (2015!!!). E muito se fala sobre essa nova profissão, principalmente ligando ela às contratações de jogadores. Mas não é por aí. Trata-se apenas de um braço de todo processo. Estes departamentos, definitivamente, não contratam ninguém. Ajudam na varredura do mercado, na análise e na prospecção de nomes para serem observados, os identifica e, junto com a comissão técnica, os acompanha. Depois disso ainda é necessário o crivo da diretoria. Sem contar que ainda existem as negociações, as concorrências, os interesses de empresários ou mesmo de dirigentes... 

No meio de todo essa bagunça, até estes tipos de profissionais, que ainda têm a função de analisar adversários, treinamentos e a própria equipe, entram no balaio de forma injusta. Apesar de serem muito bem qualificados, estão apenas em dois por lá. O Corinthians, por exemplo, conta com seis profissionais e usa a mesma metodologia desde 2008, tamanha a demanda e importância do trabalho. O Palmeiras tem quatro, ou seja, o dobro do São Paulo.

Ao mesmo tempo também não se tem um gestor técnico capacitado para tomar decisões ligadas ao jogo. Uma pessoa que tenha, além da administração do dia a dia, um olhar técnico. Que possa observar treinamentos e entender pelo menos parte do trabalho diário no campo. Afinal, não é só durante as partidas que se deve analisar e chegar à conclusão sobre o trabalho de um treinador. O dia a dia pesa muito. A relação dele com os jogadores, o desenvolvimento dos treinamentos, a evolução ou mesmo interpretar questões como resultado e desempenho. Tudo isso estaria embaixo do guarda-chuva desse profissional, que traria essa visão mais sistêmica para o ambiente.

O São Paulo não tem uma gestão profissional do seu departamento de futebol. O Palmeiras, usando mais um rival para a comparação, conta com um diretor de futebol e um gerente de futebol. Sem falar que conta com um Coordenador Científico e mais de um preparador físico. Atualmente é um dos clubes que mais investe em pessoas, em mão de obra qualificada dentro do departamento. Os resultados, aos poucos, vão aparecendo. Não se faz futebol sem qualidade de pessoas. Não adianta ter os melhores equipamentos do mundo sem elas para manuseá-los. A diferença se faz assim.

Com ou sem Rogério Ceni, já passou da hora do São Paulo se estruturar melhor neste sentido. Apostar em pessoas mais atualizadas, em ideias e conceitos de futebol que dão resultados. Criar uma identidade de jogo para o clube e trabalhar em prol disso. Outra etapa importante nessa retomada é construir um ambiente mais leve, mais vencedor e profissional. Não são poucas as pessoas que passam pelo Morumbi que reclamam do dia a dia, da metodologia e do ar hostil que foi criado nos últimos anos.

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