Mauricio Barros

Mauricio Barros

Como Lucão, eu já tive 21 anos. Nessa idade, a vida tem que ser mais leve

Maurício Barros
Maurício sugere 'mudança de ares' para Lucão e avalia: 'São Paulo tem time para estar em uma condiçã

Ando curtindo a grisalhice, mas não se engane: um dia eu já tive 21 anos, exatamente como Lucão. E, como ele, nessa idade já trabalhava duro, inclusive de sábado e domingo, conciliando com a faculdade. Verdade que eu ganhava umas 30 vezes menos que o Lucão, mas a rotina era tão pesada quanto.

Como repórter de um jornal paulistano, eu rodava a cidade, do Centro ao Jardim Robru, do Itaim Paulista a Marsilac, cobrindo os casos policiais mais escabrosos que você possa imaginar. Do "banguela que cospe fogo na favela" ao "Natal no prédio da aids", foram várias manchetes do Notícias Populares calcadas em meus, digamos, achados jornalísticos.

Batismo de fogo. Você saía da redação com três linhas de um Boletim de Ocorrência e mais nada. O resto era contigo. Ah, os anos 90. Pelo menos o jornalismo era melhor e a gente aprendia...

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Um ano e pouco depois, já não aguentava mais aquele ambiente. Não da redação, que adorava por ter ao lado amigos que até hoje seguem comigo, dando sentido a essa travessia. Mas tudo o que é intenso é, também, desgastante. Aquele universo doído já não me estimulava, pelo contrário: deprimia. Passei a apurar pior, a debater pior, a perguntar pior, a escrever pior. Até que surgiu uma janela e saí.

Lembrei de mim ao ver o Lucão dizer ontem, ao final da derrota são-paulina para o Galo, no Morumbi, por 2 a 1, que "para a alegria de muitos, já já estou indo embora". Ele tomou uma chuva de vaias depois que falhou gravemente no gol da vitória dos mineiros, cortando uma bola nos pés do algoz Rafael Moura. A semana começou e tricolores seguem querendo sua cabeça, seu fígado, seu sangue.

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O futebol sabe ser cruel e monstruoso quando quer. Lucão é o vilão da vez, e em suas costas está depositado o fracasso que deveria ser dividido entre todos - técnico, jogadores, diretoria.

Não foi a primeira falha capital do garoto. Lucão é reincidente. Mas isso não quer dizer que seja ruim, pelo contrário. Alguém que chega a titular do São Paulo, com trajeto de seleções de base, já é um vencedor no ultracompetitivo mundo da bola. O problema é que o ambiente anda hostil demais para ele.

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E olha que tanto Lucão quanto seu chefe, Rogério, tentaram e insistiram. Mas há momentos em que é preciso agir com inteligência e pragmatismo, mesmo que sobrem razões para não capitular.

A torcida não vai deixar Lucão em paz. Mesmo que ele vire artilheiro do Brasileirão, salve um chute de peito na linha do gol, anule Luan, Scarpa e Lucas Lima jogando só com a canhota, na primeira espirrada as vaias voltarão.

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Além da questão humana de trata-lo com dignidade, o clube precisa preservar seu patrimônio. Lucão tem valor de mercado e não é pouco. O melhor que tem a fazer é trocar de ares. Ele não precisa carregar esse peso nas costas. Aos 21 anos, a vida tem que ser mais leve.