Gian Oddi

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Eurico Miranda faz de São Januário a sua Coreia do Norte: até quando?

Armando Paiva/Agif/Gazeta Press
Eurico Miranda durante apresentação de Luis fabiano no Vasco
Eurico se comporta, em 2017, como se estivésse cinco décadas atrás 

É desnecessário, para qualquer vascaíno, detalhar a tradição democrática do Clube de Regatas Vasco da Gama, forjada através de lutas por "negros, pobres e operários", como diz a música entoada pela torcida que "ergueu São Januário".

É curioso, portanto, que um dirigente que se considera a personificação do Vasco trabalhe com tamanha intensidade para destruir um rótulo que vale tanto - ou mais - que os inúmeros troféus conquistados pelos jogadores dentro de campo em quase 120 anos de história.

Não foram poucos, nas últimas semanas, os fatos ou relatos que apontaram para este caminho.

Nas redes sociais, ao menos centenas de torcedores relataram ter sido bloqueados pelas contas oficiais do clube depois de emitirem opiniões contrárias à atual gestão - a repercussão cresceu quando vascaínos célebres como o ator Bruno Mazzeo e o ex-jogador Juninho Pernambucano relataram o fato em suas contas.

Nesta semana, a torcida Guerreiros do Almirante (GDA) informou, através de nota, que não iria a São Januário para o jogo contra o Avaí devido a ameaças feitas por grupos ligados à diretoria; disse, também, que "vêm ocorrendo diversos casos de agressões a sócios e torcedores, fazendo com que nossa casa tenha se tornado um ambiente hostil ao torcedor vascaíno" (leia a nota completa). Não foi um relato isolado de tal prática.

E de fato, neste último sábado, não foram poucos os relatos informando que a confusão entre torcedores do Vasco, ainda no primeiro tempo, ocorrera porque integrantes de uma torcida organizada conhecida por ser uma espécie de milícia da atual gestão vascaína partiu para cima de outros torcedores que se manifestavam com os gritos de "Fora, Eurico!".

Por fim, o trabalho da imprensa, um dos pilares de qualquer democracia, continua parcial ou totalmente vetado dentro de São Januário, dependendo do caso. Eurico, como é praxe desde suas gestões mais antigas, se considera no direito de vetar o trabalho de jornalistas de empresas nas quais um ou mais profissionais tenham emitido opiniões críticas ao seu trabalho.

Neste contexto, é essencial não perdermos de vista, também, todo o imbróglio que cercou o processo eleitoral que trouxe Eurico Miranda de volta à presidência vascaína em 2014.

São episódios, todos eles, baseados em relatos de fontes diversas e que trazem fortes indícios ou mesmo provas de ações reprováveis. As respostas do Vasco, quando o clube opta por se manifestar, são pouco convincentes e/ou facilmente questionáveis - suas posições, quando existentes, estão disponíveis nos links em cada um dos parágrafos acima.

É incrível que Eurico Miranda e aqueles que o cercam não sintam sequer constrangimento ao agir de tal forma em pleno século XXI. Eurico se comporta como uma espécie general congelado no ano de 1968, que, ao despertar no século seguinte, ignora completamente a conjuntura e contexto que o cercam em 2017.

O mais impressionante, porém, é que consiga fazê-lo.

São Januário, nas mãos de Eurico, virou a Coreia do Norte do futebol brasileiro.