Gustavo Hofman

Gustavo Hofman

Seleção russa segue seu processo de involução

Gustavo Hofman

Era uma vez uma geração promissora comandada por um dos melhores técnico do mundo. Em 2008, a Rússia viveu o melhor momento de seu futebol depois do fim da União Soviética. Com Guus Hiddink, alcançou as semifinais da Eurocopa, foi eliminada pela Espanha e terminou a copetição no terceiro lugar.

O treinador holandês, que assumira o cargo em 2006, promoveu uma revolução, principalmente, na mentalidade do jogador russo ao atacar o comodismo deles em não sair do país. Os jogadores da seleção ficam ricos jogando na Rússia, não precisam deixar suas casas para fazer fortunas. Isso, porém, afeta a competitividade e a própria evolução deles como jogadores.

Com Hiddink, muitos atletas se transferiram para grandes centros posteriormente. Andrey Arshavin foi para o Arsenal, Diniyar Bilyaletdinov acabou contratado pelo Everton, Roman Pavlyuchenko se tornou jogador do Tottenham, Aleksandr Kerzhakov defendeu o Sevilla, Pavel Pogrebnyak foi para o Stuttgart, depois Fulham e Reading... Só que um resultado acabou com toda mudança em curso.

Após ficar na segunda colocação no Grupo 4 das eliminatórias para a Copa do Mundo, atrás apenas da Alemanha, a Rússia encarou a Eslovênia na repescagem como favorita. Venceu na ida, em Moscou, por 2 a 1, mas de maneira desastrosa foi batida na volta por 1 a 0 e ali acabou o sonho do Mundial, e tudo de bom que estava acontecendo no futebol russo.

Dean Mouhtaropoulos/Getty Images
Golovin foi um dos titulares na seleção russa
Golovin foi um dos titulares na seleção russa

A partir dali, com a saída de Guus Hiddink, erros em série fizeram com que a seleção russa andasse para trás. Dick Advocaat chegou, levou o time à Euro de 2012, venceu um jogo na competição, empatou outro e acabou eliminado na fase de grupos com o decepcionante revés para a Grécia por 1 a 0. Foi embora e deu lugar a Fabio Capello.

Com as ideias burocráticas do italiano e sem qualquer envolvimento com o futebol local, o time seguiu regredindo tecnicamente. Alcançou o Mundial no Brasil, mas deu vexame com um futebol extremamente pobre. Dois empates (Coreia do Sul e Argélia), uma derrota (Bélgica) e mais uma eliminação rápida.

Ao invés de demiti-lo, a Federação Russa seguiu com Capello e só corrigiu o erro em julho de 2015, com a involução em progresso forte. Leonid Slutskiy, um dos técnicos mais vitoriosos do futebol russo na última década, foi chamado e pouco fez. Com sua mentalidade defensiva e pouca capacidade de armar bons ataques, prosseguiu com os vexames.

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Na Euro 2016 começou bem, empatando com a Inglaterra, e depois voltou à rotina dos últimos anos com tropeços para Eslováquia e País de Gales. Assim, em agosto do ano passado, completamente perdida nas decisões, a RFU chamou Stanislav Cherchesov para o comando.

Aos 53 anos, o veterano treinador, de longa carreira, jamais conquistou um título na Rússia. Vinha de uma temporada vitoriosa na Polônia, onde ganhou o campeonato nacional e a Copa com o Legia Varsóvia. Foi chamado por, teoricamente, conhecer muito bem o Campeonato Russo e ser capaz de organizar uma seleção competitiva, sem qualquer inovação tática. Faz o feijão com arroz, ou no caso, o borshch.

Disputou nove amistosos, venceu três, empatatou três e perdeu três. Nada apresentou de novo e levou um grupo de 23 jogadores que atuam na Rússia (sinal dos tempos...) para a Copa das Confederações. Incluindo o brasileiro Guilherme, goleiro do Lokomotiv, e com os desfalques de Alan Dzagoev e Artem Dzuba, além de Mário Fernandes. Neste sábado, diante da fraca Nova Zelândia, venceu por 2 a 0 na abertura da competição.

Na fase defensiva os russos marcaram com Dzhikiya, Vasin e Kudryashov formando a linha de três defensores, da direita para a esquerda. Samedov e Zhirkov foram os alas, mas sem a necessidade de recomposição para formar a linha com cinco - isso ocorreu apenas nos momentos em que a seleção recuava muito. Glushakov jogou pelo centro no meio-campo, com Erokhin pela direita e Golovin - maior talento jovem do time - fechado pela esquerda, tendo Smolov e Poloz mais à frente. Na prática, a Rússia marcou em uma variação de 3-5-2 para 5-3-2.

Já na fase ofensiva, Glushakov era a peça-chave na saída de bola, se posicionando à frente de Vasin. Dzhikiya abria pela direita, com Kudryashov fazendo o mesmo pelo outro lado. Erokhin e Golovin tinham liberdado para atuarem como meias, buscando as jogadas com Samedov e Zhirkov. No ataque, Smolov e Poloz se movimentavam bastante. Atacavam sempre com seis jogadores pelo menos e muitas vezes sete.

Empolgada e motivada por jogar em casa, apesar dos muitos lugares vazios nas arquibancadas em São Petersburgo, a Rússia foi para cima da Nova Zelândia e pressionou muito. Criou pelo menos duas boas oportunidades e poderia ter feito o gol. Depois os neozelandeses conseguiram adiantar a marcação e chegou a ser perigosa com lançamentos ou jogadas de bola parada.

O gol saiu aos 31 minutos. A Rússia perdeu a bola e pressionou a Nova Zelândia na intermediária ofensiva. Recuperou a bola e Poloz achou Glushakov na entrada da área, como elemento surpresa, para dar o passe e colocar o meia na cara de Marinovic. O jogador do Spartak Moscou deu um toquinho por cima do goleiro, a bola tocou na trave e Boxall, contra, completou o serviço.

No segundo tempo os russos voltaram com mais ímpeto ofensivo e, acima de tudo, mais velocidade. Poloz foi o grande destaque, aparecendo para finalizar, criando jogadas e abrindo espaço para os companheiros. Algo natural até, diante da fragilidade do adversário. Só que ele foi substituído pelo grandalhão de 1m93 e veterano Bukharov, tirando justamente a movimentação do ataque.

Coube ao bom Smolov tentar algo diferente, e foi justamente em uma jogada toda construída por ele que saiu o segundo gol do jogo. Armou, achou Samedov e apareceu na área para concluir. Depois, Cherchesov sacou Erokhin e colocou em campo o volante Tarasov, fechando o time aos 32 minutos. Smolov deixou o campo no final para ser aplaudido.

Os russos tiveram 57% de posse de bola e finalizaram 17 vezes, contra dez dos neozelandeses. No final das contas, uma vitória magra, simples e com a cara dessa atual seleção russa. Um time comum.