Gustavo Hofman

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De piada ao título, o fim do jejum do Spartak Moscou no Campeonato Russo

Gustavo Hofman
É campeão! Spartak Moscou vence e volta a conquistar o Russo após 16 anos

Após o fim da União Soviética, simplesmente não havia rivais para o Spartak Moscou no novo Campeonato Russo. Entre 1992 e 2001 foram nove títulos, sequência quebrada apenas em 1995 pelo surpreendente Alania Vladikavkaz, do técnico Valery Gazzaev. Na sequência, com o ditado popular ao contrário, a tempestade veio depois da bonança.

Foram 16 anos de jejum na primeira divisão da Rússia. Período de seca, com diversas trocas de treinadores, muitas contratações feitas e somente decepções ao final das temporadas. Coube a um técnico italiano reescrever a história do clube.

Massimo Carrera chegou ao clube como assistente técnico de Dmitri Alenichev no início desta temporada. Após a eliminação do Spartak na terceira fase preliminar da Europa League para o AEK Larnaca, do Chipre, o treinador russo caiu e seu assistente técnico italiano assumiu o time. É a primeira experiência de Carrera como treinador principal, já que ele trabalhara até a chegada na Rússia como assistente de Antonio Conte na Juventus e na seleção italiana.

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Massimo Carrera foi campeão em seu primeiro clube como treinador principal
Massimo Carrera foi campeão em seu primeiro clube como treinador principal

De lá para cá, estabeleceu uma cultura vencedora no clube. Com todo pragmatismo tático que lhe é devido, Carrera organizou a defesa do Spartak e fez o ataque funcionar. Agiu bem no mercado de inverno, reforçou a equipe e conduziu o Spartak Moscou ao décimo título russo de sua história, conquistado neste final de semana com a vitória por 1 a 0 sobre o Tom Tomsk, aliada ao tropeço do Zenit diante do Terek Grozny por 1 a 0 faltando três rodadas. O triunfo se soma aos 12 soviéticos para totalizar 22 campeonatos nacionais.

"Ele foi jogador e trabalhou por muito tempo na Juventus. Tem uma filosofia de trabalho, preza muito a união do time, fala conosco para não fazermos grupinhos. Trabaho físico bem forte também, além, claro, de toda parte tática", explica Luiz Adriano, contratado justamente no início do ano. Ele, ao lado do experiente Aleksandr Samedov, foram os reforços que aumentaram a qualidade do elenco.

O atacante brasileiro teve adaptação muito fácil. Como fala russo por ter jogado no Shakhtar Donetsk, não sofreu com o cirílico. Além do mais, ele foi um pedido do próprio Carrera, já conhecedor das características do jogador que estava no Milan. "Aceitei por ser um desafio novo, um campeonato novo pra mim em um time tão importante". Até agora disputou cinco partidas e marcou dois gols.

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Jogadores do Spartak celebram no vestiário
Jogadores do Spartak celebram no vestiário

Para quem trabalha na cobertura diária do treinador italiano, suas virtudes são percebidas. "Ele é uma pessoa incrível. Acompanhei toda inter-temporada, ele é muito sério. Todos os treinamentos fechados, conversa pouco com a imprensa, mas trabalha muito. Todo mundo gosta dele no clube. Engraçado que há um ano era praticamente um desconhecido aqui", garante Grigory Telingater, jornalista do site Championat.com.

Em campo, o holandês Quincy Promes foi o grande destaque. Aos 25 anos, contratado ao Twente em 2014, vive o melhor momento da carreira e está extremamente valorizado. Tem 11 gols e é o vice-artilheiro do Russão. Há mais qualidade, porém, no time.

"O Zobnin, nosso camisa 47, é um jogador que sabe jogar com a bola, tem boa técnica e já é da seleção russa. Realmente me chamou a atenção, é um jogador completo, tem velocidade e marca muito bem também", conta Luiz Adriano. "Todos me receberam muito bem, isso foi o que mais me surpreendeu. Eu joguei com o Fernando no Shakhtar, e também enfrentei o Spartak em um torneio amistoso nessa época, então conhecia alguns jogadores", completa, citando o ex-volante do Grêmio - o terceiro brasileiro é o zagueiro Maurício, ex-Palmeiras.

Já fora de campo, além de Carrera, há outro personagem extremamente importante em toda essa história. Leonid Fedun comprou o Spartak Moscou em 2011 e trocou 11 vezes de treinador, até chegar no atual. Investiu grande parte da sua fortuna no clube, tanto em reforços como em melhorias na infra-estrutura. Nesse período construiu a Otkrytie Arena, que será palco de jogos na Copa das Confederações e Copa do Mundo.

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Leonid Fedun, bilionário e proprietário do Spartak Moscou
Leonid Fedun, bilionário e proprietário do Spartak Moscou

Fedun ocupa a 226a posição na lista de bilionários mundiais com US$ 6.3 bilhões. Ele é o maior acionista da Lukoil, uma das maiores empresas de petróleo do mundo, mas faltava a conquista no futebol. "Todos tiravam muito sarro do Leonid Fedun por não ter troféus, nada, nenhum. Virou piada. Ele fala muitos absurdos também, critica os jornalistas por elogiarem jovens jogadores, por achar que sempre rotulam novos Messis", conta Telingater.

Agora, a festa para valer ainda está para acontecer. Afinal de contas, a vitória sobre o Tom aconteceu no sábado e o título só veio no domingo, com a derrota do Zenit. "Estamos comemorando, mas ainda não teve a festa oficial. A comemoração var ser grande", garante Luiz Adriano.

Historicamente o Spartak Moscou sempre foi conhecido como o time mais popular da Rússia. A própria origem do clube está ligada aos sindicatos e, consequentemente, à classe trabalhadora. No entanto, algumas pesquisas recentes apontam o Zenit São Petersburgo com a maior torcida do país.

Polêmica popular à parte, o clube se prepara agora para jogar novamente a fase de grupos da Liga dos Campeões. Certamente reforços virão, e isso dependerá novamente dos investimentos de Leonid Fedun, que comparece a todos jogos em casa e tem o costume de ir ao vestiário no primeiro e no último jogo da temporada. Irá, pela primeira vez, com o título russo garantido e rindo por último.