Renato Rodrigues

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Físico, adaptável, vertical e... Simples! Conheça os segredos do surpreendente Monaco de Leonardo Jardim

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty
Leonardo Jardim durante treino do Monaco antes do duelo com o City
Leonardo Jardim, ex-treinador de handeboll, é um dos grandes responsáveis pelo grande momento do Monaco

Líder da Ligue 1 e na semifinal de Champions League. O Monaco, sem dúvidas, é uma das grandes surpresas da atual temporada europeia. Mas, enfim, o que faz de tão extraordinário o português Leonardo Jardim para levar sua equipe a resultados e desempenhos tão significativos? Trata-se de uma revolução na forma de se jogar futebol?

Por incrível que pareça, não. Trata-se de uma equipe "simples" em sua essência. E ser simples, neste caso, não é ruim. Longe disso! É um simples que eleva suas individualidades de forma coletiva e que se faz uma das equipes mais competitivas da atualidade. Um simples muito, mas muito mesmo, bem feito. E isso tem valor.

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Começamos pelo sistema utilizado: o 4-4-2 que quase nunca tem variações. Muito utilizado por equipes do mundo todo em seu momento defensivo, que se compactam com duas linhas de quatro, trata-se de uma plataforma pouco buscada quando se está no momento ofensivo. Quando ataca, o time do Principado chega até a se posicionar em um 4-2-2-2, naquele beabá do futebol que assistimos por muitos anos: dois volantes, dois meias e dois atacantes. Mas o que difere os Les Rouge et Blanc é a forma como conseguem se adaptar a diferentes situações e estratégias dentro de um jogo.

O Monaco tem alta capacidade de alternar ritmos. É, em sua essência, um time que se dá melhor quando reage. Tem em seu elenco jogadores verticais e de muita força física, que tendem sempre a colocar mais velocidade em suas ações. Conseguem, por vezes, propor bem o jogo, tanto que já viveram situações deste tipo dentro do próprio Campeonato Francês, mas dificilmente vão fugir das características de seus principais jogadores.

Sem a bola, também tem grande naturalidade para alternar sua marcação em bloco alto, médio ou baixo, que nada mais é que avançar, pressionar em uma zona intermediária ou marcar perto de sua área. E tudo isso, definitivamente, confunde seus adversários.

Contra o Manchester City, no Etihad Stadium, por exemplo, subiu suas linhas e complicou a equipe de Pep Guardiola na iniciação das jogadas, principalmente no primeiro tempo. Quando necessário, também trouxe esse bloco compacto para trás (como vemos na imagem abaixo). Já contra o Dortmund, na Alemanha, adotou uma proposta mais recuada. Nas duas ocasiões, no entanto,  a estratégia de Leonardo Jardim prevaleceu. Vale ressaltar que, independente da região do campo, a ideia de marcar sempre por zona prevalece. Fazem encaixes e perseguições apenas dentro do setor, sempre buscando pressionar ao máximo o portador da bola, mas sem grandes quebras na linha defensiva.

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Monaco, que alterna muito o posicionamento de seu bloco defensivo, se defende contra o City de Guardiola
Monaco, que alterna muito o posicionamento de seu bloco defensivo, se defende contra o City de Guardiola

Quando perde a posse, o Monaco reage rápido. Em um primeiro momento, faz o "perde e pressiona", mas, ao perceber que a bola saiu dessa zona de pressão, rapidamente se coloca atrás da linha da bola, sustentando suas linhas. Uma transição defensiva muito bem feita e coordenada.

Outro ponto interessante é que, normalmente, buscam induzir seus adversários a construir suas jogadas pelos lados do campo. Quando isso acontece, fazem bem o preenchimento para pressionar o lado da bola (imagem abaixo explica um pouco disso). Também trazem uma grande organização nas linhas de cobertura. Mesmo que o adversário vença um lance pessoal sobre um de seus jogadores, existem sempre jogadores prontos e posicionados para neutralizar as jogadas.

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Monaco preenche muito bem setor da bola e faz pressão no lado. Repare onde Lemar, meia pela esquerda, está na jogada
Monaco preenche muito bem setor da bola e faz pressão no lado. Repare onde Lemar, meia pela esquerda, está na jogada

Ainda dentro do momento defensivo vale frisar a participação de seus dois atacantes (Mbappé e Falcao/Germain), que sempre pressionam e incomodam a saída de bola do adversário. Seja fechando o passe dos zagueiros ou mesmo limitando as ações dos meio-campistas que recuam para buscar a bola.

Agora voltamos aos momentos em que o Monaco tem a bola. Quando se instala no campo do adversário a equipe tem um padrão bem claro para construir suas jogadas. Fabinho é quem, normalmente, recua para buscar a bola e organizar o jogo por trás (veja na próximafoto). A primeira etapa de construção depende muito do brasileiro.

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Fabinho recua entre os zagueiros para fazer a saída de 3. Brasileiro é peça chave no funcionamento da equipe
Fabinho recua entre os zagueiros para fazer a saída de 3. Brasileiro é peça chave no funcionamento da equipe

Enquanto isso os laterais buscam avançar pelos corredores, gerando amplitude e, por vezes, profundidade pelos lados. Lemar e Bernardo Silva, os meias pela esquerda e direita respectivamente, flutuam para dentro para trabalhar o jogo curto e combinado (veja todo esse posicionamento e funcionamento abaixo).

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Posicionamento da equipe no momento ofensivo: laterais abrem e meias circulam pela região central
Posicionamento da equipe no momento ofensivo: laterais abrem e meias circulam pela região central


Quando avançam no campo, tentam a triangulação pelos lados. Trazem o oponente para a zona da bola para tirá-la rapidamente da pressão e acelerar o jogo no lado oposto. Como dito acima, até quando possuem a bola e se estabilizam com ela, criam alternativas para colocar a bola em zonas com mais espaço, onde ganham campo para seus atletas verticalizarem suas ações.

Muito por conta disso, contam com jogadores de grande infiltração e que atacam muito bem os espaços. Talvez a grande jogada da equipe seja a bola trazida de fora para dentro por Bernardo Silva, que, ao buscar sua perna boa (esquerda), estica na diagonal de Mbappé, que tem muita força de arranque para antecipar os zagueiros. A ilustração abaixo mostra um pouco dessa ideia:

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Lance muito corriqueiro no momento ofensivo do Monaco: bola na diagonal de Bernardo Silva para M'bappé
Lance muito corriqueiro no momento ofensivo do Monaco: bola na diagonal de Bernardo Silva para Mbappé

Quando apontamos o time do Principado como uma equipe que se dá melhor quando reage, atrelamos isso às suas transições ofensivas. Seus jogadores são treinados para tal e reagem muito bem à recuperação da bola. São vários os momentos na temporada que, ao recuperar a posse, bastam poucos passes para ir para dentro do gol adversário. O jovem Mbappé (18 anos) talvez seja a grande figura representativa disso. Tem uma explosão muito forte nestas corridas em direção à meta e já surpreende o mundo com sua capacidade e frieza de concluir as jogadas. Sem dúvidas, trata-se de um dos atacantes mais promissores do futebol mundial.

E não é só no camisa 29 que está a juventude do Monaco: Sidibé (24), Mendy (22) - laterais físicos, porém com recursos técnicos -, Jemerson (24), Jorge (21), Bernardo Silva (22), Bakayoko (22), Boschilia (21), Lemar (21)... Atualmente o clube é um dos maiores celeiros de promessas. Depois de investir em grandes nomes anos atrás, agora miram para esse modelo de gestão: buscar em todo o mundo grandes valores, melhorá-los e vendê-los por altos valores. É muito provável, inclusive, que algumas saídas aconteçam na próxima janela de transferências.

Resumir este surpreente Monaco nesta temporada não é uma tarefa tão difícil. O que dá trabalho é executar tantas coisas de forma tão bem e regular ao mesmo tempo. É um time físico, de muita força, chegadas em velocidade e, principalmente, letal. Sua alta capacidade em se adaptar a diferentes situações é o que, de fato, faz a diferença. 

 

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