Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira

O inglês que fez mais do que Rodrigo Caio, mas não quis o 'duplo' Fair Play

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

Em 24 de março de 1997, o Liverpool tinha 30 jogos e 57 pontos, estava em segundo lugar na Premier League, e visitava o Arsenal — mesma pontuação, 31 partidas disputadas. O jogo dos que tentavam alcançar o líder, Manchester United (63 pontos em 31 pelejas) era importantíssimo, como a tabela deixava bem claro.

O inglês que fez mais do que Rodrigo Caio, mas não quis o 'duplo' Fair Play

Aos 19 minutos da etapa final, o polêmico atacante Robbie Fowler entrou velozmente na área para se transformar em personagem de famoso episódio no velho estádio Highbury. Ele foi "presentado" com um pênalti após a disputa com David Seaman, que o fez saltar sobre o famoso arqueiro da seleção da Inglaterra.

Ao perceber que o árbitro Gerald Ashby assinalara a penalidade máxima, o camisa 9 dos Reds pediu que não a marcasse, pois não havia sido tocado pelo goleiro Gunner. O atacante bateu e Seaman defendeu, mas Jason McAteer empurrou para as redes, no rebote. E Fowler comemorou com os colegas e o meia da seleção irlandesa, autor do gol.

Depois acabou ganhando o prêmio de Fair Play da Uefa por sua honestidade. No entanto, o próprio artilheiro do Liverpool admitiu que não perdeu de propósito: "Como goleador, é parte do meu trabalho fazer os gols, e eu queria marcar", publicou o Guardian. "Eu tentei marcar o gol, não perdi de propósito. Aconteceu, foi uma má cobrança de pênalti", acrescentou, sincero, como registra o jornal inglês.

O atleta fez mais do que Rodrigo Caio, abrindo mão da chance de colocar seu time em vantagem no placar por intermédio de um pênalti. Quando viu que seu nobre gesto de nada adiantara ante a teimosia do apitador, tentou converter a penalidade máxima.

Não seria mais coerente perder de propósito? E o gol valeu a vitória na casa do rival, 2 a 1, consequentemente a vice-liderança a três pontos do líder, United (que seria o campeão), com sete rodadas a serem disputadas. Eram 21 pontos em jogo. Que resultado! 

Veja o gol da vitória do Corinthians sobre o São Bento por 1 a 0

Outro personagem do domingo no Morumbi, Jô cavou falta dentro da área na primeira rodada deste mesmo campeonato paulista, diante do São Bento. Perguntaram a ele após a peleja:  "Foi pênalti ou malandramente?" E respondeu, sorrindo: "Os dois um pouquinho. Tem que ser sincero". Sincero como Robbie Fowler.

O grande problema do tema "Rodrigo Caio" são os que rotulam como "desonesto" todo aquele que tem coragem de debater o que envolve o episódio. É óbvio que a atitude do rapaz foi digna, bonita, elogiável, mas analisar o contexto não significa criticar o zagueiro. Porém, o atacante inglês fez mais ainda, tentou abrir mão de um pênalti a seu favor quando sua equipe já vencia por 1 a 0 e o seu time lutava pelo título nacional.

É, mas toda aquela honestidade não foi levada às últimas consequências.Por ser futebol e nele existir o desejo de vencer, não apenas de quem entra em campo. Muitos quiseram acreditar que Fowler perdeu de propósito, mas o próprio disse que não. Os motivos? Profissionalismo de artilheiro, como ele mesmo falou? Pode ser. Receio? Talvez.

Será que os torcedores do Liverpool tolerariam duas ações de "Fair Play" no mesmo lance? Não há como analisar situações do gênero tirando do contexto, como se não existissem tantos interesses e emoções em torno de um jogo. Por essas e outras me parece injusto cobrar postura ilibada apenas dos atletas, enquanto a maioria da imprensa e da torcida se cala ante tantas ações nada honestas no esporte. Em campo e fora dele.

Provavelmente sem querer, Rodrigo Caio tentou dar exemplo. E deu, foi um exemplo de espírito esportivo. Mas estamos, todos, preparados para isso? Aptos a abrir mão de uma vitória sobre o rival por conta de um gesto nobre? Vejamos quem irá seguí-lo. Oportunidades não faltarão. E se acontecer, que seja, sempre, uma via de mão dupla.   

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