Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

Entrevista do mês: Roger Machado fala sobre Atlético-MG, Grêmio e em explorar essência do futebol brasileiro: 'Todos beberam da nossa água'

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Bruno Cantini/Clube Atlético Mineiro
Roger Machado Treino Atletico-MG 28/02/2017
Roger Machado ao lado de seu auxiliar Roberto Ribas, durante treinamento na Cidade do Galo

No dia 26 de maio de 2015 Roger Machado recebia sua primeira oportunidade como treinador de uma equipe da elite do futebol brasileiro. Assumia o comando do Grêmio após passagens por Juventude e Novo Hamburgo. Antes havia sido auxiliar do próprio Tricolor, clube que carregava grande identficação ainda dos tempos de jogador.

Foram quase dois anos de lá para cá. Erros, acertos, aprendizagem e muita busca por evolução... Após grandes desempenhos que fizeram do Grêmio uma das mais fortes do Brasil em 2015, acabou deixando Porto Alegre após uma queda de rendimento em 2016.

Veio então um breve período sabático, usado para descansar e, principalmente, se atualizar. Roger Machado, após muita especulação de interesses de vários clubes, escolheu seu próximo destino: o Atlético-MG. Nessa longa entrevista exclusiva para o blog, o treinador abriu o jogo sobre como trabalha e pensa o futebol. Falou sobre o atual estágio do trabalho no Galo e o que vislumbra para sua  equipe nesta temporada.

O gaúcho ainda nos trouxe muitas reflexões importantes sobre o futebol. Falou em buscar referências no futebol das décadas de 70 e 80, de priorizar a essência do futebol brasileiro, sobre o que priorizou em seu período sabático...

Os problemas nas bolas paradas defensivas no Grêmio também foi assunto. Outra situação muito bem pontuada foi sobre o momento do futebol brasileiro, do interesse maior "em pensar melhor o jogo" e, principalmente, formar jogadores cada vez mais inteligentes dentro do país. Confira:

 

Em que estágio vê o trabalho no Atlético-MG e o que você tem cobrado mais dos atletas neste início de ano?

Bom, a gente se propôs, desde o primeiro momento que chegamos aqui, a transformar a equipe do Atlético-MG que no ano passado foi extremamente ofensiva, com um ataque que marcou muitos gols durante a temporada passada. Por outro lado, também sofreu muitos gols. A proposta inicial foi encontrar esse equilíbrio necessário. Manter a produção ofensiva, mas criando alguns mecanismos para que gente chegasse nesse equilíbrio maior entre as ações com e sem a bola. É difícil você construir um time que tenha o melhor ataque mas que a defesa não esteja pelo menos entre as três melhores do campeonato. É difícil você construir uma equipe que postule ao título sem ter esses dois lados forte, que é o que aconteceu em 2016. O Palmeiras que foi campeão tinha números e variações muito parecidas neste sentido. Na parte defensiva, se não foi o primeiro, acho que esteve perto. Então partimos em direção disso, tentando atacar por dois lados: o primeiro, quando você está em processo de organização ofensiva, já que atacamos com bastante gente, tão logo a gente reaja rápido à perda da bola e caso não retome essa posse perto do gol do adversário, consiga fazer com que ele tome uma decisão inicial para que não ataque profundidade explorando o contra-ataque. Isso no momento ofensivo. Agora, quando você está em organização defensiva, a ideia é conseguir ter pelo menos oito jogadores atrás da linha da bola o quanto antes. Direcionar o adversário para o lado que você quer e pressionar a linha lateral usando um jogador a mais e, assim que acontece a retomada, fazer a transição ofensiva. Antes disso ainda conseguir, na transição ataque/defesa, fazer bons retornos, com um número bom atrás da linha da bola para montar o bloco defensivo. Isso acaba minimizando os efeitos de um time muito ofensivo em sua essência. Também para que não percamos essas capacidades de atacar e buscar o gol com muita frequência.

Sua ideia de modelo de jogo exige uma transformação muito grande tanto nos comportamentos individuais como coletivos do elenco atleticano. Quais são essas dificuldades neste pouco tempo de trabalho? Aonde acha que a equipe ainda precisa encaixar? Onde se surpreendeu positivamente?

Sua pergunta já traz um pouco da resposta. Realmente, gerar comportamentos demanda um pouco de tempo e continuidade das atividades, do dia a dia com os atletas... O nosso campeonato regional, felizmente, é bem organizado. E a fórmula da Libertadores, agora mais diluída, permitiu e tem permitido que nós tenhamos semanas abertas de trabalho. Com isso você começa a bater em cima de alguns princípios para gerar estes comportamentos. Questões como pressão na bola, de encurtamento na bola, de ocupação de espaço, seja para marcar ou mesmo para jogar. Tem também o comportamento de você tentar gerar superioridade numérica no setor onde a bola está. Isso te ajuda no momento ofensivo, mas consequentemente, se você está perto para jogar, você também está perto para recuperar a posse caso a perca. Defensivamente você começa a criar os comportamentos para linhas de cobertura, no processo de marcar o seu gol. É importante ter esse mecanismo em caso de falhas, em ter essa cobertura bem feita. Isso tudo demanda tempo. O bom de tudo isso é que muitos jogadores aqui são experientes, já viveram isso em outros momentos. É o caso do Robinho, do Fred... Jogadores que trazem até uma vivência de fora do Brasil. Acabam por entender muito rápido essas ideias e ajudam no processo de entendimento de passar isso para os mais jovens ou que não tiveram essa experiência durante a carreira. Vejo muitas coisas positivas. Nada que foi passado até aqui os atletas estão deixando de fazer. Agora que as coisas já foram mostradas e treinadas é preciso repeti-las e aumentar a regularidade disso dentro do campo.

Desde o Grêmio vemos que você tem algumas ideias nítidas dentro de seu modelo de jogo. Sabemos que você assiste muito futebol, busca se atualizar e estudar. Quais são suas referências? Da onde vem suas inspirações para todo esse processo?

Pois é. Por incrível que pareça eu não tenho uma referência forte com um treinador em si. Nem estrangeiro. Na verdade eu gostaria de ter mais com treinadores brasileiros. Talvez o grande pecado é que os nossos grandes treinadores que construíram a história do futebol brasileiro, caso do Telê Santana, Ênio Andrade e tantos outros que contribuíram para o crescimento do futebol. A verdade é que tem pouca coisa escrita sobre modelos táticos. Temos uma literatura mais voltada para grandes conquistas e grandes equipes. Sempre que encontro alguém de mais idade e que viveu no período desses caras e que teve contato com eles. Sempre busco saber como eles pensavam o futebol para ver se posso assimilar alguma coisa. Mas de toda forma, se tu quer entender bem o processo defensivo, por exemplo, tem que procurar, inevitavelmente, a escola italiana. Fazem e desenvolvem isso como ninguém. Se a gente quiser o jogo ofensivo, de vitória pessoal, a gente tem que buscar isso no nosso jogo. A gente, historicamente, levou para o mundo essa forma de jogar. A Espanha, que também tem um jogo bastante ofensivo, dá para dar uma olhada. A Alemanha com um jogo forte de transição, de marcar alto... Então, mais que os treinadores, as culturas, sobretudo, acaba te ajudando. Eu quero na verdade ter um novo olhar sobre o nosso jogo. Da nossa cultura, do futebol brasileiro... Afinal de contas, todo mundo bebeu da nossa água. Nós vemos na raiz, na essência de várias culturas, um pouco do nosso jogo. Por isso eu gosto muito de ver grandes times da década de 70, 80... Procurar entender alguma coisa daquele jogo e atribuir os conceitos mais contemporâneos, na forma de jogar atualmente, com um futebol mais intenso, mais rápido. Mas tentar extrair do nosso jogo as qualidades para construir as equipes. E como treinador, por mais que eu tenha conseguido montar time no trabalho anterior com características peculiares, eu tenho que perceber o material humano que está nas minhas mãos e tenho que me adaptar muito ao que estes jogadores vão me oferecer em campo. Preciso descobrir que tipo de jogo eu posso praticar com os atletas que tenho em mãos.

Jogo apoiado, aproximação, passes curtos e rápidos, abertura de linhas de passe... Talvez esta tenha sido a grande característica do seu Grêmio e que aos poucos o Galo vai tentando colocar em prática. Qual a importância disso na sua forma de pensar futebol? É algo muito treinador? Como você tem cobrado e estimulado isso com este grupo novo de atletas?

Sim. Se eu quero que essas ideais sejam transferidas para o jogo, eu preciso, antes de tudo, treiná-las. E faço isso quase que diariamente. Dois fundamentos básicos do futebol são o passe e o domínio, o controle da bola. Quando tem isso, já tem parte do jogo dominado. Então eu trabalho o passe dentro de uma estrutura de apoio, de jogo apoiado. Por que o jogo apoiado é a minha concepção de jogo? Porque existem duas formas de se levar vantagem sobre o adversário: pela superioridade numérica no setor da bola ou com habilidade. Eu desejo que, em uma fase de construção, eu ganhe campo e ultrapasse os obstáculos que o meu oponente vai me oferecer pela aproximação e essa superioridade no setor. A medida que eu consigo transferir isso para um jogador que tem como virtude a vitória pessoal no 1x1, vou brigar por essa habilidade na hora e no lugar certo. Então a gente trabalha muito passe e apoio. Não a posse pela posse. A posse como meio para você desestruturar o adversário e atacar profundidade. Quando você consegue jogar apoiado, sempre com boas linhas de passe, principalmente com diagonais muito próximas ao portador da bola, você consegue progredir no campo e atacar a área com um número maior de jogadores. Você pode optar por uma profundidade mais direta, com jogadas de um tempo só. Nesse caso você terá uma velocidade maior, mas talvez sem um número relevante de jogadores à frente da linha da bola.

Superioridade na esquerda e movimentação de Luan

Muitas equipes brasileiras mostram alguma dificuldade na iniciação das jogadas e o Atlético-MG chegou a ter problemas neste sentido em alguns momentos da temporada. Por outro lado, nos grandes centros, os zagueiros estão virando até peça chave nessa construção ofensiva, com passes mais agudos e que quebram linhas. O quanto você acha importante estimular os zagueiros a dar esse tipo de passe mais vertical?

Hoje o goleiro no futebol mundial já é uma peça importante no início da construção ofensiva. No Brasil ainda não temos esse hábito. E em alguns momentos, quando você pega um campeonato estadual, por exemplo, que a qualidade dos gramados não é tão boa, por vezes você não consegue usar a figura do goleiro. Agora os zagueiros já não participam apenas do momento defensivo da partida. A medida que você precisa colocar mais gente atrás da primeira linha do adversário, muito em função do encurtamento do campo, de um bloco mais baixo, esses jogadores acabam participando do processo de iniciação, principalmente no terço central do campo. Porém, em alguns momentos, algumas situações fazem com que os zagueiros tenham que abrir lateralmente muito para dar uma opção de passe, com uma linha de três para gerar desequilíbrio no adversário. Mas tem também o processo de transição defensiva, que eles estariam longe do centro da ação e podendo ter um pouco mais de dificuldade em intervir de forma precisa no jogo defensivo. Talvez usar isso com um pouco de cuidado, muitas vezes dou uma preferência de formar uma linha com três com um volante ou até mesmo rodando o time e fazendo uma saída com três usando um lateral. Isso para que os zagueiros fiquem onde eles podem ser mais úteis na sua principal característica, que surgem no momento de guardar o gol e defender bem a nossa meta.

Antes de assumir o Atlético-MG você ficou um tempo parado. Que tipo de experiência você buscou nesse período? Vemos que o Tite, por exemplo, buscou muitas referências na construção ofensiva enquanto esteve parado. Quais necessidades você via como melhoria para sua carreira? Tentou absorver mais coisas que o te fizessem dar um passo adiante na carreira?

De um modo geral a gente busca observar um pouco de cada coisa. Sempre existe espaço para você observar, mesmo que você entenda que dentro do princípio do seu jogo você consiga construir bem, sempre tem espaço para evoluir. Seja no que for. No ano passado, em alguns momentos, ainda no Grêmio, a gente sofreu com as bolas paradas defensivas e isso me fez refletir, busca algumas questões relacionadas a isso. Observar as variações no processo, as diferentes culturas, ver as respostas em cada forma de marcar, seja por zona, mista, zona com bloqueio... Para agregar um pouco mais mesmo. E também dentro do processo ofensivo, a forma como você chega ao gol, como constrói esse momento. Com quantos jogadores as equipes estão atacando a profundidade, como faz esse desequilíbrio no adversário, quanto de posse para isso, a busca por um momento adequado para fazer esse ataque... Isso tudo você vê em culturas diferentes e às vezes vê que ter a bola não significa que você tem o controle do jogo. Que por vezes você pode oferecer a bola para o adversário e controlá-lo também, porque você está controlando os espaços. Essas coisas eu busquei bastante.

DataESPN analisa marcação aérea por zona do Grêmio e deficiência na bola parada

Hoje, depois de ter visto outras maneiras de marcar, outros processos, você consegue identificar melhor o por quê teve tanto problema com bola parada defensiva no Grêmio? Você chegou a trocar as maneiras de marcar esse tipo de situação, tentou mudar, ajustar... Já era algo detectado naquela época?

Na verdade, a média de gols de bola parada que a gente sofreu no ano passado, não foi maior que a média mundial deste tipo de gol. A questão é que alguns jogos importantes foram decididos nessa bola parada. Por conta disso, chamava mais a atenção. Se a gente pegar o último mundial, 40% dos gols foram feitos de bola parada. Seja de forma direta, com cruzamentos e cabeceios, por exemplo, ou em um segundo lance após ganhar segunda bola, que acabavam se transformando em gol. Ainda com as equipes em organização de bola parada. Então mais que a questão da forma de marcar, seja individual, mista ou por zona, talvez seja muito mais a questão do hábito diário, do número de sessões de treino que tu disponibiliza para este tipo de ação. Se a gente entender que de 30 a 40% dos gols acontecem assim, pelo menos 30% das minhas sessões de treinamento eu devo direcionar para trabalhar essas variáveis. Acho que é muito de identificar o perfil dos jogadores. Por vezes um atleta pode não ser bom no enfrentamento individual, no corpo a corpo, mas ataca bem a bola em um ponto mais alto. Detectar essas características e tomar a decisão em qual tipo de marcação você pode investir. Às vezes você não tem um time muito alto, mas com jogadores de imposição física, você acaba fazendo uma mista com bloqueio... Eu vi muito e de várias formas isso. Li muitos artigos falando das diferenças desse tipo de marcação, qual a incidência e o percentual de acerto dessas variáveis. Esse ano no Atlético-MG foram dois gols assim e estamos abaixo da média. E eu tenho feito o mesmo tipo de marcação, que é a zona com bloqueio. Isso para que os caras que podem embalar e na velocidade lançada acavalar na minha linha, não consigam ter vantagem contra meus jogadores de zona, que vão atacar o ponto mais alto.

Em seu trabalho no Grêmio, durante momento defensivo, você usou muito o conceito de marcação zonal. Já o Atlético-MG, nos últimos anos, sempre usou um sistema de encaixes individuais, com perseguições longas e desgarres da linha defensiva. O futebol vem mudando bastante nos últimos anos, antes com essa individual forte, depois bem zona, agora um pouco de cada uma... Como você vê toda essa mudança constante no futebol?

Bom, eu costumo caracterizar como marcação de encaixe com perseguição curta, média ou longa. Uma marcação zona, mas com encaixe por setor, se desfazer muito das linhas porque quanto mais eu conseguir que minha equipe se mantenha organizada para tomar a posse do adversário, mas os jogadores estarão nas suas posições para iniciar o processo ofensivo. Hoje todos jogadores conseguem visualizar isso. Os jovens já sobem da base com esse conceito de marcação por zona. Os mais velhos com uma experiência no exterior também já viveram muito disso. O que eu vejo nessa questão é que a zona te dá muita capacidade de tu fazer uma leitura do espaço, jogar em aproximação, atacar as profundidades e ocupação dos espaços. Já a marcação encaixada te permite muitos duelos individuais, e aí a capacidade de vitória pessoal tanto ofensiva quanto defensiva diz muita coisa. Mas para mim não existe um certo e um errado. A por zona te dá algumas coisas e tira outras, assim como na individual. Agora, se você acredita mais em uma do que na outra, trabalhando muito bem e fazendo com que os jogadores tenham o entendimento necessário, das duas formas podem acontecer. Eu vejo o futebol como algo muito cíclico. Acredito que a marcação de forma mais zonal tenha vinda de outros esportes para sobrepor a capacidade individual do nosso jogador, que tem muito da vitória pessoal. A partir do momento que você faz por zona, com boas coberturas de suporte, fica mais difícil para que ele execute e vença nesse 1x1 contra uma sombra mais dobrada. É acreditar e trabalhar. Não tenho preconceito com nenhuma ideia, mas tenho por preferência uma marcação mais zonal, com pressão ao portador da bola, cuidando bem dos espaços, induzindo o adversário para alguma faixa determinada do campo e roubando a bola de forma mais organizada.

No futebol sabemos o quanto é necessário circular a bola com velocidade para desequilibrar seu oponente e achar espaços para serem atacados. Essa melhora na velocidade de execução de seus atletas é algo que você continua buscando? Mantém um sistema de métrica e metas para os jogadores atingirem neste sentido?

Sim. A gente tem essas métricas e temos alguns parâmetros para alcançar. Na verdade a troca de passes precisa ter alternância de distância, de velocidade e de direção. Na medida que eu não mude a velocidade do passe, seja ele mais rápido ou mais lento, o adversário consegue identificar e passa a se comportar da mesma forma. Se for na mesma direção, acontece a mesma coisa. Então é preciso ter essa alternância nestes três quesitos que me referi. Isso para que você consiga fazer com que o adversário fique focado no objeto central do jogo, que é a bola, e perca a noção do entorno, onde você pode se aproveitar dos espaços que vão aparecendo. Pode ser atacando entrelinha, seja em profundidade... A gente tem feito muito esse trabalho aqui no Atlético. Algumas coisas bem definidas, como o pós-perda, a velocidade dessa troca de passes, o tempo dessa retomada da posse... Quatro ou cinco variáveis, seja ofensivas ou defensivas, a gente tem mapeado e acompanhado a evolução disso nos jogos e treinamentos.

Muito em cima dessa última resposta, o quão necessário você vê que no Brasil a gente passe a trabalhar cada vez mais a questão cognitiva dos atletas? Qual a importância de formarmos jogadores mais inteligentes?

A verdade é que braços e pernas são apenas ferramentas. O jogo em si é cognitivo de um modo geral. Aliás, muito cognitivo. O jogador de futebol toma, em 90 minutos, 40% a mais de decisões que uma pessoa comum em um dia inteiro. Então é um esporte altamente cognitivo. Uns usam mais suas virtudes físicas, outros essa capacidade cognitiva para decidir as ações do jogo. Então, você produzir problemas através do treinamento para que o atleta solucione, e que estes problemas sejam condizentes com os que acontecem dentro de uma partida, para mim é você instrumentalizar para que ele possa tomar as melhores decisões. O talento do brasileiro, do nosso jogador, que improvisa, que por vezes faz um jogo mais plástico, vai ser sempre decisivo. Mas, na medida que esse jogo se transfere para todas as áreas do campo, e cada vez mais com a velocidade muito maior, tomar decisões mais rápidas vai tornar aquele que conseguir executar bem muito mais valioso para o esporte. E a gente tem que tomar cuidado para não perder a característica do nosso jogador, que é habilidoso, faz um jogo muitas vezes mais intuitivo, que é muito importante. Porque é dado ao atleta um problema dentro do campo, ele tem três ou quatro resoluções, mas é através dessa capacidade que ele vai achar uma saída que não foi treinada e quem ninguém imaginava que poderia acontecer. Então é criar problemas no treinamento e estimulá-los a resolver em campo da melhor forma.

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Como vê o atual momento do futebol brasileiro? Acha que é um período de ruptura e quebras de paradigma em várias áreas que envolvem o esporte?

É preciso entender o futebol como um fenômeno. Desde muito tempo é analisado e estudado os eventos do jogo, só que agora de uma forma mais profunda e com um conhecimento maior. Isso por ter surgido também novas ferramentas para te trazer um pouco melhor o que acontece dentro de uma partida. Hoje se tem muito conteúdo sendo produzido. É só olhar para as estatísticas, as métricas... Vejo isso com bastante otimismo, mas também com um pouco de cuidado porque quantitativamente a gente tem muitos dados, mas é preciso também olhar e analisar de forma qualitativa. Algumas coisas que não aparecem na estatística, você precisa observar de forma mais qualitativa estes dados. Temos elementos táticos envolvidos. Tem o adversário que impõem uma dificuldade, por exemplo. Muitas vezes o número puro não te traduz o que acontece dentro do jogo. São muitas variáveis envolvidas. Mas é bacana perceber que há um interesse muito maior, que existe um envolvimento dos clubes cada vez maior desenvolvendo departamentos, que os profissionais do campo estão usando, a tecnologia sendo desenvolvida... Aí você também vê o interesse em entender a importância não só de quem fez o gol. Pessoas querendo entender um pouco desse nosso esporte que é tão rico.

Vemos cada vez mais equipes que não têm grande tradição e poderio financeiro complicando as coisas para clubes maiores. A Libertadores mesmo é um grande exemplo para vocês do Atlético-MG. Como enxerga este tipo de situação? É difícil lidar com a cultura do brasileiro que acha uma "obrigação" golear essas equipes menores?

Você pode, muitas vezes, não ter jogadores brilhantes individualmente, mas construir grandes equipes coletivamente. O talento vai sempre decidir, porém, se você não tem isso individualmente, você pode criar grandes dificuldades no aspecto coletivo. E hoje você tem todos esses países que não tinham uma cultura muito forte dentro de uma competição com a Libertadores muito mais evoluídos. Não ter a tradição de não disputar a competição não quer dizer muito. Se você chegou à competição é porque no anterior você se capacitou e se credenciou a disputar uma competição desse tamanho. Com isso tem se mesclado cada vez mais grandes clubes com outros de pouca tradição, mas que fizeram grandes temporadas em seus respectivos países. É um pouco de arrogância da nossa parte imaginar que, por produzirmos grandes jogadores e historicamente ter tradição na Libertadores, não vamos enfrentar dificuldades. É um campeonato muito duro, que se decide rapidamente em 14 rodadas. E às vezes, em um momento bom que a equipe está pode fazer toda diferença na hora de avançar e buscar um título.

Qual liga no mundo você gosta mais de ver? Existe um campeonato que te atrai mais? Por que?

Eu gosto de ver vários níveis e várias escolas. Em alguns momentos você vê em campeonatos com menos tradição treinadores mais jovens, mais atualizados, e que estão pensando algumas coisas diferentes. Caras que podem fazer história no futuro. Gosto de ver de tudo, não tenho uma grande preferência ou um mercado em si. Até porque você olha um Campeonato Espanhol, por exemplo, onde a questão financeira acaba determinando, você pode não encontrar um tipo de organização que demonstre uma forma diferente de se jogar. Os jogos acabam sendo muito decididos com talento individual, nos grandes nomes que estes times têm em seu elenco. Vejo todos e também gosto de ver outros esportes. Assisto muito o rúgbi, porque vejo um jogo coletivo muito forte, situações muito próximas com as que acontecem no futebol. Gosto muito de ver o basquete, o handebol também, pelo fato de o princípio do jogo ser muito parecido. Assisto um pouco do futebol americano também. Por ter o processo ofensivo e o defensivo bem diferente, separados por duas equipes e você consegue enxergar bem algumas coisas nestes momentos do jogo. Resumindo, vejo de tudo.

O que é jogar bem para você?

Pois é, cara. O que é jogar bem? Vamos lá. O princípio do jogo de futebol é você fazer gols e não tomá-los. O jogo tem fases e momentos, organização ofensiva, defensiva, transições e as bolas paradas. Você pode muito bem acreditar nisso e fazer um jogo que priorize totalmente o momento da bola parada. De usar bem os tiros de meta, os laterais mais longos, escanteios, faltas laterais... Você pode acreditar em ter a bola e tentar dominar o jogo e o adversário com 80% de posse. Por outro lado você pode abrir mão da bola, ter 40% de posse, apostar nas transições defesa/ataque e chegar no gol do seu oponente em menos de 10 segundos. Às vezes até com pouquíssimos toques na bola. Nós como treinadores precisamos estar sempre muito aberto e prestando bastante a atenção no que você tem de material humano. Jogar bem é vencer e vencer significa fazer gols e não tomar gols. Agora, a forma que você faz, plasticamente pode ser mais bonita, jogando com a bola no chão e envolvendo o adversário. Por outro lado você pode usar a característica de um jogador de área, por exemplo. Eu joguei em um time na década de 90 (Grêmio) que tinha o Jardel de centroavante. Ele pedia para gente não tocar a bola no pé dele, que não era para tentar uma tabela. Ele queria bola no alto, bola para disputar de cabeça. Era chegar no lado do campo e alçar bem essa bola para área. Ele pedia para chutar na cabeça dele. A gente fazia e lá dentro ele acabava resolvendo. Então o jogar bem é relativo. O esporte é um espetáculo. Para mim, prestigia o espetáculo é ter o maior tempo possível de bola rolando. E você pode fazer isso de várias formas. Pode ser com a bola, sem a bola, transição... Acho que o que está na regra do jogo a gente deve usar. Existem várias maneiras de se ganhar e várias de se jogar bem. Você pode ter uma bola e ser eficiente. Pode criar dez chances e não conseguir marcar, passando a ser considerado um ataque pouco eficiente por você ter concluído mal perto das chances que você criou. Então depende, depende muito...

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