Gustavo Hofman

Gustavo Hofman

Abrir ou não abrir os treinamentos, eis a questão

Gustavo Hofman
GazetaPress
Seleção brasileira treina diante dos torcedores, no Morumbi
Seleção brasileira treina diante dos torcedores, no Morumbi

Passei 40 dias na cobertura da seleção alemã na Copa do Mundo. Tirando os dias anteriores à chegada e o posterior à decisão, foram 36 dias de Alemanha no Brasil em 2014. Destes, sete foram dedicados a jogos. Sobraram 29, certo? O time treinou em 28, e só não realizou treinamentos nos 29 porque a atividade no dia seguinte à vitória sobre a Argélia foi cancelada por causa da prorrogação e o maior deslocamento percorrido pelo time.

Desses 28 treinamentos, somente um foi totalmente aberto à impresa. O único exigido pela Fifa durante a Copa do Mundo, e não por causa dos jornalistas, mas sim pelos torcedores. Logo, acompanhei 27 treinamentos dos alemães em território brasileiro, e em todos pude observar somente os primeiros 15 ou 20 minutos e depois (ou antes) participar da coletiva de imprensa, onde havia educação e atenção por parte dos entrevistados.

Relato isso para defender e concordar com a decisão da comissão técnica da Seleção Brasileira em fechar os treinos para o jogo contra o Paraguai, assim como o fiz durante o Mundial em relação à prática alemã.

Na semana passada as atividade nos CTs de Corinthians e São Paulo foram totalmente abertas, assim como os treinos pós-goleada contra o Uruguai. Eu mesmo, neste blog, relatei tudo que aconteceu na terça-feira, como jogadas de bola parada e movimentações táticas. Sem qualquer proibição determinada ou acordopara não divulgação estabelecido e, inclusive, com torcedores liberados na arquibancada do CCT da Barra Funda. Vários canais de televisão transmitiram ao vivo.

É dever do jornalista, que acompanha um treinamento, assistir o que acontece no campo e entender tudo aquilo. O diploma de jornalismo não ensina a analisar futebol, por isso é fundamental para quem atua no meio buscar conhecimento e se aperfeiçoar. Passar a vida na arquibancada ajuda, mas não é suficiente. No meu caso, específico, busco isso através da Universidade do Futebol, mas existem diversos cursos e atividades práticas no mercado. Há muita gente boa por aí falando sobre futebol!

A discussão trazida no título deste post não se resume ao clichê "treino fechado não ganha jogo". Vai muito além e merece reflexão, apesar de não ser complexa. Pergunto: o treinamento serve para quem? Jornalistas e torcedores ou jogadores e treinadores? Claro que a torcida tem o direito de saber sobre o dia a dia do clube, afinal, futebol é paixão também. Mas é a profissão de muita gente, que precisa trabalhar e se preparar para as enormes cobranças diárias desse mundo.

Há, claro, a preocupação em não passar detalhes táticos e de jogadas ensaiadas, mas a questão maior tem que ser a privacidade. Para o treinador é a possibilidade de dar uma bronca ou conversar com algum atleta em particular. Para o jogador é a tranquilidade em trabalhar ou brincar com um companheiro sem o medo de ser mal interpretado.

Quando tratamos especificamente de seleções, então, onde o tempo de preparação para os jogos é mais curto, se torna ainda mais colaboradora a possibilidade de dedicação total aos treinamentos. Foco absoluto nas atividades, sem preocupações com o que está ou não está sendo mostrado.

No entanto, a assessoria da federação ou confederação precisa ser pró-ativa no relacionamento com a imprensa para fornecer todas informações possíveis. Assim como treinadores e jogadores têm que entender a importância da cobertura jornalística para a torcida, acima de tudo.

Por isso a necessidade de liberação para imagens no início ou final dos treinos, além de coletivas maiores e sem respostas monossilábicas. Eventos de relacionamento entre ídolos e fãs também são importantes, para aproximar time e torcida caso optem por não liberar quaisquer atividades.

Tudo isso jamais deve inibir o necessário trabalho de apuração de informações com fontes. Jornalismo não se faz apenas com informações oficiais. Assim como a criatividade é necessária para fugir do óbvio.

Nesta polêmica questão sobre fechar ou não fechar treinamentos não há "certo" ou "errado". Há pontos de vista diferentes.

No universo de clubes a realidade é distinta, por exemplo. Por ser algo diário e não periódico, o convívio entre jogadores e jornalistas é muito maior, além de haver culturas específicas de cada clube. Logo, o relacionamento é mais próximo e gera mais conteúdo também. Tanto é que, nesse caso, não vejo necessidade em se fechar todos os treinamentos, podendo assim determinar um ou mais, por semana, abertos ao trabalho da impremsa e/ou à torcida.

O mais importante, em todos os casos, é haver respeito. Pelas regras pré-estabelecidas, pelo trabalho alheio e pelas pessoas.