Gustavo Hofman

Gustavo Hofman

O inesquecível dia que jamais existiu na vida de Oscar

Gustavo Hofman

O texto a seguir é uma obra de ficção, com pitadas de realidade

Foi uma decisão surpreendente. No primeiro semestre de 1984, a Fiba informou que não haveria mais a proibição a atletas profissionais da NBA para participarem de suas competições a partir do ano seguinte. Nos bastidores, os comentários eram de que a USA Basketball pressionara a entidade pela mudança da regra.

Nos Jogos Olímpicos a medalha de prata de 1972 ainda gerava polêmica, enquanto no Mundial os universitários norte-americanos não conquistavam o ouro há muito tempo. Como a próxima edição dos Jogos Pan-Americanos aconteceria em Indianápolis, em 1987, eles queriam evitar surpresas desagradáveis em casa. Além disso, um jovem talentoso de North Carolina chamado Michael Jeffrey Jordan parecia ser uma estrela, que inclusive já estava treinando com a seleção para a Olimpíada de 1984. Depois dessa edição, quando assinasse contrato com um time da NBA, não poderia mais defender a equipe.

O Draft aconteceu em 19 de junho. Akeem Olajuwon, pivô nigeriano da Universidade de Houston, foi a primeira escolha, indo para o Houston Rockets - posteriormente ganhou um H no primeiro nome. Era realmente muito talentoso, merecia ser o jogador número 1. Depois muitos foram surpreendidos com a opção do Portland Trail Blazers, que já tinha Clyde Drexler no elenco, e optou por se reforçar com Sam Bowie ao invés de outro armador, no caso Michael Jordan, que acabou no Chicago Bulls.

Depois saíram Sam Perkins (Dallas Mavericks), Charles Barkley (Philadelphi 76ers), Melvin Turpin (Washington Bullets), Alvin Robertson (San Antonio Spurs), Lancaster Gordon (Los Anfegeles Clippers), Otis Thorpe (Kansas City Kings) e assim por diante, passando por um promissor armador escolhido pelo Utah Jazz (John Stockton, 16o) até a 47a escolha ao final da segunda rodada.

O comissário David Stern, que realizou seu primeiro Draft, anunciou só os nomes de primeira rodada, deixando depois todos os scouts e general managers trabalharem alucinadamente nos dias seguintes em busca de mais reforços. Foi assim que Oscar Schmidt acabou recrutado pelo New Jersey Nets na sexta rodada e na 131a posição.

Para os norte-americanos aquele ala brasileiro de 2m05, que jogava na Itália, ainda era um desconhecido. Não chamou a atenção da grande mídia, que se preocupava apenas com os relatos de seus repórteres enviados sobre as primeiras escolhas. Aquela classe do Draft parecia ser realmente muito boa.

Só que no Brasil, Óscar, como os americanos diziam, já era uma estrela. Campeão mundial com o Sírio em 1979, medalha de bronze no Mundial com a Seleção no ano anterior, ele já era uma figura conhecida para quem gostava de esporte. Desde 1982 estava no Caserta, do basquetebol italiano, onde fora campeão da segunda divisão e ganhava ótimo salário.

Jamais, porém, cogitou atuar na NBA já que não poderia seguir com a Seleção. Aquela decisão da Fiba mudou tudo.

Oscar ficou sabendo pela TV que fora escolhido pelos Nets. Ninguém ainda tinha ligado para a casa dele ou para seu clube. O primeiro contato foi superficial, de um diretor que ele não entendeu bem o nome, e informou que eles o encontrariam no período de treinamentos da Seleção para a Olimpíada de Los Angeles nos Estados Unidos.

O Brasil fez diversos treinos em território norte-americano, chegando a enfrentar a Universidade de Auburn, de Charles Barkley. Nessas partidas, Oscar arrebentou, com amplo domínio sobre seus marcadores, que não conseguiam impedir os arremessos que saíam do alto de suas cabeças. Ficavam com torcicolo de tanto olharem para cima.

Em um desses dias, Stan Albeck, técnico dos Nets, encontrou Oscar. A conversa foi rápida, mas suficiente para o treinador passar toda confiança no brasileiro, o qual já tinha acompanhado nos amistosos recentes e o conhecia das competições de seleções. No entanto, não podia oferecer um grande salário por causa das limitações da liga e do grande elenco que tinha em mãos. Sem a proibição de defender o Brasil, Oscar Schmidt aceitou o desafio, passou a ganhar menos e se tornou o primeiro jogador brasileiro na NBA.

Veio a Olimpíada e o Brasil decepcionou ao cair ainda na fase de grupos com uma vitória contra o Egito e quatro derrotas para Austrália, Itália, Iugoslávia e Alemanha Ocidental. Depois ainda teve que jogar a fase de consolação, onde ganhou de França e China para terminar na modesta nona colocação. Oscar foi o terceiro cestinha da competição - que teve os Estados Unidos com a medalha de ouro e o boicote da União Soviética e os países socialistas - com 24.1 pontos de média.

Os brasileiros terminaram a participação em 10 de agosto e dois dias depois ainda estiveram presentes na Cerimônia de Encerramento. Depois todos foram embora, com exceção de Oscar.

De Los Angeles o jogador foi levado diretamente para Nova Jersey, onde se encontraria com os futuros companheiros. A esposa Maria Cristina ficou encarregada de levar roupas e outros documentos que ele precisaria para viver nos Estados Unidos, mas os Nets já tinham se encarregado de toda parte burocrática.

Logo no primeiro treino, Oscar recebeu o colete de titular ao lado dos armadores Otis Birdsong e Micheal Ray Richardson, além dos pivôs Buck Williams e Darryl Dawkins. Como o brasileiro apanhou naquele treinamento! Os reservas não queriam saber quem era aquele gringo, e sim bater naquele folgado que estava tomando o lugar deles. Oscar não treinou bem.

Isso fez com que ele voltasse completamente alucinado no dia seguinte. Para cada cotovelada que tomava, devolvia com outra e uma bola de três, que já existia na NBA desde 1979 e a Fiba acabara de adotá-la. Para cada pisão ou empurrão, Oscar falava meia dúzia de palavrões em português e seguia metendo bolas de longe. Uma atrás da outra, sem permitir que os marcadores sequer encostassem na bola. Ali ele conquistou o respeito de todos.

A estreia aconteceria no dia 26 de outubro de 1984, na Brendan Byrne Arena, contra o Atlanta Hawks. Era uma equipe fortíssima, com a estrela Dominique Wilkins, o ótimo Doc Rivers e os promissores rookies Kevin Willis e Antoine Carr. O ginásio lotou para a estreia.

Os jornais já divulgavam a novidade há alguns dias: "The brazilian sensation will start". Havia expectativa por parte dos torcedores.

Antes do jogo, Oscar não estava nervoso. Os companheiros conversavam com ele, o treinador passava algumas orientações, mas nada importava muito. Aquilo tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Oscar já estava em transe, obcecado por destruir o adversário, fosse ele qualquer um. No aquecimento, os torcedores ao redor da quadra estava super curiosos para ver pela primeira vez em ação em um jogo oficial o tal brasileiro que arremessava de longe.

Soa o apito. Bola ao alto e Tree Rollins leva a melhor contra Dawkins. A bola cai nas mãos de Doc Rivers, que passa rapidamente para Wilkins conseguir a enterrada poderosa.

Buck Williams bate o fundo e Birdsong conduz a bola até a quadra ofensiva. Oscar se posiciona embaixo da tabela marcado por Wilkins, quatro centímetros menor. Ele sofre o corta-luz de Richardson e na troca fica com Sly Williams, também quatro centímetros abaixo, na marcação. Desloca-se para o canto direito, Birdsong percebe e acerta o passe no fundo da quadra. Na zona morta recebe e, sem baixar a bola, com Williams dando espaço arremessa de três. A bola vai alta, voa por centésimos de segundos enquanto a torcida ainda se senta nas arquibancadas. Chuá! Não dá tempo nem de comemorar. A transição defensiva é rápida e ele tem que assumir a marcação de Sly Williams.

O jogo segue equilibrado até o fim. Dominique Wilkins é um monstro, terminaria com 34 pontos, cestinha da partida. Buck Williams dominou o garrafão dos Nets com dez rebotes, enquanto Richardson distribuiu bem as jogadas com oito assistências. Oscar teve que dividir bastante o jogo. Depois daquela bola de três, passou zerado o primeiro quarto, com poucas chances de arremessar também.

Durante a partida, o comentarista da transmissão na TV percebeu a dificuldade de Oscar na marcação. "Claramente ele tem um talento sobrenatural no ataque, mas vai ter que se esforçar muito mais na defesa. Precisará evoluir defensivamente para se tornar um grande jogador na NBA".

Oscar chegou no quarto decisivo com 15 pontos. Faltando 50 segundos, o jogo estava empatado em 100 a 100. Wilkins conseguiu boa infiltração e deixou os Hawks em vantagem. Os Nets trabalharam bem a bola no ataque e conseguiram empatar rapidamente com Dawkins, faltando 20 segundos.

Mike Fratello, técnico dos Hawks, pediu tempo e desenhou a jogada para o ótimo Eddie Johnson. Ele sabia que a defesa de New Jersey se preocuparia com Dominique Wilkins. O camisa 21 se posicionou na direita do garrafão e sofreu dois bloqueios, primeiro de Johnson e depois de Rollins. A marcação trocou e Wilkins saiu marcado, mas Johnson apareceu livre, como Fratello desenhara, na cabeça do garrafão e acertou o jump shot para deixar o placar em 104 a 102, com 4.4 segundos para o fim.

A essa altura ninguém mais no ginásio estava sentado. Oscar tinha acertado duas bolas de três, enquanto Richardson mais uma no total. Só que a jogada mais conservadora era trabalhar no garrafão com Buck Williams, e foi exatamente o que Stan Albeck programou. Richardson bateria o lateral para Oscar, que seguraria a bola e esperaria a movimentação de Birdsong por um lado e Williams por dentro, trocando com Dawkins para receber posicionado no pivô.

Quando Oscar recebeu, ele já não ouvia qualquer voz. Na verdade, ele já sabia o que fazer desde o início.

O barulho da torcida havia sumido. Ele não tinha prestado atenção nos Xs and Os do técnico, somente no momento em que percebeu seu nome sendo falado e que receberia a bola. Ela chegou nas suas mãos e o cronômetro disparou. Tudo ocorreu como previsto. Quase tudo.

Quatro, três, dois segundos para o fim... O passe não saiu.

Oscar girou de frente para a cesta, posicionado à esquerda da cabeça do garrafão. Como sempre fez, sem baixar a bola, arremessou por cima do marcador. Stan Albeck gritou algo do banco, não foram palavras amistosas.

A buzina indicando o fim do jogo ensurdeceu a todos. A bola ainda viajava.

Cesta. New Jersey Nets 105, Atlanta Hakws 104.

Oscar Schmidt venceu seu primeiro jogo na NBA naquele 26 de outubro de 1984, que jamais existiu.