Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

Em clássico de "blocos" na Vila, Santos e São Paulo provam: é possível jogar um futebol rico e atual no Brasil

Por Renato Rodrigues, do DataESPN
Gazeta Press
Os técnicos Rogério Ceni e Dorival Júnior
Os técnicos Rogério Ceni e Dorival Júnior fazem grandes trabalhos em São Paulo e Santos

Santos e São Paulo protagonizaram, na Vila Belmiro, um daqueles jogos que, sinceramente, tanto faz quem sai vencedor. Quem realmente ganha nestes tipos de partidas é quem as assiste. Com modelos de jogo ricos e até semelhantes em alguns sentidos, Dorival Junior e Rogério Ceni provaram, definitivamente, que é possível jogar um futebol equivalente ao nível das melhores ligas do mundo.

Não é um exagero.

O São Paulo ficou, com toda justiça, com os três pontos após o 3x1. Mas como foi desenhado esse embate na Baixada Santista? Que tipos de conceitos tão atuais que os dois treinadores conseguiram colocar em prática no primeiro clássico do Paulistão 2017?

Talvez a situação que mais nos chamou a atenção na partida foi a disputa pelo controle dos espaços. Muito por conta disso, as duas equipes jogaram em blocos sólidos. Mantiveram suas linhas próximas e compactas, seja no momento ofensivo ou no momento defensivo.

Na imagem abaixo, por exemplo, vemos o Santos com a bola. É um lance logo no início da partida, com os jogadores de linha já posicionados em fase ofensiva. Veja como eles usam a amplitude para abrir o campo e praticamente quatro jogadores rentes a linha defensiva do adversário, para gerar profundidade ou mesmo trabalhar entrelinhas. O início santista foi muito bom.

DataESPN
Em momento ofensivo, o Santos abre o campo e tenta empurrar o compacto São Paulo
Em momento ofensivo, o Santos abre o campo e tenta empurrar o compacto São Paulo

Com grande intensidade e organização, os comandados de Dorival tentaram sufocar o rival. Os tricolores, por outro lado, tentavam diminuir a área de atuação do adversário (como vemos na imagem acima). Tudo isso acontecia em 30 metros de grama. Ou seja, 20 atletas posicionados em um só espaço. Em um só bloco que se movia juntamente com a bola.

Nestes casos quem ataca sempre tem um ou dois companheiros próximos para jogadas combinadas e trocas rápidas de passe. Já quem defende, consegue povoar os setores e exercer maior pressão sobre o portador da bola. É um jogo de imposição e propostas.

Mas o "x" desta questão é simples. No fim das contas, tudo isso acontecia por um só motivo: a obsessão por ter a posse da bola. Enquanto Dorival trabalha este modelo de jogo desde a última temporada, quando fez grande campanha no Brasileirão, Rogério, em pouco tempo como treinador, já deixou claro que quer seu São Paulo jogando um futebol agressivo, controlador e ofensivo.

No final, a equipe da casa ficou com 58% da posse contra 42% do visitante (na imagem abaixo vemos agora o Tricolor com a bola na mesma situação da foto anterior).

DataESPN
O Santos, em seu momento ofensivo, tenta abrir o campo. Enquanto isso, São Paulo tenta diminuir a área de atuação do rival
Agora é o São Paulo que se organiza ofensivamente e enfrenta um Santos totalmente compacto

Mas ter a bola não é algo tão simples. Afinal, o que fazer com ela?

Assim como os alvinegros, na primeira metade da etapa inicial, os tricolores conseguiram fluidez em seu jogo coletivo. Ambas as equipes tiveram consigo o apoio, as aproximações e  as aberturas de linha de passe para construção de triangulações. A diferença, no entanto, foi que o São Paulo fez melhor uso dessa posse tão disputada.

Se o Peixe abriu o placar logo de cara após um grande volume ofensivo, os são-paulinos, aos poucos, foram equilibrando a situação. Apesar de não estar melhor na partida, o Tricolor chegou a igualdade ainda na primeira etapa. As equipes foram para o vestiário com 1x1. Era hora dos ajustes no intervalo. E esse descanso só fez bem para um lado.

O segundo tempo foi de total controle do São Paulo. Ainda mais concentrado e intenso, o time do Morumbi conseguiu ser ainda mais agressivo. No lance do gol da virada (imagem abaixo) é possível ver o conceito do perde e pressiona, sempre muito cobrado e estimulado por Ceni nos treinamentos. Muita pressão ao portador da bola, reações rápidas após a perda da bola e superioridade numérica no setor. 

DataESPN
São Paulo pressiona o Santos antes de recuperar a bola e ver Luis Araújo marcar o gol da virada
São Paulo pressiona o Santos antes de recuperar a bola e ver Luis Araújo marcar o gol da virada

Com um alto nível de concentração, o São Paulo esteve muito forte mentalmente. O Santos, cada vez mais pilhado, foi perdendo a mão. O amplo controle do jogo por parte dos tricolores era nítido, seja com ou sem a posse da bola. Fechando espaços, flutuando suas linhas e gerando superioridade numérica na zona da bola, o São Paulo não passou grandes sustos até o final e saiu, com justiça, vitorioso.

O desempenho do São Paulo, independente dos resultados, surpreende neste início de temporada. Não são simplesmente os placares que nos assustam e sim a riqueza de conceitos que a equipe apresenta em tão pouco tempo de treinamentos. Com um modelo de jogo que oferece riscos defensivos, principalmente quando o adversário consegue tirar a bola da pressão, Rogério ainda precisa ajustar a equipe para sofrer menos nas transições.

Já o Santos, mais maduro pelo tempo de trabalho e reforçado para 2017, não deve encarar este momento como terra arrasada. Ao contrário, tem que acreditar no caminho que está seguindo. O trabalho até aqui é ótimo e derrotas como essas, por mais doloridas que são, trazem lições que deverão ser usadas pelo restante da temporada. O Peixe, sem nenhuma dúvida, é uma das equipes mais fortes e bem treinadas do país.

E a Vila Belmiro, que já viu Pelé e Coutinho, que viu crescer Robinho, Diego e Neymar, que recebeu pinturas de Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Marcelinho Carioca, sem dúvidas, recebeu um dos clássicos mais bem jogados dos últimos tempos. Certamente foi uma das melhores partidas que vi nos últimos anos em solo brasileiro. O San-São desta quarta nos dá esperança. Fé que, em um futuro próximo, nosso futebol vai caminhar para a tal revolução que tanto precisamos.

Que assim seja!