Gustavo Hofman

Gustavo Hofman

"Na guerra você faz coisas que jamais poderia imaginar"

Gustavo Hofman

Conhecer Sarajevo foi uma das experiências mais edificantes que já tive. Em 2011 visitei a capital da Bósnia-Herzegovina e senti os horrores da guerra.

Os prédios ainda destruídos.

As marcas de balas pelas paredes.

Os cemitérios improvisados e espalhados pela cidade.

O ódio e a dor ainda latentes na fala dos bósnios.

Aconteceu tudo há pouco tempo.

Nunca gostei de visitas guiadas. Sempre tive prazer em colocar a mochila nas costas e ao lado da esposa desbravar países.

Só que em Sarajevo era diferente. Soube antes que valia a pena conhecer a capital bósnia pelo olhar de alguém local. Porque todos ali viveram a guerra.

A Ajna era uma mulher de 20 anos, não mais do que isso. Madura como uma senhora de idade. Na guerra, foi uma criança de cinco anos que sofreu.

Cresceu em escolas subterrâneas, tentando ter uma vida normal. Acostumou-se a interromper as brincadeiras de rua quando as sirenes tocavam. Ou quando as sirenes não tocavam e as bombas explodiam ao redor matando seus amigos ou familiares.

Contou, sem qualquer lágrima no rosto, as dores que sentiu, as perdas que teve. Era capaz de carregar barris de água com o dobro do peso dela. Uma criança de cinco anos.

Eu, ingenuamente, a questionei "como". Ela, com o mesmo semblante sério e triste de toda visita, calmamente respondeu: "Na guerra você faz coisas que jamais poderia imaginar".

Diversos jovens que se tornariam jogadores sofreram com isso. Contei no meu livro "Quando o futebol não é apenas um jogo" a história de Edin Dzeko, por exemplo.

Nesta semana, ao assistir o filme sobre a vida de Dejan Lovren, produzido pela Liverpool TV, me lembrei da Ajna. Das palavras dela.

Lovren teve a oportunidade de fugir do país quando era criança, graças ao avô que vivia na Alemanha, o que não impediu que a guerra marcasse para sempre sua vida.

Penso em Aleppo. Lembro dos refugiados chegando na Europa pelo Mar Mediterrâneo. Reflito sobre o radicalismo político. Recuso a acreditar em decisões de barrar famílias.

Em 2011, não chorei em Sarajevo. Hoje, pais de duas lindas crianças, tenho certeza que choraria.

LOVREN: MY LIFE AS A REFUGEE

Trailer do filme sobre a vida como refugiado de Dejan Lovren