André Rocha

André Rocha

Vasco e FERJ x Flamengo e o risco do Campeonato Carioca repetir 1998

 

Arte/ESPN
Eduardo Bandeira de Mello x Eurico Miranda: posturas distintas de Fla e Vasco
Eduardo Bandeira de Mello x Eurico Miranda: posturas distintas de Fla e Vasco

1998. Ano do centenário mais vitorioso de um clube brasileiro. O Vasco foi campeão da Libertadores e Estadual e tinha o melhor time do país.

Mas foi também o período de maior ascendência de Eurico Miranda, então vice-presidente de futebol do Vasco e representante do clube junto à Federação do Estado do Rio de Janeiro, então comandada por Eduardo Viana, o "Caixa D'água".

A receita de Eurico era simples, mas eficiente: se aliava à Federação, colocava o arquirrival Flamengo do lado oposto. Criava uma relação amistosa com os clubes de menor investimento, colaborando muitas vezes com material esportivo, infraestrutura e jogadores emprestados, a maioria com salários pagos pelo próprio Vasco, que complicavam a vida dos rivais - mas eram proibidos em contrato de enfrentar os cruzmaltinos. Em troca, recebia os votos favoráveis nas decisões do Conselho Arbitral.

Vez ou outra atraía Botafogo e Fluminense, por conveniência. Em 1998, nem isso foi preciso. O domínio político era absoluto. Eticamente discutível, mas dentro do regulamento aprovado por todos os clubes.

Obcecado por títulos no centenário para superar o Flamengo - campeão apenas da Taça Guanabara em 1995, mesmo com Romário então melhor do mundo - Eurico sabia que precisava administrar as datas do primeiro semestre inchado com Torneio Rio-SP, Estadual, Copa do Brasil e Libertadores.

Sem muita margem de manobra nas demais competições, usou toda a sua influência para antecipar e adiar jogos no Carioca. Solicitava, contava com os votos dos pequenos e conseguia mudar as datas das rodadas que afetavam seu calendário. Flamengo, Fluminense e Botafogo eram votos vencidos.

O regulamento previa uma primeira fase com os então ditos "pequenos" disputando um hexagonal em turno e returno enquanto os grandes disputavam o Rio-São Paulo. Os dois melhores se juntavam aos quatro grandes e mais Bangu e Americano - time do presidente da FERJ, Eduardo Viana - em um octogonal, também em turno e returno.

O Vasco conseguiu antecipar o jogo contra o Bangu para antes da primeira fase e diante do Americano durante esta etapa. Nenhum outro grande teve este privilégio.

Na Taça Guanabara, o time disparou na frente, aproveitando o mau início do Flamengo sob o comando de Paulo Autuori. Com a demissão do treinador e a contratação de Joel Santana, o time rubro-negro se acertou e disputou o primeiro turno ponto a ponto. Na última rodada, um empate sem gols em jogo equilibrado deu a taça aos vascaínos.

Na Taça Rio, com os jogos na Copa do Brasil e na Libertadores afunilando, o Vasco seria obrigado a priorizar o torneio continental e usar times mistos, especialmente no Carioca. Ou estourar o time e colocar em risco as conquistas do Centenário.

Inconcebível para Eurico Miranda, que conseguiu adiar todos os jogos possíveis levando as demais partidas da rodada. Fla, Flu e Bota se revoltaram e, no auge da crise, o Botafogo se recusou a enfrentar o Vasco e perdeu por WO. O Fla-Flu em Moça Bonita também não contou com a presença das equipes, que também foram punidas.

O Vasco foi campeão do returno e do campeonato com a vitória sobre o Bangu por 1 a 0, gol de Mauro Galvão, e no que seria o jogo das faixas na última rodada, o Flamengo, por protesto, não compareceu.

Carlos Germano; Vágner, Odvan, Mauro Galvão e Felipe; Luisinho, Nasa, Juninho Pernambucano e Ramon; Donizete e Luizão. O melhor time do Rio de Janeiro, comandado por Antônio Lopes, era o justo vencedor, mas em um campeonato esvaziado pelas polêmicas. Problemas? Só para os rivais. Eurico e os vascaínos celebraram a conquista como se nada de errado tivesse acontecido.

E, no rigor da lei, de fato não aconteceu. Constava no regulamento o poder da Federação de adiar os jogos em caso de necessidade ou decisão da maioria dos clubes, que aprovaram antes da bola rolar.

Eurico Miranda sempre se notabilizou pelo profundo conhecimento do regulamento e a capacidade de articulação política. Mais ainda pela capacidade de posicionar o Vasco como protagonista e principal rival do Flamengo, relegando Fluminense e Botafogo ao papel de coadjuvantes.

Alguma coincidência com 2015?

Eurico volta à presidência do Vasco com a missão dada por seus eleitores de reconquistar o respeito e até o temor dos rivais. Encontra um clube em sérias dificuldades financeiras e tenta recuperar poder de investimento.

Mas também se depara com uma torcida carente de conquistas, sem vencer o Estadual desde 2003. Com um time modesto e em formação, em tese é o único título possível no primeiro ano de mandato. Ainda mais necessário por conta da perda doída no ano passado com um gol do Flamengo em posição irregular nos minutos derradeiros da final.

Com o arquirrival equacionando suas dívidas e com um time reconhecidamente mais forte, a missão de vencer o Carioca passa obrigatoriamente pelos bastidores.

Eurico sugeriu os preços promocionais. A FERJ - comandada por Rubens Lopes, outro aliado político do mandatário vascaíno - colocou em votação. Vantagem para os pequenos e para o Botafogo, que terá o Engenhão de volta em breve. Também para o Vasco, que tem São Januário para colocar mais público e apoiar o time sem estrelas de Doriva.

Mas um duro golpe para Flamengo e Fluminense, que dependem do Maracanã para mandar suas partidas, por não contarem com estádios próprios, e perdem com os altos custos impostos pela Concessionária que administra o estádio. Também a possibilidade de promover ações junto aos sócios-torcedores.

Os maiores vencedores do Carioca têm direito de protestar por se sentirem prejudicados e lutar contra uma suposta "tirania da maioria" que oprime os insatisfeitos. A áspera discussão entre Rubens Lopes e o presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello mostra que a relação tende a ser a pior possível a partir de agora.

Na prática, porém, ambos aceitaram um regulamento que previa todas essas prerrogativas da FERJ e que em alguns períodos o beneficiaram direta ou indiretamente.

Com isso, o Vasco tem a possibilidade de frear a recuperação financeira do maior rival e ainda contar com a revolta de Fla e Flu, colocando reservas ou times mistos e fugindo do Maracanã, se desgastando com viagens a Macaé, Volta Redonda ou outra cidade vizinha para mandar seus jogos. Um equilíbrio de forças, de fora para dentro do campo.

A chance do título que o consagraria junto à grande parte da torcida vascaína que, assim como Eurico, não está muito preocupada com a força, a credibilidade e o profissionalismo no futebol do Rio de Janeiro. Apenas com a vitória do seu clube e o fracasso do rival. Raciocínio comum no combalido futebol brasileiro, repleto de disputas provincianas.

O Estadual de 1998 é a prova de que a história pode se repetir 17 anos depois.


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