Aline Cavalcante

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Pra entender da rua precisa estar nela | Bike é Legal

Aline Cavalcante

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Em abril a montadora FIAT lançou uma campanha que tinha tudo pra ser um avanço sobre o que conhecemos de publicidade de carro no Brasil, cujo conteúdo é sempre pouco (ou nada) além do óbvio compre-liberdade-você-precisa-de-status-blábláblá.

Com um olhar voltado para o comportamento das pessoas a campanha Vacilão na rua, NÃO tentou trazer para o debate as responsabilidades de todos no trânsito. Mas errou no tom, e errou feio.

Reprodução
Campanha Vacilão na Rua NÃO
Campanha Vacilão na Rua NÃO

Dois pesos, duas medidas

A campanha dos vacilões expõe uma interpretação superficial e insensível ao colocar na mesma balança, no mesmo patamar, pessoas e máquinas. "Velhinhas bondosas, ativistas sociais, instrutores de autoescola e professores de ioga. Sim, todos eles são vacilões. Nas ruas, motoristas, passageiros, pedestres, ciclistas, motociclistas e até condutores de ônibus estão vacilando o tempo todo", diz o texto da campanha.

Impossível tratar com a mesma rigidez de responsabilidades quem está utilizando um transporte humano e quem está em um transporte motorizado. Aqui não dá pra desconsiderar que o motor muda completamente a relação entre as coisas a partir do momento que se coloca em jogo as velocidades incompatíveis entre eles.

Ou seja, para transportes humanos (pedestres e ciclistas) precisamos falar em direitos e deveres (bem) diferentes de motorizados, simples assim.

Se na lei todo pedestre tem que atravessar na faixa dedicada a ele, num mundo ideal, teríamos faixas em todos os lugares. Ou melhor, não precisariamos de faixas de pedestre em nenhum lugar porque a cidade inteira seria uma gigante faixa imaginária onde os motoristas se preocupariam em desacelerar e respeitar o mais frágil de acordo com o Código de Trânsito de qualquer lugar do mundo.

Culpando quem é vítima

Quando a campanha chama de vacilão o ciclista que está pedalando na calçada ou o velhinho que está atravessando a rua bem devagar, ela simplesmente ignora uma série de questões de sobrevivência diante de anos de desrespeito com quem não tem carro no Brasil.

As ruas e espaços públicos estiveram durante décadas à serviço do automóvel que, para garantir sua fluidez, destruiu praças, árvores, enterrou rios e matou pessoas. Opa, MATOU E MATA PESSOAS todos os dias. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) "acidentes" de trânsito matam o quatro vezes mais do que em guerras e conflitos. E aqui cabe ainda uma outra discussão gigante sobre o que chamamos de "acidente" que é, muitas vezes, CRIME.

Pelo tom genérico da campanha da FIAT, um possível "erro" cometido por pedestres e ciclistas seria motivo suficiente para justificar um 'acidente'. Implicitamente passa-se a mensagem que "Morreu porque vacilou!", afinal a rua é lugar pra jovens espertos, né?! Ou então compre um carro e se proteja.

Concordo que todos temos direitos e deveres, que somos SIM responsáveis uns pelos outros, que um ciclista ou um pedestre bêbado-doidão pode ser um perigo nas ruas, porém absolutamente nada supera o inverso: Uma pessoa descompensada dentro de um carro pode provocar tragédias. Sabe por quê? Porque carro MATA, carro é uma arma, que tem licença permitida e, atualmente, impunidade garantida.

Aí está minha crítica: Como colocar todas essas questões delicadas na mesma balança num momento onde ciclistas e pedestres batalham pra *conseguir existir*, viver nas ruas e, finalmente, ter prioridade nas políticas públicas?!

Traffic calm

Querem ruas mais seguras? ACALMEM ELAS! Quanto maior a velocidade permitida na via, menor a chance de vida em caso de qualquer fatalidade. Entendo que fatalidades podem sim acontecer, mas permitir e legitimar que em vias urbanas (por onde passam pedestres, ciclistas, carroceiros, cachorros, crianças) uma máquina possa desenvolver velocidades exorbitantes de 60km, 70km e até 80km/h é uma declaração de extermínio em massa.

Um estudo do Observatório de Segurança Viária da Espanha mostrou que pessoas atropeladas por veículos a 80km/h quase sempre morrem, enquanto apenas 40% vêm a falecer com um impacto a 50km/h, e apenas 5% quando a velocidade cai para 30km/h.

Compartilhamento, respeito e convivência

Essa (e outras) responsabilidade não está na conta do custo real de um automóvel e é covardemente implícito por propagandas mentiroas. Aqui cabe pontuar que não se trata de uma guerra contra os carros, mas um manifesto pela vida, por cidades equilibradas e saudáveis.

"FIAT a marca que mais entende da rua". Por fim, se o carro é visto hoje como o símbolo de isolamento e desumanização das cidades como acreditar que uma montadora entenderia do que acontece exatamente no lugar de onde ela "enlatou" e tirou o convivívio das pessoas??

Pra entender da rua, em primeiro lugar, precisa-se estar nela.