André Rocha

André Rocha

Em cinco atos, a cronologia tática da goleada cruzeirense na Libertadores

André Rocha, blogueiro do ESPN.com.br
ATO 1 - Em entrevista à beira do campo antes da bola rolar, o técnico Marcelo Oliveira afirmou que o Cruzeiro investiria na movimentação do trio de meias e no trabalho de pivô de Marcelo Moreno para matar a sobra e confundir o 3-5-2 da Universidad de Chile - herança dos tempos de Jorge Sampaoli que o treinador Cristian Romero preservou.

No entanto, a equipe celeste não conseguiu impor o volume de jogo do título brasileiro em 2013. Muito pelo pouco brilho de Everton Ribeiro na articulação a partir do lado direito. Sem fluência ofensiva, o time brasileiro incomodava pouco, mesmo com domínio e arriscando nas finalizações.

Para encaixar a marcação com sobra atrás, Castro e Cereceda, alas de "La U", se alternavam como laterais formando uma linha de quatro na defesa. Com Lorenzetti circulando para articular, o time chileno controlava razoavelmente o jogo.

Olho Tático
O 4-2-3-1 cruzeirense que se impôs no primeiro tempo com as infiltrações de Ricardo Goulart que desarticularam o 3-4-1-2 da Universidad de Chile.
O 4-2-3-1 cruzeirense que se impôs no primeiro tempo com as infiltrações de Ricardo Goulart que desarticularam o 3-4-1-2 da Universidad de Chile.

ATO 2 - 29 minutos do primeiro tempo. José Rojas, zagueiro pela esquerda, se machuca, sai de campo para receber atendimento e volta mancando. Em paralelo, Marcelo Moreno passa a recuar ou procurar um dos lados do campo para confundir a marcação e Ricardo Goulart infiltra no espaço deixado pelo centroavante.

Em tese, o responsável pela marcação do meia central do 4-2-3-1 celeste seria Martínez. O volante, porém, só acompanhava até a entrada da área. Se avançasse, passava a ser tratado como atacante e um dos zagueiros encostava.

Quando Dagoberto cortou da esquerda para dentro, limpou Caruzzo - zagueiro da sobra que saiu pela direita e deixou González no centro - e acertou passe em diagonal para a penetração de Goulart. A cobertura seria de Rojas. Com o defensor no sacrifício, ou Martínez seguia o meia até o final, ou deixava para o ala Cereceda cobrir por dentro. Nem uma coisa, nem outra. Primeiro gol de Goulart aos 33 minutos.

Reprodução Fox Sports
Flagrante do momento em que Ricardo Goulart prepara a infiltração às costas do lesionado José Rojas com a defesa chilena descoordenada.
Flagrante do momento em que Ricardo Goulart prepara a infiltração às costas do lesionado José Rojas com a defesa chilena descoordenada.

ATO 3 - Na saída de bola, Lichnovsky já estava em campo substituindo Rojas. Mas na sobra, não pela esquerda. Caruzzo foi deslocado. Não houve tempo para a nova configuração do trio de zaga acertar posicionamento e sistema de cobertura.

Aos 38, Everton Ribeiro recebeu à direita, Cereceda marcou à distância, Caruzzo abriu as costas e o meia achou Goulart novamente livre. Nem sinal do volante Martínez. Lichnovsky saiu para cobrir, González ficou com Moreno e Dagoberto, livre, completou o cruzamento com o peito.

Reprodução Fox Sports
No segundo gol, Goulart entra no buraco deixado por Caruzzo e Dagoberto fica livre para concluir o cruzamento.
No segundo gol, Goulart entra no buraco deixado por Caruzzo e Dagoberto fica livre para concluir o cruzamento.

Quatro minutos depois, com o rival tonto, funcionou a jogada forte do Cruzeiro: escanteio cobrado pela esquerda por Everton Ribeiro, desvio de Bruno Rodrigo e mais um de Ricardo Goulart. Aproveitar os problemas do adversário também é mérito. Vitória encaminhada.

ATO 4 - A troca de Patrício Rúbio por Ramón Fernández fez bem à equipe chilena. Lorenzetti, o meia articulador, passou a procurar o lado esquerdo e inverter com o camisa dez. Em uma espécie de 3-4-2-1, a Universidad de Chile dominou o meio-campo.

O Cruzeiro relaxou com a vantagem e parou de reter a bola na frente com a saída de Moreno para a entrada de Willian, que foi jogar à direita. Everton Ribeiro centralizou e Ricardo Goulart avançou como atacante único. Não funcionou desta vez.

Gol de Lorenzetti entrando entre às costas de Dedé e início de pressão dos visitantes. Cristian Romero trocou o inócuo Gutiérrez pelo rápido Rodrigo Mora. Ameaça?

ATO 5 - Marcelo Oliveira usou o bom e homogêneo elenco cruzeirense para recuperar o domínio da partida. Trocou o exausto Dagoberto por Marlone para voltar a ter velocidade na frente. Depois, o mais importante, colocou Souza no lugar de Everton Ribeiro. Preencheu o meio-campo plantando Rodrigo Souza à frente da zaga e alinhando Lucas Silva e Souza em um 4-3-3/4-1-4-1.

Melhorou em marcação e transição ofensiva. No desespero, a Universidad do Chile atacava deixando o trio de zagueiros sem sobra contra o tridente ofensivo do oponente. O suficiente para ir às redes com Willian, consagrar Ricardo Goulart como o melhor em campo com três gols e uma assistência.

TruMedia
Mapa de toques de Ricardo Goulart: circulou mais à direita e teve forte presença na área.
Mapa de toques de Ricardo Goulart: circulou mais à direita e teve forte presença na área adversária.

O time de Marcelo Oliveira é mais Mourinho que Guardiola. Com 49% de posse, goleou e finalizou 17 vezes contra apenas quatro do adversário - 11 a 2 na direção da meta (Footstats). Intensidade, transição veloz e rapidez na tomada de decisão dos jogadores na criação das ações ofensivas.

Os 5 a 1 colocam o Cruzeiro na liderança do Grupo 5 pelo saldo de gols. Mais que isso, confirmam a força do melhor time e do elenco mais qualificado do país para manter a hegemonia brasileira no continente.

Olho Tático
Cruzeiro recuperou o meio-campo no 4-3-3/4-1-4-1 e matou no final uma
Cruzeiro recuperou o meio-campo no 4-3-3/4-1-4-1 e matou no final La U que cresceu com Lorenzetti mais adiantado.