Thiago Benicchio

Thiago Benicchio

A Bicicletada está morta. Longa vida à Bicicletada! (parte 2) | Bike é Legal

Thiago Benicchio

Texto originalmente publicado em inglês no livro Shift Happens: Critical Mass at 20, organizado por Chris Carlsson, LisaRuth Elliott e Adriana Camarena por ocasião dos 20 anos da Massa Crítica de São Francisco em 2012. O livro apresenta artigos sobre bicicletadas em diversas cidades do mundo e pode ser adquirido em versão impressa ou ebook. Este artigo, inédio em português, foi dividido em quatro partes para o Bike é Legal.

Leia também: parte 1 | parte 2 | parte 3 | parte 4

Ao longo de sua existência e pelo menos até 2010 a Bicicletada teve uma importante contribuição educativa para a inclusão da bicicleta em São Paulo. Para os ciclistas, a troca de informações ajudou a propagar dicas importantes para a sobrevivência cotidiana no trânsito da metrópole e ajudou a criar uma comunidade atuante de ciclistas.

O espaço não-comercial e não-mediado da zona autônoma temporária que se abre uma vez por mês coloca todos os participantes em igual condição de ação e diálogo com os demais. Em uma cidade hostil ao ciclista, o intercâmbio de informações e a troca de conhecimentos sobre os caminhos mais seguros, as formas mais eficientes de enfrentar o trânsito agressivo ou técnicas de manutenção das bicicletas possibilitaram a criação de fortes laços de solidariedade.

Thiago Benicchio
Na inauguração da Ponte Estaiada em São Paulo.
Na inauguração da Ponte Estaiada em São Paulo.

Antes da Bicicletada havia muito pouca informação sobre o uso da bicicleta na cidade. O poder público continuava tratando a bicicleta como instrumento de lazer, alocando suas poucas políticas na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente e em raríssimas ciclovias dentro de parques.

As entidades e grupos relacionados ao ciclismo também se preocupavam apenas com o esporte ou lazer, salvo raras excessões como o guia Bike na Rua, os Night Bikers ou alguns projetos como a Ciclo-Rede do Rio Pinheiros.

A contestação criativa da Bicicletada em São Paulo também aconteceu através de intervenções urbanas e artísticas.

Do início de sua história até meados de 2009 os participantes conseguiram uma certa unidade nas ações, mantendo-se solidários e construindo intervenções conjuntas de contestação simbólica do domínio do automóvel e de proposição de alternativas.

Pluralidade

A unidade da massa nunca significou um alinhamento de visões políticas, ideológicas ou partidárias, mas sim uma confiança que permitiu que até mesmo os ciclistas mais conservadores politicamente apoiassem pequenas desobediências civis, como a pintura de bicicletas no solo ou o simples ato de “atrapalhar o trânsito” por algumas horas do mês.

O Brasil é um país que passou 35 anos do século XX (1964-1989) sem que a sua população tivesse acesso a direitos democráticos plenos, sendo que boa parte deste período (1964-1985) aconteceu sob uma ditadura militar.

A destruição social e política resultante deste período vai muito além dos mortos, exilados e desaparecidos, sendo visível também no baixíssimo grau de engajamento político de pelo menos três gerações de brasileiros.

Se considerarmos que o primeiro presidente eleito, em 1989, substituiu a ditadura militar pela ditadura do consumo, implantando com voracidade as reformas neoliberais no país, talvez seja mais fácil compreender a importância dos encontros de massa crítica ao juntar cidadãos na ágora para construir uma realidade diferente daquela a qual estavam submetidos.

Ainda que a Bicicletada tenha realizado ações solidárias a outros movimentos e causas mais à esquerda do espectro ideológico, o “simples” exercício da ação coletiva trouxe uma profunda evolução política para muitos dos participantes da Bicicletada em São Paulo.

Para muitos, aquelas últimas sextas-feiras do mês eram o primeiro contato com uma ação política em suas vidas. O exercício democrático acontecia em bases diretas e buscava tanto solucionar questões simples como a organização da massa durante a pedalada, como também permitia intervenções sobre as mais distintas questões da cidade.

Em 2007, uma edição especial protestou contra o encontro do G-8 visitando os consulados dos países participantes. Em 2006, a massa promoveu um “contra-evento” durante um seminário de uma montadora de automóveis realizada dentro de uma universidade. Também em 2007, uma visita levou solidariedade aos estudantes que ocupavam a reitoria da USP.

Talvez a mais célebre ação do tipo aconteceu em 2008, durante a inauguração da Ponte Estaiada, uma obra milionária construída exclusivamente para automóveis, que foi apresentada como “cartão postal” e recebeu um pic nic organizado pelos participantes da Bicicletada.

Da intervenção urbana às iniciativas públicas

Desde o início a Bicicletada ousou alterar o espaço urbano de maneira direta e estas ações foram além do passeio mensal, provocando repercussões no inconsciente coletivo e sendo reproduzidas em outras partes do país.

Ainda em 2006, durante as primeiras bicicletadas às sextas-feiras, alguns participantes decidiram instalar placas de sinalização de trânsito alertando os motoristas para a existência de bicicletas na via.

Em 2007 alguns dos participantes começaram a pintar bicicletas no chão, criando uma sinalização cicloviária que também não existia na cidade. A pintura de bicicletas em tamanhos bastante visíveis aos motoristas acontecia tanto durante a Bicicletada quanto em ações isoladas de pequenos grupos.

O número significativo de bicicletas pintadas pelo “Urban Repair Squad” paulistano e a qualidade do trabalho, realizado inclusive em ruas e avenidas importantes da cidade, fez com que muitos habitantes acreditassem que era a Prefeitura quem estava sinalizando as ruas.

Durante alguns meses, pedalar em locais como a avenida Paulista ou a rua Groenlândia se tornou muito mais seguro, pois bastava ocupar a faixa sinalizada e apontar para o solo caso um motorista mais agressivo se aproximasse. Tudo isso ao custo de algumas latas de spray e poucas horas de trabalho.

Ainda que o efeito prático destas ações não possa ser mensurado pelo número de motoristas que passaram a respeitar a preferência da bicicleta na via ou, ao menos, perceber que os ciclistas existiam, é certo que o efeito simbólico trazido não só pelas ações em si, mas também pela publicação e difusão de fotos e vídeos deixava claro que algo estava errado ou faltando no espaço urbano.

As placas e a sinalização de solo não existiam na cidade até então. Em 2011, uma pequena rede de “ciclorrotas” começou a ser instalada pela prefeitura, inspirada no conceito de compartilhamento propagado pelas intervenções urbanas de participantes da Bicicletada.

A Praça do Ciclista e o resgate das ruas

Em fevereiro de 2006, outro evento simbólico realizado durante uma Bicicletada ampliou o imaginário da população em relação às bicicletas: a inauguração da Praça do Ciclista.

O ponto de encontro da Bicicletada sempre foi o canteiro central no final da Avenida Paulista, uma das mais importantes da cidade. Durante muito tempo, o local foi chamado de “esquina da Paulista e Consolação”. Mas ele nunca foi exatamente uma esquina e, apesar de possuir um pequeno canteiro e uma estátua, nunca foi exatamente uma praça. Além disso, e mais importante, não possuía um nome oficial.

A descoberta e o resgate dos espaços públicos foi uma importante para a Bicicletada paulistana. “Sair do carro e ir para as ruas” é também um imperativo para a sobrevivência da própria cidade. São Paulo continua sendo uma cidade excludente, agressiva e privatizada, com poucos espaços públicos de convivência disponíveis. Assim, o contato direto dos ciclistas com a realidade urbana trazia aos olhos de cada vez mais pessoas novas perspectivas da realidade e, portanto, novas possibilidades de transformação da cidade.

Na última sexta-feira de fevereiro de 2006, um pequeno grupo resolveu batizar o local de encontro da Bicicletada com o nome de Praça do Ciclista. A sutil ironia em relação ao pequeno espaço rodeado por trânsito pesado de veículos motorizados foi celebrada com uma festa de carnaval.

Naquela noite, além das placas de batismo pintadas à mão, foi organizada uma exibição de vídeos e música. Foram exibidos os vídeos Still We Ride (sobre o Critical Mass de Nova Iorque), que acabava de ser traduzido e legendado de maneira colaborativa pelos participantes da Bicicletada, o desenho Motormania (de Walt Disney, que mostra o personagem Pateta se transformando em um monstro ao dirigir um carro) e alguns curtas sobre bicicletas.

Ao longo dos meses seguintes, a Praça do Ciclista continuou a ser cuidada pela Massa Crítica, que reinstalava as placas com o nome da praça sempre que a prefeitura as removia. Árvores frutíferas foram plantadas no pequeno e inóspito canteiro central da avenida e os cartazes e chamados para as bicicletadas passaram a trazer o nome do novo ponto de encontro.

Em outubro de 2007, o local foi oficializado a partir de um projeto de lei apresentado pela vereadora Soninha Francine, simpática à causa, e aprovado pela Câmara Municipal. No mês seguinte, São Paulo recebia a visita da artista Mona Caron. Autora de ilustrações e murais sobre o Critical Mass em São Francisco, ela participou da Bicicletada de São Paulo e pintou um pequeno painel na Praça do Ciclista.

Todos os eventos, as manifestações de arte urbana e a própria Bicicletada foram realizadas até hoje na base do Faça Você Mesmo, sem pedir autorização do poder público ou contar com o apoio e patrocínio de qualquer tipo de instituição.

Ainda assim, o caráter pacífico, plural, apartidário, festivo e educativo da Bicicletada garantiu, ao longo dos anos, simpatia e apoio informal de vários funcionários públicos e setores da sociedade, inclusive dos policiais destacados para acompanhar a massa.

Vale destacar que a Bicicletada foi o primeiro movimento social que voltou a “atrapalhar o trânsito” na avenida Paulista, abrindo caminho para que a avenida pudesse ser ser palco novamente para manifestações de todos os tipos.

Desde 2002, um Termo de Ajustamento de Conduta assinado entre o Ministério Público e a Prefeitura proibia qualquer tipo de manifestação que bloqueasse o fluxo de veículos motorizados no local.

A medida, justificada pelo argumento que a avenida está próxima de uma dezena de hospitais e serve como importante eixo viário da cidade, talvez tenha sua real origem na tentativa de desmobilizar os massivos protestos antiglobalização do início dos anos 2000.

Inconscientemente, a Bicicletada conseguiu reabrir a avenida para as manifestações populares, talvez pelo seu comportamento de não bloquear todas as faixas da avenida e de sempre deixar livre o corredor de ônibus, talvez pelo fato de que o congestionamento cada vez mais insuportável em toda a cidade deixava as autoridades sem nenhuma moral para dizer que a ocupação das ruas por manifestações ou por bicicletas estava “atrapalhando” o trânsito, já colapsado pelo excesso de automóveis em circulação. Uma possível repressão simplesmente “não colava”.

Além disso, a própria forma da Bicicletada, sem representantes formais ou “entidades organizadoras” que pudessem ser responsabilizados pelo poder municipal, certamente ajudou a abrir o caminho para a reocupação da avenida.

A Bicicletada nunca se assumiu como um protesto ou uma manifestação, mas também não aparecia para a sociedade como um simples passeio. Esta dualidade dificulta a repressão, pois a lógica que orienta a polícia simplesmente não consegue “enquadrar” um bando de ciclistas que ora afirmam estar reivindicando melhores condições de mobilidade, ora afirmam que apenas estão apenas pedalando juntos sem nenhuma finalidade.

Além disso, a marginalidade da bicicleta no olhar do poder público resulta tanto na ausência de infraestrutura cicloviária quanto na ausência de formas repressivas aos comportamentos individuais de ciclistas que possam estar cometendo alguma infração de trânsito. Assim, e para o bem da cidade, simplesmente não havia como impedir que o alegre grupo pedalasse junto nas últimas sextas-feiras de cada mês.
(CONTINUA...)