Leonardo Bertozzi

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Premier League terá clássico galês. Entenda por que eles jogam na Inglaterra

Leonardo Bertozzi, blogueiro do ESPN.com.br
Após passar anos batendo na trave, o Cardiff oficializou seu acesso à Premier League nesta terça-feira e poderá fazer o clássico galês com o Swansea na principal divisão inglesa. É frequente o questionamento sobre o motivo da presença de times do País de Gales nas ligas da Inglaterra, e para entender é preciso conhecer um pouco da história do futebol no país.

Apesar de ter uma das federações de futebol mais antigas do mundo, criada em 1876, e ter participação com poder de voto na International Board, que cuida das regras do jogo, o País de Gales não tinha uma liga nacional até a temporada 1992/93, quando foi disputada pela primeira vez. Os maiores clubes profissionais e semiprofissionais do país sempre jogaram as competições inglesas.

Por causa da geografia galesa, o transporte norte-sul do país é precário em relação ao oeste-leste, o que muitas vezes tornava mais fácil viajar para a Inglaterra do que dentro das próprias fronteiras. Prova disso é que o futebol se popularizou antes no norte do que no sul. O Wrexham, ao norte, foi fundado em 1872. No sul, o Cardiff surgiu em 1899 e o Swansea em 1913.

Foi o Wrexham, hoje na quinta divisão inglesa (Conference), o primeiro a notar que dentro do País de Gales seria difícil encontrar competição de bom nível técnico para atrair torcedores e manter bons jogadores. Swansea e Cardiff seguiram o exemplo e também buscaram a pirâmide inglesa.

Até o título da Copa da Liga conquistado pelo Swansea este ano, o único título de expressão de um time galês na Inglaterra era do Cardiff: a FA Cup de 1927. Eles eram autorizados, porém, a participar da Copa do País de Gales, que também representava uma rota para as competições europeias.

Quando a liga galesa foi criada, os principais clubes profissionais deram de ombros. Com isso, os maiores centros urbanos de Gales ficaram sem representantes. Sem força para arrumar briga com os grandes, a federação forçou a barra para que ao menos os times de cidades menores e até vilarejos pudessem participar da competição, mas nem isso foi fácil.

Oito clubes se rebelaram inicialmente, mas três deles (Bangor City, Newtown e Rhyl) voltaram atrás e decidiram se juntar à nova liga. Para pressionar os restantes, a federação proibiu que eles mandassem seus jogos pelas ligas menores da Inglaterra em território galês. Um ano depois, o Barry Town cedeu à pressão e passou a integrar a liga galesa.

Em 1995, uma ação judicial autorizou os clubes rebeldes a permanecer no futebol inglês e jogar normalmente no País de Gales. Mesmo assim, o Caernarfon Town se mudou para o campeonato galês. Os demais (Newport County, Colwyn Bay e Merthyr Town) permanecem até hoje nas ligas inglesas.

Uma curiosidade: por causa do período de proibição, em que teve de mandar seus jogos na Inglaterra, o Newport County adotou o apelido "Exiles" (exilados).

Naquele mesmo ano, uma determinação da Uefa impediu que clubes disputando o campeonato nacional de um país se classificassem para as competições europeias por outro, o que levou a federação do País de Gales a excluir da copa nacional os times jogando na Inglaterra.

Uma exceção ainda existente diz respeito aos times de Liechtenstein, por se tratar do único país filiado a Uefa sem uma liga nacional. Assim, os clubes fazem parte da pirâmide suíça, mas só se classificam para a Europa por meio da copa local.

A classificação do Swansea para a Liga Europa através da Copa da Liga criou um fato novo: o time terá de disputar o torneio continental como um time "inglês" para todos os efeitos, inclusive contando pontos para o coeficiente do país. A Uefa já havia dado o sinal verde em 2008, quando o Cardiff chegou à final da FA Cup contra o Portsmouth e poderia ter se classificado, mas acabou perdendo.

Ironicamente, o time mais forte do campeonato galês na atualidade manda seus jogos na Inglaterra: o campeão The New Saints, que representa duas cidades vizinhas: a galesa Llansantffraid e a inglesa Oswestry, onde atua.

O TNS, que herdou as iniciais de seu antigo nome (chamava-se Total Network Solutions, por causa do patrocinador), teve seu grande momento ao enfrentar o Liverpool na primeira fase preliminar da Champions League, em 2005, quando os Reds eram os atuais campeões do torneio.