Os obstáculos que a Valve deve resolver no novo circuito profissional de ‘Dota 2’

Alan Bester/ESPN.com
Divulgação/Valve
Vagas em torneios e o dinheiro envolvidos são temas importantes para o novo sistema
Vagas em torneios e o dinheiro envolvidos são temas importantes para o novo sistema

Após o The International 2017, o cenário competitivo de Dota 2 começou a operar em um sistema completamente novo. Nos dois anos anteriores, Dota 2 girou em torno de dois ou três majors, que foram organizados por seu desenvolvedor, a Valve. A premiação nesses eventos, na casa dos US$ 3 milhões, foi seis vezes maior do que torneios que fizeram parte do calendário do jogo e 10 vezes maiores do que os eventos LAN de terceiros durante o período.

O novo sistema, denominado Dota 2 Pro Circuit, funciona de forma semelhante ao modelo bem-sucedido adotado pela Valve em Counter-Strike: Global Offensive. Esta temporada possui 11 majors com prêmios de pelo menos US$ 1 milhão e um número ainda maior de minors, com premiação de US$ 300.000 ou mais.
Ambos os tipos de torneios são organizados por terceiros e devem atender aos requisitos gerais propostos pela Valve: por exemplo, os eventos devem incluir vagas de qualificação para pelo menos um time de cada uma das seis principais regiões.

Em troca, a Valve contribui com 50% do valor da premiação e distribui pontos de ranking para os melhores colocados. No final da temporada, as oito equipes com mais pontos seguem diretamente para o The International 2018, que provavelmente terá uma premiação de mais de US$ 20 milhões.

O céu não está caindo. A DPC recebeu com otimismo, assim como a maioria dos fãs e organizações. Pode representar um importante passo para o cenário de Dota 2. No entanto, pelo menos dois problemas precisam ser abordados para que isso aconteça.

Mais peso para equipes do nível inferior

O antigo sistema de majors de Dota 2 promovia uma diferença crescente entre um punhado de equipes de primeira linha e todo o resto. Equipes que terminavam entre as quatro melhores em um major costumavam jogar apenas um punhado de partidas nos meses seguintes, devido em parte ao aumento substancial de convites diretos para eventos de terceiros. Os convites diretos compuseram metade ou mais das vagas em eventos LAN, deixando as equipes de nível 2 ou 3 frequentemente concorrendo entre regiões para duas a quatro vagas de qualificação.

O DPC, no entanto, deveria criar oportunidades para equipes menores. Isso não durou muito. As equipes rapidamente perceberam que, graças a restrições econômicas, a maioria dos torneios, incluindo majors, teria de 8 a 10 equipes em vez de 12 a 16. O formato de oito equipes torna-se particularmente brutal, pois seis das oito vagas são reservados para equipes com entrada direta no torneio, para cada uma das seis regiões geográficas.

Tomemos o ESL One Hamburg, o primeiro major da temporada, como exemplo. O grupo de oito equipes foi composto pelos principais finalistas do TI7, Team Liquid e Newbee com o convite direto. Isso colocou três dos seis finalistas da TI7 competindo no qualificatório chinês - e três foram deixados de lado após o início, incluindo a Keen Gaming.

A cinco vezes campeã de majors OG, que contratou provavelmente o melhor agente livre pós-TI7, Roman "Resolut1on" Fominok, perdeu para a revitalizada Team Secret no qualificatório europeu. Para muitos times de ponta, este foi um sinal de alerta.

No início de outubro, as equipes já se adaptaram à realidade do novo sistema. Alguns organizadores menores, que inicialmente se aproximaram de equipes como Secret humildemente perguntando sobre seu interesse, foram inundados com contatos das melhores equipes a respeito de convites diretos.

Sem a garantia de convites diretos e a participação de qualificatórios cada vez mais competitivos fizeram com que equipes de ponta, como Evil Geniuses e Virtus.pro, respondessem ao convite em quase todos os eventos DPC.

Sim, as equipes de nível inferior agora têm muitas mais chances de se qualificarem os torneios mais importantes, mas com a nata de Dota inundando torneios menos conhecidos, não está claro que as chances de alcançar torneios LAN proeminentes melhoraram para esquadrões com menor poder financeiro.

Canais de receita

Sob o DPC, o pensamento era que eventos de terceiros bem organizados, como a ESL One, floresceriam, pois não teriam que competir com torneios grandes da própria Valve. No entanto, os organizadores de eventos de terceiros ainda enfrentam uma realidade econômica complicada.

Os dois anos anteriores à TI5 (com o sistema antigo de majors) viram um crescimento de torneios terceirizados. Em parte, isso aconteceu porque os organizadores tiveram acesso ao mesmo modelo de investimento, o crowdfunding, dos oito eventos que culminam no The International.

Os torneios poderiam gerar receita vendendo ingressos dentro de Dota 2, que muitas vezes eram associados a itens cosméticos exclusivos, com uma porcentagem de vendas para a premiação do próprio torneio.

Alguns foram autorizados a ter versões limitadas do TI Compendiums, que desbloqueou recursos aos fãs, como informação expandida sobre equipes e jogadores ou capacidade de fazer previsões para jogos dentro do jogo. Múltiplos eventos, particularmente aqueles com recursos únicos, como The Summit 2 ou XMG Captain's Draft 2.0, viram suas premiações dobrarem.

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Agora, os organizadores dos torneios DPC não recuperaram o acesso ao sistema de investimento ou a outros recursos dentro de Dota 2. Isso é mais importante do que a premiação. Enquanto a Valve patrocina aos prêmios em dinheiro para as redes DPC, os organizadores terceirados não podem usar crowdfunding para compensar outros custos de produção como a Valve com a TI e seus próprios majors. Isso muitas vezes significa que não há espaço no orçamento para cortesias, como melhorias na viagens e alimentação dos jogadores.

Mais importante, isso aumenta ainda mais a pressão sobre os eventos em limitar o número de equipes participantes, bem como para usar o formato de eliminação única ou abreviados para economizar o custo dos dias do evento. Pelo menos um major, planejado para 2018 entre Beyond the Summit e Next Esports, já foi cancelado devido a preocupações financeiras.

Soluções possíveis

Todas as preocupações atuais com o DPC podem ser solucionadas, a maioria de muitas maneiras. No mínimo, os majores devem ser obrigados a ter 12 ou mais equipes nas finais e os minors devem ser fortemente encorajados a ter 10 ou mais vagas.

Com mais equipes, as regiões mais fortes seriam mais propensas a receber várias vagas de qualificação, e regiões maiores também dariam às equipes em ascensão a chance de brilhar. Assim, não teríamos mais um Perfect World Masters, um minor chinês com 10 equipes, que viu a Team Kinguin ter um desempenho cheio de transtornos para terminar em quinto no geral.

Os convites para torneios também podem estar mais fortemente conectados. Por exemplo, a Valve poderia estipular que os vencedores de minors recebessem convites garantidos para o próximo (ou futuro) major. Isso remove a subjetividade dos convites diretos e garante que uma equipe como Mineski, que venceu o PGL Minor, nem sempre "bloqueará" as outras equipes de sua região.

Outra possibilidade é exigir que os torneios de 10 ou mais equipes concedam pelo menos duas vagas de qualificação para qualquer uma das quatro regiões tradicionalmente representadas (China, Europa, Sudeste Asiático e América do Norte) que não estão representadas nos convites diretos.

Tão importante, o modelo econômico aqui precisa ser ajustado. Apesar do enorme sucesso da parceria da ESL com a Mercedes-Benz na ESL One Hamburg, não é razoável esperar que as vendas de patrocínio ultrapassem totalmente a diferença financeira entre os torneios de terceiros e os majors de Valve nos últimos dois anos, pelo menos não em curto prazo.

Enquanto as vendas de adesivos em CS: GO continuam sendo uma fonte de receita para jogadores e organizações que participam de majors, em Dota 2, jogadores, equipes e organizadores permanecem, na sua maior parte, sem acesso às receitas geradas dentro do jogo. Para que o DPC atinja seu potencial, a Valve precisará compartilhar os custos, abrindo canais de receita para todos que fazem parte do sistema.