Renata Fan: 'Mulheres não têm que ter privilégios'

Bianca Daga, do espnW.com.br

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Renata Fan participou do Bola da Vez
Renata Fan participou do Bola da Vez

Renata Fan foi a convidada do Bola da Vez nessa terça-feira e também bateu um papo com o espnW sobre carreira, o espaço da mulher no esporte, sua intimidade com o vôlei, planos futuros e ídolos. Advogada, jornalista e torcedora fanática do Internacional, a gaúcha de Santo Angêlo (RS) não leva jeito como esportista e nem imaginava trabalhar entre atletas e técnicos. Precisou driblar preconceitos para chegar aonde chegou e tem planos de ser ‘dirigente’ nos bastidores.

Sua primeira faculdade foi Direito e, depois, o Jornalismo. Trabalhava em rádio e, numa visita casual à Rede Record em 2003, surgiu a chance de entrar para a TV. Até então, o esporte era apenas hobby ao lado do pai, do irmão Rafael e de amigos dele, quando analisava os adversários do time Colorado e brigava por suas opiniões sobre futebol.

“Minha ideia era ser comunicadora e ter liberdade para falar. Tive a sorte de, naquele momento, a emissora estar precisando de uma pessoa para o esporte e então, veio o convite. Eu era figurativa num primeiro momento, queriam uma figura estética e eu tinha sido Miss Brasil. Eu não tinha a expectativa de dar opiniões e coapresentar o programa. Mas eu queria ampliar meu espaço ali, ganhar respeito e crescer.”

Insegurança, reciclagem e tom mais leve: Renata Fan comenta sua evolução como apresentadora

Estreou na Record como assistente do Milton Neves no Terceiro Tempo e assumiu o mesmo posto no Debate Bola. Quatro anos depois, em 2007, passou a apresentar o programa Jogo Aberto, na Bandeirantes, no ar até hoje.

“Não foi rápido. Fui aprendendo, dando pitaco, mostrando que eu era capaz, e não só um rosto bonito. E as pessoas começam a prestar atenção na sua coerência e na visão que você tem do assunto. Gosto de brigar pelo que acredito e não tenho medo se alguém mais influente e capacitado está discutindo comigo. Futebol é paixão. Vendo TV, se tem um jogo, paro para ver, o mesmo não acontece com novela e programas de beleza (risos). O dia que eu não sentir e viver o futebol, não quero mais trabalhar na área.”

E o preconceito por ser uma mulher falando do principal esporte nacional, um ambiente ainda predominantemente masculino? Renata Fan não escapou. “Falavam ‘ela está aí por ter talento ou porque é bonita?’ Muitos me julgavam sem trocar uma palavra comigo e discutir sobre futebol. Uma vez um treinador disse ao vivo que eu não entendia absolutamente nada sobre fisiologia e não tinha condições de opinar. Uma semana e meia depois, ele foi demitido. Eu continuo na TV e ele, não necessariamente, vai ter todos os espaços no futebol. Mas é meu amigo até hoje, muito querido.”

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A gaúcha não apoia, no entanto, a vitimização das mulheres. “Já fui ofendida e sofri muito. Mas temos que saber filtrar as críticas. Mulheres não têm que ter privilégios. Em uma discussão, se precisar ser incisivo, seja porque eu também serei. As oportunidades precisam vir por competência. Mostre que é bem qualificada ou brigue para ser a ponto de ninguém questionar. As mulheres não podem mais se esconder na figura feminina para justificar um fracasso. Vou lutar sempre pelos direitos da mulher, que são fundamentais, mas não posso só ficar esperando que esses direitos sejam reconhecidos e que as pessoas entendam isso.”

Projetos, para ela, ficam mais no campo das ideias. É daquelas que prefere trabalhar com realidade. Mas se tem uma coisa que gosta é participar de decisões e por isso, tem sim um desafio que passa por seus pensamentos. “Evolui muito como gestora. Gosto de participar de decisões não só no vídeo, mas nos bastidores também. E essa liberdade que me foi dada mexeu comigo. Quem sabe um dia eu não possa comandar um departamento de esporte na TV. Nunca teve nenhuma mulher nessa posição em uma emissora.”

Renata Fan revela desejo de comandar um departamento de futebol na TV

Garra, perseverança e humildade são características que Renata Fan admira e ela se espelha em alguns ídolos. “Sou fã do Roger Federer há muito tempo, foi paixão à primeira vista. É batalhador, persistente, uma pessoa com talento, mas com atitude além da quadra, com um projeto social maravilhoso. No futebol, meu ídolo maior é o D’Alessandro, uma cara que não desiste. E me divido entre o Fernandão também. Mas não posso deixar de citar Messi, Zidane, Pelé, Bernardinho e Airton Senna.”

Apaixonada por futebol, vôlei e automobilismo, Renata Fan fica só como jornalista esportiva e torcedora. Nunca levou jeito para ser atleta. “Eu gostava de fazer a unha e cuidar do cabelo. Sempre tive problema no joelho, corpo magro, sem músculos. Joguei vôlei por muito tempo, mas não era disciplinada. Só me esforçava quando tinha campeonato, aí treinava igual uma louca (risos). Imagino que muitos jogadores são assim: não são tão talentosos, mas são disciplinados e acreditam. Mas se eu fosse jogar hoje, seria vôlei ou quem sabe tênis.”