Retorno, fico e futuro: os dois anos de Maluk3 na Team One

Roque Marques/ESPN.com.br

HLTV.org
Jogador retomou a carreira em 2015 e se tornou um dos principais nomes do país
Jogador retomou a carreira em 2015 e se tornou um dos principais nomes do país

Há três anos, Pedro Campos já havia superado seu passado como jogador profissional. Depois de 10 anos se dedicando ao Counter-Strike, o brasiliense pendurou o mouse - ou melhor -, começou a usá-lo para outra utilidade.

Sua ferramenta de trabalha seguiu a mesma, mas ele trocou a porção de pixels do game pela porção de códigos da análise de sistemas. Para a nossa sorte, o emprego formal foi temporário e em novembro de 2015, Pedro Campos voltou a ser Maluk3.

O que fez ele voltar atrás após três anos de aposentadoria e a estabilidade como analista de sistemas? A confiança de Alexandre "kakavel" Peres, o dono da Team One.

"Eu devo muito ao kakavel, eu só voltei a jogar CS em função dele", contou Maluk3 em entrevista exclusiva ao ESPN Esports Brasil.

"Ele me resgatou depois de três anos parado e me ofereceu um salário para me tirar do emprego e voltar a jogar CS. Fez uma aposta arriscada, eu era um jogador que estava há três anos parado", reforçou o awper.

Exatamente em 14 de novembro, o brasiliense completa dois anos como um Golden Boy. Neste tempo vestindo a camisa preta e dourada, Maluk3 não só retomou a carreira como profissional como se tornou um dos melhores do país. Aos 27 anos, ele vive seu auge.

"Não me sinto velho, pelo contrário", contou o jogador.  "Sou um jovem com 27 anos e estou vivendo meu auge no CS, [que jogo] desde 2003. Desde que comecei a jogar eu não tive um ano tão bem sucedido como esse de 2017", completou.

A idade - tida como avançada para os esports -, foi um dos motivos que fizeram com que Maluk3 parecesse doido ao recusar a Immortals para seguir na Team One. Ao lado do companheiro Alencar "trk" Rossato, o awper disse não a organização norte-americana e seu imponente salário em dólares.

O retorno

Ainda quando o cenário era dominado pelas rivalidades entre lan-houses,  Maluk3 começou sua carreira como jogador semi-profissional. Em seus três primeiros anos, o jogador defendeu a tag da inSanitY entre 2002 e 2005, quando se transferiu para a Team One pela primeira vez.

Depois de uma passagem extremamente curta, o jogador passou um par de anos em equipes menores até retornar pela PlayArt, em 2008. Foi na equipe que Maluk3 ganhou mais notoriedade, competiu internacionalmente e chegou até a Made in Brazil.

Depois de um ano na organização mais importante do país, Maluk3 retornou a PlayArt em 2011, quando o CS 1.6 já dava seus primeiras sinais de fraqueza. Depois de uma saída da equipe e algumas tentativas falhas, ele decidiu largar a carreira em 2012.

HLTV.org
Em 2010, Maluk3 disputou a DreamHack Winter pela mibr
Em 2010, Maluk3 disputou a DreamHack Winter pela mibr

Após três anos trabalhando longe dos esports, ele voltou em 2015, agora no CS:GO. Após uma curta passagem pela inSanitY, ele aceitou o desafio de kakavel e assinou um contrato com a Team One.

Tal contrato se tornou centro das atenções recentemente, quando foi revelado que a multa do jogador era de US$ 85 mil - valor que assustou a Immortals.

"Quando assinei o contrato, dois anos atrás, eu já sabia que [a multa] era bastante alta. Mas, o kakavel sempre disse que ela era negociável", revelou.

A oferta e a ligação de Noah

A notícia do interesse da Immortals chegou ao jogador quando ele ainda estava nos Estados Unidos. Na ocasião a T1 havia sido eliminada do ESEA Global Challenge.

"Recebi um contato do zakk [treinador da Immortals] e faltavam apenas algumas horas para gente voltar para o Brasil. Avisei a todos do meu time,  liguei pra minha família e avisei eles sobre o interesse da Immortals. [Falei] que havia chance de eu nem voltar para o Brasil", contou.

"Além disso, eles [Immortals] fizeram algumas perguntas sobre o trk. Eu só tenho elogios a ele. Além de meu amigo, é um grande jogador e seria mais fácil para mim se ele fosse também", completou.

Ciente do interesse, Maluk3 foi até o quarto de kakavel e falou sobre a Immortals: "disse que o Noah [Whinston, CEO da Immortals] ia encaminhar um email para ele em alguns minutos e demonstrei meu interesse em ir. Eu disse que tínhamos de dar algum jeito de todos ficarem satisfeitos com a negociação".

Depois de começadas as conversas entre as organizações e o espanto da Immortals com o preço da dupla, o Whinston falou diretamente com Maluk3.

"Mas não foi nada demais. Resumindo, ele disse que minha multa era realmente alta, que esse valor ele não pagaria, que já havia passado por essa situação algumas vezes e nesse caso o que mais pesa é a vontade do atleta. [Ele disse que] se eu quisesse ir para a Immortals realmente, eu deveria fazer uma pressão no kakavel para reduzir esse valor", contou.

O fico

Ainda interessado e de volta ao Brasil, o jogador dedicou uma semana para pensar sobre o seu futuro.

"Vejo muitas pessoas julgando nas redes sociais sem realmente saber de fato das propostas, o que pesa na balança para uma tomada de decisão dessa. Eu tive uma semana pensando exclusivamente nisso, sem nem conseguir dormir direito, jogamos a semifinal da BPL um pouco desfocados, pois só pensávamos no futuro do time. Acabamos sendo derrotados", afirmou o jogador.

Bruno Alvares
Team One é o grande destaque do cenário nacional em 2017
Team One é o grande destaque do cenário nacional em 2017

Após essa semana, houve uma a reunião que selou a permanência.

"O kakavel reuniu toda a equipe na época e a gente tinha que definir a situação. Tinha que resolver as coisas comigo, trk, bit e pava. Fizemos a reunião e o kakavel fez uma proposta que me surpreendeu positivamente. Não imaginei que ele faria uma oferta daquelas e isso pesou muito para que a gente ficasse. Eu vi nele o esforço para manter o time, pois, saindo eu, trk e bit, o projeto dele de CS:GO de 2 anos para cá iria muito por água abaixo", contou.

"[A ida para os] EUA pesou bastante [na permanência]. As amizades internas, o tempo de contrato e o fato de saber que sou um pilar do projeto também. Na T1 eu tenho total segurança para trabalhar e estou realmente muito feliz", completou Maluk3.

"A princípio, o kakavel me venderia e reduziria um pouco o valor dessa multa, mas depois da proposta dele eu mudei de ideia. Decidi ficar e não forçar uma situação dessas com uma pessoa que eu tenho total respeito e devo muito por estar onde estou hoje", revelou.

Com a contraproposta de sucesso, nem mesmo a aposentadoria de Rafael "pava" Pavanelli e a saída iminente de Bruno "bit" Lima pesaram contra a permanência de Maluk3 e trk.

"Quando ganhamos o campeonato da ESEA, o bit já nos avisou sobre a possibilidade de sair. É difícil você perder um capitão, um amigo, a pessoa que cobrava, que colocava ordem na casa. Entendo a situação dele e torço pelo sucesso, está jogando ao lado de grandes amigos e jogadores que nem precisamos comentar sobre o nível", contou.

Caike "caike" Costa e Jean Michel "mch" D'Oliveira foram escolhidos substituir pava e bit. Ambos estrearam presencialmente na campanha que terminou na eliminação da primeira fase no minor. Para Maluk3, o novo time "tem um estilo diferente, menos tático e mais skill".

Vitória contra a Immortals

Com a nova formação, a T1 conseguiu vencer a Immortals na qualificatória nacional da WESG. O triunfo teve um gostinho especial para Maluk3.

"Eu não tenho rancor algum da Immortals, pelo contrário, fiquei bastante feliz com o interesse deles, isso valoriza não só o jogador mas a organização em si. A vitória foi especial justamente para aquelas pessoas que acham um absurdo eu ter ficado na Team One. Meu time tem um potencial enorme e tenho certeza que iremos evoluir bastante ainda", contou o awper.

Luringa
Após eliminar a Immortals e assegurar a vaga, Maluk3 e seus companheiros foram derrotados pela SK na final
Após eliminar a Immortals e assegurar a vaga, Maluk3 e seus companheiros foram derrotados pela SK na final

"Quando estávamos no Canadá, depois da derrota no minor, eu disse ao meu time que caso a gente conseguisse a vaga na WESG, iríamos ofuscar um pouco a nossa decepção pelo desempenho ruim ali. Já tínhamos em mente que a disputa da vaga seria contra a Immortals devido aos seeds e sabíamos que tínhamos totais condições de vencê-los. Nosso último grande objetivo deste ano era esta vaga e conseguimos ela", completou.

"Obviamente, ainda temos alguns campeonatos bons sendo disputados no Brasil esse ano, mas para mim nenhum com o peso tão grande quanto esse da WESG. A Team One foi a única representante brasileira na final mundial da WESG ano passado e eu sei bastante o quanto esse campeonato tem de ser valorizado", afirmou Maluk3.

O futuro norte-americano

Com a permanência selada e dominando o cenário nacional, Maluk3 e seus companheiros pensam agora nos Estados Unidos.

"Acredito que já fizemos nosso papel no Brasil e agora devemos dar um salto, que é justamente colocar a Team One entre as melhores do mundo. Para isso, devemos nos mudar para os Estados Unidos. Imagina como podemos estar daqui dois anos? Só o tempo irá dizer. Como disse o kakavel, na verdade eu estava tendo oportunidade de pular etapas, mas que tinha certeza que estávamos construindo nosso alicerce de maneira correta, que chegaríamos no patamar desses times com muito pouco tempo, e que o momento tinha chegado. Ele disse que podíamos chegar juntos, assim como começamos", afirmou entusiasmado.

"Caso tudo se concretize realmente, as expectativas [de ir para os Estados Unidos] são boas. Tivemos a oportunidade de treinar durante 15 dias lá e vimos como as coisas são diferentes. Como disse, nosso time tem muito potencial, podemos melhorar muito mais e estar em breve disputando os melhores campeonatos do mundo,  jogando de igual pra igual com os melhores. Para isso não tenho dúvidas que teremos que dar o nosso melhor", finalizou o awper.

Depois desse turbilhão de acontecimentos, o que virá daqui para frente ainda é incerto. Apesar disso, só os dois anos em que Pedro Campos voltou a ser Maluk3 já são dignos de aplausos.