Ex-Ajax lembra quando 'acarajé atômico' quase 'matou' Van der Sar na Bahia: 'Avisei que ardia pra caramba'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Steve Morton/EMPICS via Getty Images
Van der Sar durante amistoso entre Brasil e Holanda, em 1999
Van der Sar durante amistoso entre Brasil e Holanda, em 1999

A culinária brasileira é uma das mais ricas e diversificadas do mundo, com uma enorme quantidade de sabores, aromas e pratos típicos. Mas ela também tem suas "armadilhas", especialmente para os estrangeiros, pouco habituados aos temperos únicos usados pelos quatro cantos do país em iguarias de todos os tipos. 

Em junho de 1999, o lendário goleiro holandês Edwin van der Sar, dono de dezenas de títulos por clubes como Ajax, Juventus e Manchester United, viu isso de perto quando a seleção de seu país veio a Salvador, capital da Bahia, para encarar o Brasil em amistoso na antiga Fonte Nova.

Cidadão do mundo, o arqueiro, que à época estava em seu último ano de Ajax, resolveu se arriscar com algumas comidas baianas, mas se deu mal. 

Quem lembra é o ex-atacante Wamberto, que jogou no time da capital holandesa entre 1998 e 2004 e foi colega do goleiro na equipe por duas temporadas.

"Teve um jogo da seleção brasileira na Bahia contra a Holanda, e o Van der Sar era o titular. Eu estava de férias e fui para a Bahia, aí acabei encontrando ele por lá. Ele me disse: 'Wampie, parece que tem um negócio muito bom para comer aqui, um tal de acarajé' (risos)", conta Wamberto, em entrevista ao ESPN.com.br

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"Aí eu fiz o alerta pra ele: 'Olha, Edwin, eu não sou muito chegado, mas vou te ensinar: quando eles perguntarem se você quer quente ou frio, peça frio. Se você falar que quer quente, eles vão entuchar pimenta! E olha que essa pimenta das baianas arde pra caramba (risos)", lembra o brasileiro, às gargalhadas.

Van der Sar até deu ouvidos à dica do companheiro de equipe, mas acabou exagerando na quantidade de acarajés consumidos, assim como vários colegas.

O resultado disso foi claramente visto no 1º tempo do amistoso na Fonte Nova. 

Matthew Ashton/EMPICS via Getty Images
Wamberto em ação pelo Ajax, em 1999
Wamberto em ação pelo Ajax, em 1999

Aos 26 minutos, o goleiro rebateu para o meio da área uma cobrança de falta de Roberto Carlos e depois demorou para reagir, deixando Amoroso na boa para abrir o placar. 

Aos 45, o gigante holandês não fechou seu canto direito e aceitou o chute rasteiro do meia Giovanni, que ampliou.

"Os holandeses comeram acarajé até cansar e vários passaram mal, inclusive o Van der Sar, que confessou pra mim que jogou completamente 'zoado'. Lembro dele me falar: 'Wampie, o tal do acarajé é muito bom, mas é pesado demais' (risos)", diverte-se Wamberto, que era chamado de "Wampie" pelos amigos e fãs.

No 2º tempo, porém, após um necessário descanso no vestiário, o peso da culinária baiana diminuiu, e a Holanda conseguiu arrancar um improvável empate. 

Primeiro, Kluivert aproveitou bola na área e descontou aos 19. Apenas dois minutos depois, o reserva Van Vossen, que havia entrado no lugar de Cocu, acertou na "gaveta" de Dida e igualou, frustrando a equipe de Vanderlei Luxemburgo (à época ainda Wanderley Luxemburgo) e a torcida brasileira. Relembre no vídeo

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O efeito do acarajé foi tão potente para Van der Sar, porém, que dois dias depois, quando Brasil e Holanda voltaram a se enfrentar em outro amistoso, desta vez no Serra Dourada, em Goiânia-GO, o arqueiro do Ajax ficou no banco - Sander Westerveld, atleta do Liverpool, foi o titular e jogou os 90 minutos. 

Jan Kruger/Getty Images for Soccerex
Van der Sar hoje é CEO do Ajax
Van der Sar hoje é CEO do Ajax

Wamberto e Van der Sar, aliás, seguem bons amigos até hoje - o ex-goleiro inclusive trabalha na diretoria do Ajax.

"Ele é gente boa demais! Há uns meses eve uma reunião de ex-jogadores do Ajax e fomos jantar juntos. Depois fui na Amsterdam Arena e vi alguns jogos, até conheci o David Neres. O Edwin até falou pra mim: 'espero que ele se adapte bem como você'", recordou.

O brasileiro, que atuou apenas na base do Sampaio Corrêa e fez toda sua carreira no futebol europeu, em times como Standard Liège-BEL e Ajax, ainda encontra os antigos companheiros com frequência, já que faz parte do time de masters do clube de Amsterdã.

E desses encontros, outras "resenhas" costumam render por horas.

"O Aron Winter [ex-atacante do Ajax que fez um dos gols da Holanda na derrota por 3 a 2 para o Brasil nas quartas da Copa de 94] sempre me fala que é grande fã do Ronaldo 'Fenômeno'. Eles se enfrentaram na Copa de 98, e o Winter sempre me falava: 'Wamberto, igual a ele nunca vai ter um igual'", finaliza Wamberto. 

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  • Ficha técnica

FICHA TÉCNICA
BRASIL 2 x 2 HOLANDA

Local: Fonte Nova, em Salvador-BA
Data: 5 de junho de 1999, sábado
Horário: 16h (de Brasília)
Árbitro: Epifánio González (PAR)
Cartões amarelos: Edgar Davids e Clarence Seedorf (HOL)

GOLS:
BRASIL: Amoroso, aos 26, e Giovanni, aos 45 minutos do primeiro tempo
HOLANDA: Kluivert, aos 19, e Van Vossen, aos 21 minutos do segundo tempo

BRASIL: Dida; Evanílson, Antônio Carlos, Aldair e Roberto Carlos; Émerson, Djair, Leonardo (Juninho), Rivaldo (Zé Roberto); Giovanni (Denílson) e Amoroso (Roni) Técnico: Vanderlei Luxemburgo

HOLANDA: Van der Sar; Reiziger (Ooijer), Konterman, Frank de Boer e Van Bronckhorst; Ronald de Boer (Zenden), Seedorf, Davids, e Cocu (Van Vossen); Van Nistelrooy e Kluivert Técnico: Frank Rijkaard