Recorde mundial aos 15, só um 'parabéns' após oito ouros, depressão e o 'verdadeiro eu' no Rio: as fases de Michael Phelps

Antônio Strini, do ESPN.com.br
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Michael Phelps durante palestra em São Paulo: o auge, a queda e o recomeço
Michael Phelps durante palestra em São Paulo: o auge, a queda e o recomeço

Com apenas 15 anos de idade, Michael Phelps participou de sua primeira edição de Jogos Olímpicos em Sydney 2000. O então prodígio da natação disputou os 200 metros borboleta e acabou em quinto na final, deixando uma ótima impressão.

Seu técnico, Bob Bowman, queria mais daquele adolescente.

Em passagem por São Paulo para participar do evento HSM Expo, na última quarta-feira, a dupla revelou como funcionava a relação entre eles e as metas "impostas" pelo mentor, de curto a longo prazo, para que o pupilo não deixasse a acomodação chegar: o treinador colocava bilhetes com os objetivos que o nadador norte-americano teria para os próximos meses - ou anos.

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"Um dia após o quinto lugar em Sydney, deixei um bilhete no quarto em que ele estava escrito WR Austin. Phelps veio me perguntar: 'O que é esse WR?'. Eu lhe respondi: 'Sua meta, agora, é bater o recorde mundial (sigla WR, em inglês, para world record) dos 200m borboleta na seletiva para o Mundial de 2001'", disse Bowman.

E naquele 30 de março de 2001, aos 15 anos e nove meses, Michael Phelps se tornou o mais jovem detentor de um recorde mundial na história da natação. Mais tarde, no Mundial em Fukuoka (JAP), ganhou a primeira medalha de ouro internacional com nova quebra de melhor tempo na prova, 1min54s58.

A partir dali, a "máquina perfeita" do esporte deu as caras por mais de uma década, estabelecendo novas marcas impensáveis: 28 medalhas olímpicas (sendo 23 de ouro) e 33 pódios em Mundiais (26 no lugar mais alto).

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O ápice veio em 2008, nos Jogos de Pequim, quando Phelps alcançou incríveis oito medalhas de ouro, outro recorde histórico, superando as sete conquistadas em uma só edição por Mark Spitz em Munique 1972. E o nadador lembra "com carinho" das palavras de Bowman após o feito.

"Só depois da oitava medalha de ouro ganhei um 'parabéns'", revelou o lendário esportista para risos dos três mil espectadores de sua palestra. "Depois de ele passar pela mídia, eu pensei: 'Puxa, isso é importante. Preciso falar alguma coisa bacana, eu te amo, obrigado por tudo', mas daí saiu 'muito bem, parabéns, legal'", admitiu o técnico.

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Quatro anos depois, no entanto, Phelps chegou ao seu limite mental: pela primeira vez desde Sydney 2000, ele ficou de fora de um pódio olímpico. Em Londres, ficou em quarto lugar na final dos 400m medley, algo que lhe esgotou a paciência.

Mesmo os quatro ouros e duas pratas conquistadas depois não foram capazes de evitar a primeira aposentadoria do rei das piscinas.

Mas o pior estava por vir: a depressão.

"Ficava três, cinco dias no quarto sem querer falar com ninguém. Tinha que me conhecer melhor. Comecei a gostar de mim mesmo... Não tinha autoestima, me via como um garoto que nadava bem. Foram 25 dias tentando me encontrar. Eu tinha que gostar de quem eu era, de quem eu sou", explicou.

Até mesmo uma reaproximação com o pai Michael - que se separou de sua mãe, Debby, quando ele tinha nove anos - foi tentada.

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Após esse período de autoconhecimento, Michael Phelps deixou a aposentadoria para tentar novamente disputar uma Olimpíada, agora no Rio de Janeiro.

Desta vez, com outra cabeça. "O que eu queria mostrar em 2016 era: 'Esse é o verdadeiro Michael Phelps'. E os Jogos no Rio foram os que mais me diverti. Aprendi que a saúde mental é real. Essa parte da minha vida é um segundo capítulo. Você consegue entender o que acontece com seu corpo. Não mais suprimo meus sentimentos. Se você puder falar dos seus problemas, faremos um mundo muito melhor", disse.

No final, mais cinco medalhas de ouro e uma de prata para sua coleção em Olimpíadas. Agora, uma segunda e prazerosa aposentadoria é o que ele aproveita.