Belga de R$ 285 milhões do City só podia ir para balada se brasileiro o acompanhasse: 'Não podia deixá-lo tomar bebida alcoólica'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Gol, passes precisos e mais: veja como De Bruyne comandou vitória do City sobre o Arsenal

O meia Kevin De Bruyne, do Manchester City, vive grande fase. Jogando o fino da bola na Premier League e na Uefa Champions League, ele justifica a cada partida os 75 milhões de euros (R$ 285 milhões) que foram investidos pelo clube inglês para tirá-lo do Wolsfburg, em agosto de 2015. No último domingo, por exemplo, marcou o 1º gol da vitória de seu time sobre o Arsenal, chegando a dois gols e 6 assistências no Campeonato Inglês, que é liderado pelo City com enorme vantagem.

Vivendo grande momento já há vários meses, é até difícil imaginar que, há menos de 10 anos, ele era um adolescente quase comum e que passava pelos problemas mais mundanos possíveis para um jovem em um país de primeiro mundo, como o rígido controle dos pais na hora de se divertir na vida noturna da Bélgica. 

Quem conheceu bem o jovem De Bruyne conta vários "causos". É o caso do zagueiro João Carlos, revelado pelo Vasco no começo dos anos 2000 e que fez sua carreira no futebol europeu, em times como CSKA Sofia-BUL, Lokeren-BEL, Anzhi-RUS e Spartak-RUS. 

O brasileiro atuou com o hoje astro dos Citizens por quase três temporadas quando defendeu o Genk-BEL, entre 2008 e 2010, e viu o garoto "branquelo" nascer para o futebol e chamar a atenção do Chelsea, primeiro grande time a apostar em seu talento.

"Eu era capitão do Genk e acompanhei todo o surgimento do De Bruyne. Desde aquela época dava pra ver que tinha qualidade e era bem diferenciado. Era só uma questão de tempo para que virasse titular", lembrou o defensor, atualmente no Madureira-RJ, ao ESPN.com.br

João Carlos conta que o armador já chegou "pedindo passagem" logo que foi promovido das categorias de base para o elenco principal, em 2009. 

Kristof Van Accom/EuroFootball/Getty Ima
O jovem De Bruyne no Genk
O jovem De Bruyne no Genk

"Ele chegou atropelando todo mundo, com uma personalidade monstra. Eu, como capitão, de vez em quando tinha que dar umas duras nele, mas ele sempre foi assim igual é hoje: personalidade forte dentro e fora de campo e autoconfiança absurda", exalta.

Com o tempo, o brasileiro tornou-se amigo próximo de De Bruyne, inclusive fora de campo. O ex-vascaíno acabou virando uma espécie de "irmão mais velho" do craque, e ganhou a confiança dos pais do meio-campista, Herwig e Anna, que só deixavam Kevin ir para as baladas se João estivesse junto para supervisionar e controlar o então adolescente nas noitadas.

"Como ele subiu para os profissionais com 17 anos, os pais dele só deixavam ele sair de noite se fosse junto com  os jogadores mais velhos. Os caras que já tinham moral, com família, filhos, etc. Os pais deles gostavam muito de mim e me falavam: 'João, o Kevin só vai poder sair se você for junto'", recorda o zagueiro. 

EFE/EPA/NIGEL RODDIS
Kevin hoje é astro do City
Kevin hoje é astro do City

"Eu não podia deixá-lo tomar bebida alcoólica de jeito nenhum. Então, ele ficava no refrigerante e a gente tomava nossa caipirinha no restaurante latino que a gente ia. Nosso grupo de 'rolê' era muito legal: Courtois, De Bruyne, Benteke, Marvin Ogunjimi, e eu", relata.

Segundo João Carlos, o meia do City é fã de uma boa farra na noite.

"Era engraçado porque depois dos jogos de final de semana a gente sempre ganhava uns dois dias de folga. Aí ele chegava para mim como quem não queria nada e perguntava: 'João, você vai dar um 'rolê' sozinho ou com a sua família?'. Ele queria saber porque ele só podia sair de casa se eu estivesse junto, então já queria se programar. Sabia que o pai dele não ia deixá-lo sair com os outros amigos, mas comigo estava sempre liberado", conta o beque.

Juntos, eles conquistaram a Copa da Bélgica em 2008/09 pelo Genk. 

arquivo pessoal
João Carlos, Alex da Silva e De Bruyne venceram juntos uma Copa da Bélgica
João Carlos, Alex da Silva e De Bruyne venceram juntos uma Copa da Bélgica

De Bruyne e João Carlos tiveram que se separar em janeiro de 2011, quando o zagueiro foi vendido ao Anzhi por 2,5 milhões de euros (R$ 9,5 milhões, na cotação atual). Já o meia ficaria no Genk por mais um ano, sendo vendido no início de 2012 ao Chelsea, por 8 milhões de euros (R$ 30,45 milhões, na cotação atual).

Após não se firmar nos Blues, ele foi emprestado ao Werder Bremen e depois comprado pelo Wolfsburg por 22 milhões de euros (R$ 83,75 milhões, na cotação atual). Pelo time alemão, o belga "comeu a bola" e despertou o interesse do City, que o comprou em 2015, assinando contrato de seis anos com os ingleses.

  • 'O dia que você virar titular não sai nunca mais'
Após goleada na Champions, Guardiola rasga elogios a De Bruyne: 'Um dos melhores que já vi na vida'

Outro brasileiro que conheceu bem o jovem De Bruyne foi o meia-atacante Alex da Silva, que passou por Santos, Marília-SP, Oeste-SP e Barueri-SP, e que atualmente joga pelo Apollon Limassol-CHP. Ele defendeu o Genk entre 2006 e 2009 (com um período de empréstimo ao FC Brussels) e viu a joia "nascer".

"Ele já era diferente desde moleque, fazia muitas jogadas bonitas já no time B do Genk. Era muito habilidoso e já chutava bem com os dois pés. Era um talento absurdo, mesmo com apenas 17 anos. Ele surgiu na mesma época que o Ronaldinho estava arrebentando no Barcelona, e lembro que o 'Bruxo' fazia bastante a cabeça dele", revela Alex, ao ESPN.com.br

Matthew Ashton/AMA/Corbis via Getty Imag
De Bruyne foi revelado pelo Genk
De Bruyne foi revelado pelo Genk

Segundo o ex-santista, De Bruyne era muito quieto e gostava de ficar treinando sozinho.

"Era um garoto muito quieto e sério desde jovem, bem na dele. Não atormentava ninguém (risos). Ele treinava muito sério, era extremamente profissional. Lembro que quando o treino acabava ele pegava umas bolas e ia praticar sozinho depois que acabavam as atividades do grupo", rememora.

O armador também se destacava desde cedo por ser destemido.

"Ele sempre teve personalidade muito forte, não tinha medo de nada. Podia ser jogo-treino ou clássico, ele pegava a bola e ia para cima de qualquer um. Isso me impressionou desde sempre", exalta.

Assim como João Carlos, Alex fez amizade com o belga e se tornou um outro "irmão mais velho". 

Getty
De Bruyne comemora gol pelo City
De Bruyne comemora gol pelo City

"Ele tinha técnico e visão de jogo privilegiados, pensava sempre na frente dos outros e era muito inteligente. Todos tinham certeza que ele iria estourar para o futebol mundial em breve. Só que, quando ele era jovem, começava na reserva, como acontece quase sempre com os pratas-da-casa. Por isso, eu conversava muito com ele para manter o foco", conta.

"Eu falava sempre: 'Kevin, quando você entrar no time titular, não sai nunca mais'. Ele é muito tímido e educado, e sempre falava: 'Para, Alex, não é assim, não é fácil desse jeito'. E eu retrucava: 'Para você é sim, olha a bola que você joga (risos)'", diverte-se. 

De Bruyne reflete sobre personalidade, admite que poderia ser mais 'egoísta' e espera 'ano muito especial'

Hoje, o brasileiro acompanha de longe o sucesso e segue torcendo pelo amigo.

"Cada ano que passa ele melhora ainda mais. Tenho grande orgulho de ver essa evolução dele", encerra Alex da Silva.