Lenda no handebol, Chana curte gravidez, cria projeto em Santa Catarina e pensa em abrir restaurante

Bianca Daga, do espnW.com.br

Divulgação
Chana voltou da Europa em junho, depois de rescindir contrato com o Odense
Chana voltou da Europa em junho, depois de rescindir contrato com o Odense

Foram 18 anos morando na Europa, jogando handebol em alto nível. Chana Masson foi a primeira atleta brasileira da modalidade a jogar fora do país e abriu caminho para várias outras fazerem o mesmo mais tarde. Sua trajetória no velho continente chegou ao fim em junho, quando desembarcou no Brasil para ficar de vez, com mais de 20 caixas de livros, roupas...toda uma vida. Goleira da seleção brasileira de 1998 a 2012, a catarinense agora está em seu estado natal, vivendo novos momentos: está grávida, pensa em abrir um café ou restaurante e desenvolve um projeto esportivo com seu nome.

Chana chegou à Espanha em 1999 para defender o Ferrobus. Em 2004, transferiu-se para o FCK Handbold, da Dinamarca (quando Morten, técnico campeão mundial pelo Brasil, foi seu técnico). Após um ano em Copenhague, passou dois na Alemanha, defendendo o Leipzig. De volta ao país dinamarquês, ficou seis anos no Randers, dois no Vilborg e, por fim, dois no Odense.

Aos 38 anos (completa 39 em dezembro), a goleira ainda tinha um ano de contrato com o clube, mas optou por rescindir o acordo ao final da temporada, para realizar o sonho de ser mãe. Sem saber, jogou sua última partida já grávida, no dia 20 de maio. “Não foi por rendimento nem por lesão, porque eu ainda me sentia totalmente capaz e a equipe me queria. Mas foi uma decisão que tomei com meu marido de parar para tentar engravidar e eles entenderam”, contou ao espnW.

No final de janeiro, a pequena Julia está por aí. Mas quem pensa que Chana vai se despedir das quadras, está muito enganado. “A princípio, eu disse que não ia voltar a jogar, mas já estou com muita saudade. Na Europa, em alto nível, não. Mas por aqui, sim. Estou treinando todos os dias na academia para manter a forma física, com exercícios de coordenação e agilidade também. Quero parto normal e pretendo voltar a treinar em março. O handebol não é só trabalho. Enquanto eu aguentar, vou jogar.”

A atleta nasceu em Capinzal (SC) e agora está morando na capital Florianópolis, onde ela e seu marido (carioca e ex-jogador de futebol) já tem apartamento há alguns anos. É por lá que ela está desenvolvendo um projeto de handebol que leva seu nome, Chana Masson. E é nele que vai atuar como auxiliar técnica e, de quebra, goleira na equipe adulta.

“Eu aprendi muito na Europa, e a Dinamarca é um exemplo na formação de atletas. Amo o handebol e quero repassar isso de alguma forma. Sempre quis trazer meus conhecimentos para o Brasil. Não será só para montar um time de alto nível e disputar a Liga Nacional, e sim fazer um trabalho de formação, indo nas escolas e garimpando talentos, para formar categorias de base também. Estou correndo atrás de patrocínio para contratar atletas, mas no começo do ano, já vai estar em prática.”

Ao mesmo tempo, segue com outros planos junto ao marido para ter rendimentos. “Fizemos alguns investimentos imobiliários antes de voltar para o Brasil. Temos imóveis no Rio de Janeiro e alugamos. Hoje, esse é nosso ganha pão. E queremos montar alguma coisa no ramo de alimentação, um restaurante ou uma cafeteria.”

Arquivo pessoal
Atleta está grávida de sete meses da Julia,
Atleta está grávida de sete meses da Julia,

Mãe de ‘segunda’ viagem

Antes de engravidar, Chana pôde vivenciar um pouco da experiência sobre o que é ser mãe. Teve um filho ‘adotivo’ que morou com ela durante dois anos na Dinamarca, o Tailan. Ela o conheceu em Capinzal, num projeto social para crianças carentes. Na época, o menino tinha nove anos. Logo se apegaram e a goleira tentou adotá-lo, mas o irmão que cuidava dele, não deixou.

Chana continuou ajudando Tailan durante seus anos, até que a assistente social deu a notícia de que o irmão havia liberado a guarda, que valeu até ele completar 18 anos e decidir voltar da Europa para casa, em março. Lá, estudou e jogou futebol. Agora, continua no esporte e voltou a morar com a família, que está em condições financeiras melhores.

“Uma parte dele é nossa, sentimentalmente falando. Sempre falamos que a hora que quiser, pode voltar a morar com a gente. Se tivesse vindo com nove anos, a adaptação teria sido mais fácil. Mas foi uma experiência muito legal para a minha vida educar alguém que já tinha uma personalidade formada. Tenho muito carinho, somos amigos. Brinco que tenho vários filhos, como algumas jogadoras mais novas, e o Tailan é um deles.”

E a seleção brasileira?

Chana defendeu a seleção brasileira por 14 anos e virou praticamente sinônimo da modalidade no país, passando por todas as experiências possíveis: jogou em uma época em que não conseguíamos vencer as europeias e viu o handebol crescer aos poucos por aqui, mas não pôde participar de dois momentos históricos: o título mundial em 2013 e os Jogos Olímpicos em casa, no Rio de Janeiro, no ano passado.

Por opção de Morten Soubak, então treinador, não foi mais convocada, tendo encerrado seu ciclo na equipe nacional na Olimpíada de Londres-2012. A goleira garante que a mágoa foi só no começo e que, hoje, entende a decisão.

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A goleira defendeu a seleção brasileira por 14 anos e foi tricampeã panamericana
A goleira defendeu a seleção brasileira por 14 anos e foi tricampeã panamericana

“Eu não entendi o porquê de não ser mais convocada se eu estava em um dos melhores campeonatos e um dos melhores times da Europa. E fiquei chateada. Quem estava do meu lado, sabe o quanto sofri. Foi doloroso, um baque e uma grande lição na minha vida profissional porque acho que posso ter errado em algumas atitudes como líder na seleção. Mas amadureci e agora, como alguém que quer ensinar handebol, entendo a escolha do Morten por renovar. Para um treinador, às vezes é melhor perder uma atleta, mas ganhar um grupo. Então, acredito que um pouco tenha sido isso.”

Com a camisa da seleção brasileira, Chana disputou sete edições de campeonato mundial, quatro Jogos Olímpicos (Sidney-2000, Atenas-2004, Pequim-2008 e Londres-2012) e conquistou três medalha de ouro em Jogos Pan-Americanos (Winnipeg-1999, Rio de Janeiro-2007 e Guadalajara-2011).