Pesquisa: mulheres sofrem 50% mais que os homens com pancadas no cérebro

*Peter Keating

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HÁ CADA QUATRO ANOS ou mais, alguns dos cientistas mais importantes do mundo se reúnem para sintetizar e resumir as pesquisas sobre lesões cerebrais mais recentes. Desde a primeira reunião, em 2001, a assembleia, chamada Concussão em Grupos de Esporte (Concussion in Sport Group), cresceu em tamanho e influência.

Médicos, instrutores de atletismo e tipos de mídia em todo o mundo seguem as sugestões das recomendações que a assembleia pública e da Ferramenta de Avaliação de Concussão Esportiva (Sport Concussion Assessment Tool - SCAT) desenvolvida por ela.

Quando os membros se reuniram em Berlim, em outubro passado, Jiri Dvorak, então médico-chefe da FIFA, disse que trabalhavam em nome de cerca de 1 bilhão de atletas profissionais e amadores. Foram cerca de 400 médicos e esportistas, mas havia um grupo quase totalmente excluído da 5ª Conferência Internacional de Consenso sobre Concussão no Esporte: atletas do sexo feminino.

Das doze sessões na conferência, nenhuma delas foi dedicada ao sexo ou ao gênero. Os pesquisadores fizeram 24 apresentações orais durante as reuniões; uma focada em atletas do sexo feminino. Entre os 202 resumos de pesquisa, nove ou menos de 5%, estudaram especificamente as mulheres. "O gênero não tem sido um tópico essencial", diz um membro do Concussion in Sport Group.

Essencial ou não, os fatos que a conferência poderia ter apresentado são chocantes. As mulheres sofrem mais concussões do que os homens nos esportes praticados por ambos, com uma taxa de lesão 50% maior, de acordo com a pesquisa mais recente. Atletas femininas com trauma cerebral tendem a apresentar sintomas diferentes, possuem recuperação mais lenta e, por diferentes motivos, retêm mais informações sobre suas lesões do que os atletas masculinos.


Qualquer pessoa envolvida com esportes deve ter conhecimento desses fatos-chave. No entanto, as principais diretrizes nacionais e internacionais para a compreensão de concussões esportivas e de atletas lesionados que voltam a praticar ignoram as diferenças de como mulheres e homens sofrem lesões cerebrais.

 Aqui está o que é ainda mais impressionante: Toda esta informação era de conhecimento público há oito anos, quando a ESPN The Magazine tratou, pela primeira vez, do tema sobre concussões e atletas femininas ("Heading for Trouble” (Lidando com o problema), 23 de março de 2009) - e tudo isso ainda é verdade. Os últimos estudos continuam a provar que as mulheres sofrem, mais frequentemente, lesões cerebrais em esportes também praticados por homens. No entanto, a pesquisa sobre o porquê e como está atrasada ou é inexistente, assim como os esforços para reverter esta tendência. Isso significa que milhões de atletas do sexo feminino estão colocando, desnecessariamente, seus cérebros em risco.

 "A grande maioria das atletas que eu vi ao longo do tempo são mulheres jovens e descobri que elas obtiveram menos informações sobre concussão do que homens, tanto dos seus treinadores como da mídia", diz Jill Brooks, um neuropsicólogo clínico que gerencia a Head-to-Head Consultants em Gladstone, Nova Jersey, e que, em 2004, realizou uma das primeiras revisões de pesquisa sobre as questões do sexo em lesões cerebrais. "Elas estão lutando para lidar com seus sintomas particulares e, muitas vezes, não são levadas a sério como deveriam ser. O mundo do esporte é muito mais aceito por meninas e mulheres como atletas, mas ainda deixa o tema das concussões muito escasso".


AS CIENTISTAS ESPORTIVAS MULHERES foram as pioneiras na pesquisa inicial sobre sexo, gênero e concussões há mais de uma década. Dawn Comstock, professora de epidemiologia na Escola de Saúde Pública do Colorado e ex-jogadora de rugby de 1,49m, iniciou o rastreamento de lesões entre atletas do ensino médio em 2004 e, em 2007, começou a relatar diferenças em relação ao sexo nas lesões cerebrais.

Em maio de 2016, ela contou ao Subcomitê de Supervisão e Investigações da Câmara de Energia e Comércio: "Em esportes comparáveis quanto ao gênero, ou seja, os esportes que os meninos e as meninas praticam com as mesmas regras, usando o mesmo equipamento, nos mesmos campos, como futebol e basquete, as meninas têm maiores taxas de concussão do que os meninos". Tracey Covassin, professora de cinesiologia do Estado de Michigan e treinadora certificada de atletismo, vem estudando esportes universitários desde 2003, com resultados semelhantes.

Mas quando se trata de aprofundar a experiência em concussões entre as atletas do sexo feminino, a maioria dos pesquisadores não se interessou, não quis ou não financiou. A fronteira do conhecimento tem permanecido, durante anos, em estudos de epidemiologia e eventualmente, quando alguém encontra um problema de saúde na população em geral, é sempre “quando”, em vez de “como” e “por que” atinge um grupo em particular.

"Há uma enorme lacuna na ciência da lesão cerebral", diz Angela Colantonio, diretora do Instituto de Ciências da Reabilitação da Universidade de Toronto. "Não houve nenhuma consideração explícita dada ao sexo e ao gênero. Estamos apenas começando a atingir a superfície ".

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Na Declaração de Consenso de 2017 sobre Concordância no Esporte, que 36 dos cientistas que se conheceram em Berlim publicaram em abril, e que contém mais de 7 mil palavras, "gênero" nunca aparece e "sexo" apenas uma vez. É somente um item em uma lista de fatores como idade, genética e saúde mental, que o documento assinala que "inúmeros estudos examinaram" para o seu impacto potencial de como os atletas se curam das concussões. A declaração de consenso não avalia o que essa pesquisa descobriu em termos de efeitos do sexo ou do gênero, exceto para dizer que há "alguma evidência" de que os adolescentes "podem ser" mais vulneráveis a sintomas persistentes", com maior risco para as meninas do que os meninos. “

Várias federações de esporte de contato na Europa financiam as reuniões do Concussion in Sport Group. A FIFA, a Federação Internacional de Esportes Equestres, a Federação Internacional de Hóquei no Gelo, o Comitê Olímpico Internacional e o Rugby Mundial dividiram os custos da conferência de Berlim, totalizando cerca de 250 mil euros, de acordo com duas fontes do grupo. Qualquer uma dessas organizações pode ser ameaçada se surgirem evidências de que isso teria gerado golpes repetitivos na cabeça entre os tipos de atletas específicos, como adolescentes ou vítimas de concussões repetidas - ou mulheres.

E os 30 coautores da declaração de consenso, que apresentaram a divulgação de conflito de interesses, declararam 132 possíveis envolvimentos entre eles. Alguns defensores da pesquisa sobre lesões cerebrais se preocupam que estes autores tenham protegido suas conclusões para evitar expor seus clientes a uma responsabilidade financeira ou legal.

"A declaração é extremamente decepcionante", diz Katherine Snedaker, assistente social clínica em Norwalk, Connecticut, e fundadora do grupo de pesquisa e advocacia Pink Concussions, também participante da conferência de Berlim. "Mas o maior problema com a pesquisa sobre concussão é que são pouquíssimas as pessoas a conduzem sem estarem envolvidas nos seus resultados. Eu acho que essas pessoas não queriam ver seus nomes estampados em ações judiciais".

Mesmo um dos coautores da declaração de consenso faz eco desta crítica. "Um grande número de cabeças inteligentes foram convidadas para o comitê", diz Robert Cantu, professor de neurocirurgia da Universidade de Boston e membro fundador do Concussion in Sport Group. "Mas eu acho que alguns estão tão felizes em tomar parte de tudo isso que, às vezes, não parecem suficientemente engajados na pesquisa. E aí você se pergunta se isso serve como uma grande força protetora para as organizações que dispuseram de dinheiro para financiar as reuniões".

"Revisamos a literatura sobre a recuperação clínica da concussão", diz Grant Iverson, professor de medicina física e reabilitação na Harvard Medical School e coautor da declaração de consenso. "Examinamos muitos fatores preditores e modificadores. E o sexo era um deles".

Contudo, quando se trata especificamente de mulheres, o grupo vem com uma história particularmente significativa. Na sua terceira declaração de consenso, publicada após as conversações em Zurique em 2008, foram incluídas duas frases ambíguas sobre o sexo ou o gênero influenciando a probabilidade ou o aumento do risco de concussão. Quatro anos depois, a quarta declaração de consenso também dedicou duas frases às mulheres - as mesmas duas frases. Essas mesmas frases citando até as mesmas três fontes.

De 2008 a 2012, a participação das mulheres nos esportes cresceu rapidamente, aumentando 13% somente na NCAA (entidade máxima do esporte universitário dos Estados Unidos). O interesse público em concussões também aumentou, já que a crise da NFL explodiu. E, durante esses anos, cerca de 300 mil mulheres de 19 anos ou menos frequentaram as emergências dos hospitais dos EUA com lesões cerebrais relacionadas ao esporte ou à recreação. No entanto, o consenso internacional não encontrou nada novo para aprender ou dizer.

"Estamos indo muito bem com relação aos tópicos sobre os quais nos concentramos", diz um pesquisador do grupo. "Praticamente não abordamos qualquer outro material. De modo que as coisas, além de não mudarem de um ano para o outro, permanecem inalteradas e não atualizadas".

"Foi um trabalho de cortar e colar, até mesmo as notas de rodapé", diz o neuropsicólogo Brooks, que participou de duas conferências dos consensos internacionais anteriores, mas não foi convidado para Berlim.

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A MAIORIA DOS ATLETAS E torcedores aprenderam sobre concussões a partir de uma década de relatórios sobre ex-jogadores da NFL que lutavam com os efeitos, em longo prazo, causados pelos golpes na cabeça. Por mais devastadoras que sejam essas histórias, os riscos de lesões cerebrais aumentam quanto mais a competição se afasta do epicentro dos esportes de alto risco que é o futebol profissional.

Baixas receitas e instalações remotas podem se traduzir em conselhos e tratamento médicos mais pobres; primeiramente, a cobertura da mídia, eventualmente mais escassa, significa que menos pessoas percebem lesões. E essas condições geralmente se aplicam aos esportes colegiados femininos, em que cerca de 214 mil atletas do sexo feminino competem sob a regulamentação central da NCAA.

O futebol feminino da 2ª divisão, por exemplo, que Angel Mitchel jogou na Universidade Batista de Ouachita, no Arkansas. Mitchel joga futebol desde os quatro anos, brincando com seus dois irmãos mais velhos em Mansfield, no Texas, sonhando com uma carreira profissional. "Eu faria o que fosse necessário para jogar", diz ela. "O futebol era a minha vida".

Tudo mudou na terça-feira, 13 de setembro de 2011, quando Mitchel, então uma estudante de segundo ano da OBU (Universidade Batista de Oklahoma) e conhecida por seu nome de solteira, Palacios, colidiu com uma colega de equipe enquanto cabeceou durante um treinamento. O crânio da outra jogadora atingiu o rosto de Mitchel, deixando-a com tonturas e a fazendo cair de joelhos. Com o olho esquerdo já fechado, ela se aproximou da linha lateral, onde relatou ao seu treinador não se sentir bem.

O treinador perguntou se Mitchel estava tonta. Ela estava nauseada? Ela teve dor de cabeça?

"Sim ... sim ... sim", respondeu Mitchel.

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Ela diz que o treinador a mandou de volta ao dormitório com uma bolsa de gelo. Ninguém aconselhou Mitchel a procurar um médico ou a acompanhou naquela noite. A equipe realizou um teste neuropsicológico on-line no dia seguinte, mas os resultados não foram claros porque ela ainda não podia usar o olho esquerdo. Tonta, sensível à luz e com uma forte enxaqueca, ficou afastada ao máximo durante o resto da semana.

No sábado, conta Mitchel, seu treinador a mandou correr em volta da quadra. Ela ainda estava doente - tinha vomitado naquela manhã - tendo apelado para o treinador, que lhe disse: "Você não vai querer deixar o técnico maluco".

Quando Mitchel começou com o trote leve, o sol queimou em sua cabeça, ela vomitou novamente e a dor a invadia cada vez que pisava no chão. A intensidade e a loucura de sua dor se transformaram em raiva. "Eu sabia que algo não estava certo e que estava acontecendo alguma coisa errada", diz ela.

Depois de uma volta ao redor do campo, parou e decidiu que precisava ir à emergência. Mitchel conta que, depois disso, seu treinador falou que ela poderia ficar fora do restante do treino. Na verdade, ele disse que ela já podia esperar ficar fora do jogo por um longo tempo.

Os médicos descobriram que Mitchel sofreu uma concussão grave. Ela já teve problemas de memória e diminuição dos sentidos no lado esquerdo de seu corpo. E se continuasse envolvida nas atividades físicas, poderia danificar, de forma permanente, o seu cérebro.

Mitchel ficou com um olho preto durante três meses. Suas enxaquecas continuaram por ainda três anos. Ela nunca mais jogou futebol novamente. Os responsáveis pela OBU se recusaram a comentar.

A experiência de Mitchel é uma versão extrema do que muitas mulheres experimentam após concussões esportivas: isolamento, atenção inadequada, remoção inadequada e intimidação. A NCAA, por sua vez, demorou muito para responder a essas questões.

Não havia diretrizes que envolvessem lesão cerebral até 2010. Isso exigiu que as escolas tenham pessoal treinado para lidar com concussões em jogos esportivos de contato, apenas por causa de um amplo acordo alcançado em 2014. Mitchel, agora com 24 anos, está justificadamente orgulhosa por juntar-se às ações legais que levaram a esse acordo. "Eu sei que temos um longo caminho a percorrer", diz ela, "mas é um ótimo começo".

No entanto, a NCAA, na verdade, não define como seus membros implementam suas novas regras. Nunca sancionou uma escola por não apresentar um plano de concussão ou manter o pessoal inadequado ou ainda por manter um jogador lesionado em campo. Ainda não há menção de sexo ou gênero fazendo parte das suas melhores práticas para diagnosticar e gerenciar concussões ou nas fichas técnicas de concussão que distribui para estudantes e treinadores.

Talvez a melhor indicação das prioridades da NCAA seja simplesmente isso: Seu médico-chefe tem uma equipe de sete pessoas para abordar problemas de saúde e segurança da faculdade da saúde mental em termos de agressão sexual. Enquanto isso, a seção de conformidade conta com mais de 50 funcionários que policiam o amadorismo entre os atletas.

Por tudo isso, Brian Hainline, diretor médico da NCAA, diz que ele tem "sangue nos olhos" sobre concussões e enfatiza que o trauma cerebral nos esportes é um problema "muito maior do que o futebol". Na verdade, ele escreveu em uma coluna no site da NCAA: "Precisamos divulgar o assunto: Sim, as atletas também sofrem com as concussões e podem estar exclusivamente predispostas a este evento neurológico".

É verdade que Hainline estava perto o suficiente para Elliot Pellman, o notório ex-presidente do comitê de concussões da NFL, para que Pellman divulgasse um livro sobre dor nas costas que Hainline publicou em 2007. E que nos primeiros dias de trabalho de Hainline na NCAA, parecia que ele simplesmente se desculpava por como os programas esportivos estavam tratando atletas com lesões cerebrais.

Mas Hainline tem uma ascensão sobre ele e assumiu seu papel de principal impulsionador da educação sobre concussões no esporte universitário. Seus esforços ajudaram a criar a Grande Aliança, um projeto de US$ 30 milhões que a NCAA e o Departamento de Defesa lançaram, em 2014, para estudar lesões cerebrais em estudantes-atletas e cadetes e promover a educação sobre concussão.

Ao longo dos últimos três anos, a iniciativa envolveu mais de 28 mil indivíduos; 1.931 tiveram concussões e os cientistas estão examinando seus cérebros e corpos ao longo do tempo. É um esforço altamente considerado e Hainline está entusiasmado em trabalhar com estes respeitados parceiros para afirmar a liderança na pesquisa sobre lesões cerebrais.

"Todos nós precisamos dar um passo a trás e parar de dizer que nada está acontecendo", diz ele. "A cooperação que eu nunca sonhei que pudesse acontecer está acontecendo agora. A concussão nos trouxe a este lugar de magia."

Mas enquanto cerca de 35% dos atletas envolvidos na pesquisa Grand Aliance são mulheres - a maior coorte feminina com concussões já estudada - o esforço provavelmente não informará nada novo, se houver, do que seja específico sobre sexo por anos. Isso ajuda a entender por que mulheres e homens podem vivenciar concussões de diferentes maneiras.

Os cientistas sabem, já há muito tempo, que as mulheres estão mais abertas do que os homens ao relatar as lesões. Pesquisas recentes mostram que elas não descrevem apenas mais sintomas após concussões, elas também exibem mais. Um exemplo importante vem de Shannon Bauman, uma médica de esportes que começou a estudar lesões cerebrais após ter recebido atenção inadequada devido a uma concussão que sofreu jogando hóquei. 

De 2014 a 2016, Bauman rastreou 207 atletas lesionados no Concussion North, a clínica especializada em que trabalha em Barrie, Ontário. Ela encontrou mulheres com média de 4,5 sinais objetivos de concussão, como diminuição do equilíbrio ou da visão, contra 3,6 nos homens. Elas também demoraram mais para se recuperar; 35 por cento das mulheres ainda apresentavam sintomas seis meses após as suas lesões.

"Talvez o motivo pelo qual falamos mais sobre nossos sintomas não é porque somos fracas ou vulneráveis", diz Snedaker, uma ex-atleta que passou por mais de uma dúzia de concussões antes de se tornar uma advogada. “Talvez seja porque tenhamos mais sintomas e eles duram mais".

A biomecânica pode ser uma das razões para isso. Em média, as mulheres têm pescoço mais curto e mais fino do que os homens e aproximadamente 50% menos força do pescoço. Em geral, isso significa que as mulheres têm uma menor proteção contra qualquer coisa em que suas cabeças possam bater, seja a bola, o cotovelo de outro jogador ou o chão. Seus crânios experimentam uma maior aceleração quando seus corpos são derrubados - e é esse movimento que sacode um cérebro e leva a uma concussão, como sacudir uma gema sem necessariamente quebrar um ovo.

Além disso, diferentes produtos químicos, naturalmente, atravessam os corpos de homens e mulheres. Como um exemplo básico, a pesquisa mostrou que os níveis flutuantes de estrogênio deixam as mulheres muito mais suscetíveis a enxaquecas do que os homens e enxaquecas e concussões parecem causar problemas semelhantes dentro do cérebro.

Também foi verificado que, até a puberdade (quando os hormônios sexuais começam a aparecer), meninos e meninas sofrem taxas comparáveis de concussões e compartilham sintomas semelhantes. Alguns neurocientistas se perguntaram sobre os efeitos dos hormônios sexuais específicos que estressam ou protegem quando o cérebro está concussionado.

Em uma série de estudos inovadores, que começaram há 25 anos, Robin Roof, então pesquisador da Rutgers, descobriu que a progesterona, um hormônio sexual feminino, reduziu o edema cerebral e melhorou a função cognitiva após lesões em ratos. As implicações foram enormes: Talvez a progesterona possa atenuar o impacto das lesões cerebrais.

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No entanto, o assunto ainda não tinha sido estudado até 2013, quando uma equipe da Universidade de Rochester registrou dados sobre os ciclos menstruais das mulheres que foram às salas de emergência com concussões. Ele descobriu que as mulheres lesionadas em um determinado momento dos seus ciclos, quando seus níveis de progesterona estão elevados, sofreram mais sintomas tardios.

"Isso é contra intuitivo porque, nos estudos com animais, a progesterona mostrou possuir um efeito neuroprotetivo", diz Jeffrey Bazarian, um dos pesquisadores de Rochester. "Mas a concussão pode interromper sua produção, desligá-la e levar a uma diminuição abrupta no sangue".

Essa é uma teoria interessante, mas especulativa. Os hormônios interagem uns com os outros de maneiras complexas. Ensaios clínicos em grande escala sobre a progesterona em vítimas de trauma cerebral não conseguiram mostrar nenhum benefício significativo. Então, Bazarian fica com uma pergunta preocupante: "Como pode haver uma discrepância entre os roedores em relação à progesterona e o que vimos até agora em seres humanos?”

"Nós podemos analisar o relatório, mas podemos analisar a força do pescoço", diz Brooks. "Temos que entender como o cérebro funciona nos homens e nas mulheres e estudar como os hormônios afetam a sua função".

Isso, no entanto, não é um assunto que a NCAA está buscando na sua pesquisa. Sua Grande Aliança com o Departamento de Defesa está no caminho de acumular mais de 25 milhões de pontos de dados de atletas, informações que serão estudadas por um "núcleo de pesquisa avançado" com dispositivos sofisticados de neuroimagem e biomarcadores ou ainda substâncias no sangue que indicam lesão cerebral.

Contudo, não vai coletar estatísticas sobre onde as atletas estão em seus ciclos mensais, nem analisará amostras de sangue para hormônios sexuais. Estas são "questões interessantes e importantes", diz Steven Broglio, professor de cinesiologia da Universidade de Michigan e um dos cientistas que lideraram a pesquisa Grand Aliance. "[Mas] nenhum estudo pode resolver todas as preocupações. Espero que futuras pesquisas tratem desse desafio".

"Eu entendo que você deve escolher as frutas mais baixas primeiro, mas dentro de cinco anos, será tarde demais para voltar e obter esses dados", diz Snedaker. "Se você não vai olhar para o que nos torna diferentes, então, não nos coloque nos estudos".


ATRÁS DE PORTAS FECHADAS, alguns defensores de esportes femininos não estão à vontade para procurar diferenças entre lesões masculinas e femininas. Tratar os atletas do sexo masculino e feminino de forma diferente poderia reverter para estereótipos que as mulheres têm lutado há décadas - que não estão à altura dos desafios esportivos ou que precisam de um apelo especial ou ainda são simplesmente mais fracas que os homens.

 Mas a ciência médica tem uma longa história no julgamento das mulheres por meio de padrões masculinos, muitas vezes com resultados terríveis. As escolas de medicina usam, geralmente, corpos masculinos para ensinar estudantes sobre doenças, e os médicos são mais propensos a perder ou diagnosticar erroneamente sintomas entre pacientes do sexo feminino.

O exemplo clássico é um ataque cardíaco: As mulheres são mais propensas a se sentir como se tivessem a gripe do que experimentar dor no peito. E a pesquisa médica, historicamente, usou indivíduos do sexo masculino para estudar tratamentos, produzindo resultados em tudo, desde a aspirina até o Ambien, que não se aplicavam com precisão às mulheres.

A lesão cerebral, então, é um dos muitos exemplos em que até estudos que incluem mulheres quase nunca chegam a conclusões separadas sobre elas. Em 2016, os Arquivos de Medicina Física e Reabilitação revisaram a literatura científica sobre concussão desde 1980. Descobriu-se que de 221 artigos publicados, apenas 7% deles divulgaram seus dados por sexo.

"A ciência do cérebro segue a sociedade", diz Brooks. "Os homens estão tomando muitas decisões sobre a saúde das mulheres. Eu tive que concluir que, em vez de fazer mudanças de cima para baixo, eu tenho que tentar de baixo para cima, ajudando um paciente de cada vez na medida em que se tornaram mulheres saudáveis, informadas e fortes ".

As concussões esportivas são um caso agudo uma vez que tanta atenção e financiamento seguiram o futebol profissional. Mais obviamente, enquanto os estudos de concussão da NFL foram criados com ciências indesejáveis e conflitos de interesse, a liga ajudou a direcionar a pesquisa para esportes com capacete.

Em setembro, a liga prometeu US$ 60 milhões para o desenvolvimento de nova tecnologia de concussão, possivelmente incluindo um novo capacete e US$ 40 milhões para pesquisar lesões na cabeça. E agora, a NCAA e o DOD (Departamento de Defesa dos Estados Unidos) estão entrando em campo.

Naturalmente, os pais em todo o país, muitos preocupados com o dano cerebral prolongado e a ETC (encefalopatia traumática crônica), começaram a exigir uma maior proteção para suas filhas - mesmo quando a ciência não está pronta para lhes dizer exatamente o que pedir.

Andy Mead/YCJ/Icon Sportswire
Sob pressão, a Federação de Lacrosse dos EUA adotou o uso de proteção para as mulheres
Sob pressão, a Federação de Lacrosse dos EUA adotou o uso de proteção para as mulheres

O U.S. Lacrosse (Federação de Lacrosse dos EUA), por exemplo, diante da pressão de defensores alarmados, pais e legisladores estaduais, adotou recentemente seus primeiros padrões para o protetor de cabeça feminino. Ainda é opcional, mas os capacetes devem, agora, cumprir novas diretrizes - mesmo que a federação não tenha nenhuma evidência de que o novo equipamento reduza as concussões.

"Esta é uma experiência nacional", diz Andy Lincoln, que conduz pesquisas para o Lacrosse americano. "Há uma necessidade de maiores informações sobre os impactos e exposições da cabeça nos esportes femininos".

Sim, existe. Então, o que acontece a seguir, como a opinião pública, e em breve, advogados, políticos e vendedores, preenchem o vácuo deixado pelas instituições que dirigem o esporte feminino e os cientistas que o patrocinam?

"Estou muito preocupado", diz Hainline.

*Peter Keating é um escritor sênior da ESPN The Magazine, em que ele aborda questões investigativas e estatísticas. Edição: Bianca Daga