Quem é a poderosa torcedora do Real Madrid que virou inimiga do Barcelona e de seus ídolos

ESPN.com.br
Carlos Alvarez/Getty Images
Soraya Saenz de Santamaría é a 'bola da vez' no futebol espanhol
Soraya Saenz de Santamaría é a 'bola da vez' no futebol espanhol

Quem é o representante do Real Madrid que os torcedores do Barcelona mais odeiam? Seria o atacante Cristiano Ronaldo, maior ídolo atual dos merengues? Ou o presidente Florentino Pérez, que em 2000 roubou o ídolo Luís Figo e o levou para o Santiago Bernabéu? Talvez o técnico Zinedine Zidane, que fez os catalães sofrerem nos tempos de jogar e agora como técnico recolocou os blancos no topo?

Nenhum deles. 

No momento, é uma mulher a pessoa  mais detestada pelos blaugranas: Soraya Saénz de Santamaría, advogada que acumula os cargos de vice-presidente do Governo espanhol, ministra da Presidência e para as Administrações Territoriais e porta-voz do presidente do Governo central, Mariano Rajoy.

Tanto Rajoy quando Soraya são conhecidos por serem torcedores fanáticos do Real Madrid e totalmente contrários às ideias independentistas da Catalunha  - além deles, o ministro de Energia e Turismo, Alvaro Nadal, e a ministra da Defesa, María Dolores de Cospedal, também são merengues.

O fanatismo pelo atual campeão espanhol tornou Rajoy e Soraya muito próximos, e hoje a política é uma das pessoais mais poderosas e influentes da Espanha. 

Da emoção de Piqué à saída do Barça da LaLiga: como o impasse sobre a independência da Catalunha afeta o esporte

Ela começou sua trajetória política em 2000, quando era procuradora-geral do Estado e foi convidada para ser assessora jurídica do então ministro Mariano Rajoy. Aos poucos, assim como Rajoy, foi subindo degrau a degrau até chegar à cobiçada posição que exerce hoje no Governo espanhol.

A advogada, por sua vez, usa todo esse poder para militar em causas que vão contra os ideais do Barcelona, o que termina por irritar não só a diretoria do clube catalão, como também jogadores do elenco atual e ídolos antigos do time.

  • 'Não pode mandar a polícia bater em gente inocente'

A polêmica mais recente causada por Soraya Saénz de Santamaría aconteceu no dia do referendo pela independência da Catalunha, realizado no último domingo em várias cidades da comunidade autônoma. O Governo central da Espanha considerou a votação ilegal, e enviou um enorme efetivo policial para impedir o ato. No fim das contas, houve muitas cenas de violência, com quase 900 pessoas ficando feridas (além de várias prisões) em confrontos com as autoridades.

Santamaría, porém, elogiou a atuação da Guarda Civil espanhola, mesmo com vários vídeos nas redes mostrando os soldados agredindo pessoas caídas no chão e usando força desproporcional até mesmo contra idosos e adolescentes. 


"A postura do Governo é constante e consequente: sempre dentro da lei e sempre com o máximo respeito", escreveu a política, em uma de suas várias mensagens postadas no Twitter durante o caos que se instalou por toda a Catalunha.

A fala da vice-presidente revoltou o zagueiro Gerard Piqué, principal voz pró-separatismo catalão do atual elenco do Barcelona. Em seu Twitter, ele postou mensagem com um vídeo de policiais atirando balas de borracha a esmo em cima de populares, com uma mensagem bastante irônica:  "Eles atuaram de maneira profissional e de modo proporcional e proporcionado", postou o atleta.

Depois, em entrevista, o defensor atacou Mariano Rajoy, aliado de Soraya.

"Estamos sendo comandados por um presidente que tem esse nível que vem demonstrando. Viaja pelo mundo sem saber falar uma palavra de inglês", detonou.

O ex-atacante Hristo Stoichkov, campeão da Champions League em 1992 e um dos maiores ídolos da história blaugrana, também bateu forte. Em entrevista a um canal de TV, ele acusou Soraya de ser franquista, ou seja, alinhada às ideias do ex-ditador Francisco Franco, que governou a Espanha entre 1939 até sua morte, em 1975, e que ficou marcado por destruir movimentos separatistas, inclusive proibindo o uso de línguas como catalão, galego e basco - apenas o castelhano era autorizado.

"Seu avô, franquista. Seu pai, franquista. Ela, franquista também. E seu filho... É ela que demanda as coisas que temos que fazer? Por favor, demitam-na. Não pode mandar a polícia bater em gente inocente. Governo da Espanha, você é uma vergonha total. Por isso vocês estarão onde merecem, separados do mundo", disparou Stoichkov, que fez grande parceria com Romário no ataque azul-grená e foi o maestro do "dream team" comandado pelo holandês Johan Cruyff. 

Xavi: 'É inadmissível que, em um país democrático, as pessoas não possam votar'

O canhoto também lembrou que na final da Copa da Campeões (atual Champions League) de 1992 contra a Sampdoria no estádio Wembley, em Londres, comemorou o título levando uma bandeira da Catalunha ao gramado.

"No ano de 1992 sai com uma bandeira independentista ao campo de Wembley. Quando este governo que está agora nem sabia o que era essa bandeira. Cedo ou tarde será o que tem que ser, mas não desta maneira", sentenciou o craque.

Já nesta quarta-feira, Soraya resolveu entrar na Justiça contra Stoichkov. Segundo o jornal Sport, ela irá processar o búlgaro e pedir reparação em danos morais por "defesa de sua honra e da honra de sua família", depois da fala sobre ela ser "franquista", assim como seu pai e seu avô. A briga na Justiça promete ser longa...

  • A polêmica proibição de bandeiras da Catalunha

O ódio entre Barcelona e Soraya Saénz de Santamaría, porém, vem de outros tempos. Em 2016, por exemplo, a vice-presidente espanhola atuou para barrar o uso de bandeiras da Catalunha (conhecidas como "esteladas") na final da Copa do Rei, realizada entre Barcelona e Sevilla, no estádio Vicente Calderón, em Madri. 

Albert Llop/Anadolu Agency/Getty Images
Soraya proibiu bandeiras da Catalunha
Soraya proibiu bandeiras da Catalunha

Soraya chamou as bandeiras de "instrumento político" e ordenou que elas fossem proibidas.

"A rivalidade nos estádios deve ser exclusivamente desportiva. Futebol é futebol, e as pessoas devem ir ao estádio unicamente para desfrutar do jogo", salientou a advogada.

A atitude teve respostas imediatas. Depois do anúncio madrilenho, aprovado pela RFEF (Real Federação Espanhola de Futebol, que é sediada na capital nacional), o chefe de Governo da Catalunha, Carles Puigdemont, e a prefeita de Barcelona, Ada Colau, imediatamente anunciaram que não iriam ao estádio Calderón para a decisão do torneio mata-mata, já que consideraram a proibição das bandeiras independentistas um "atentado à liberdade de expressão" dos catalães. 

Até mesmo o presidente do Barça, Josep Maria Bartomeu, estudou boicotar. 

Piqué, como de hábito, também entrou "de sola" na questão.  Primeiro, o defensor criticou o jornal ABC, que publicou em sua capa a frase "As esteladas ganham a Copa do Esporte". O jogador relembrou capas do ABC com os ditadores Adolf Hitler e Francisco Franco para detonar o veículo.

"Um jornal sempre devia estar ao lado da liberdade de expressão", postou Piqué em seu Twitter, para depois "retuitar"as capas com Hitler e Franco, escrevendo: "O ABC nunca esteve muito a favor da liberdade".

No entanto, o clube blaugrana acabou indo à Justiça e conseguiu a liberação.

De maneira secreta, porém, o Barcelona vem há meses tentando melhorar sua relação com o Governo espanhol. A revista Don Balón publicou que Bartomeu realizou, no ano passado, um misterioso encontro com Soraya Santamaría, no qual tentou alinhar um "pacto de não agressão": o Governo faria "vista grossa" para várias acusações de corrupção da diretoria do Barça e seus jogadores, como fraudes fiscais, e em troca o time azul-grená não se manifestaria com força quando a questão do processo de separação da Catalunha começasse a pegar fogo. 

Piqué se emociona, chora por violência policial e cogita deixar seleção: 'Se sou um problema'

No fim das contas, porém, a Fazenda espanhola caiu forte em cima dos problemas tributários do Barça, principalmente das questões envolvendo os atacantes Neymar e Lionel Messi, enquanto a equipe catalã colocou-se totalmente a favor do referendo separatista, inclusive aderindo à greve geral convocada por sindicatos.

  • Ela também detesta o Atlético de Madri

Em entrevista ao jornal El Confidencial em 2016, antes da final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Atlético de Madri, em Milão, Soraya Saénz de Santamaría também confessou que odeia o "Atleti", e que tornou-se torcedora merengue porque havia colchoneros demais em sua família. 

JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images
Soraya e Mariano Rajoy em 2016
Soraya e Mariano Rajoy em 2016

"(Tornei-me torcedora do Real Madrid) Para ser contrária a todos os que torcem pelo Atlético na minha família. Já há muitos fanáticos pelo Atlético na minha família", disparou Santamaría.

Apesar de detestar o clube alvirrubro, Soraya também disse que aceitaria sair para tomar uma cerveja com o técnico atleticano, o argentino Diego Simeone, se tivesse oportunidade. Mas só se estivesse acompanhada também de Zinedine Zidane, seu ídolo como jogador do Real e atual técnico dos blancos.

A vice-presidente ainda foi convidada a dar um palpite para a final e não titubeou. 

Veja o momento em que Gerard Piqué é vaiado durante treino da seleção espanhola em Madri

"2 a 1 para o Real Madrid".

Ela acabou errando, já que o duelo em San Siro acabou em 1 a 1, mas os merengues ficaram com o título ao vencerem por 5 a 3 nas cobranças de pênaltis, sagrando-se campeões da Champions mais uma vez em cima do rival municipal, como em 2014 - para enorme alegria de Soraya Santamaría e tristeza de seus familiares.