Até com ciência: como, há 40 anos, Corinthians acabou com fila de 23 anos

Rafael Valente, para o ESPN.com.br
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Corinthians campeão em 1977: Zé Maria, Tobias, Moisés, Ruço, Ademir e Wladimir em pé; agachados Vaguinho, Basílio, Geraldão, Luciano e Romeu
Corinthians campeão em 1977: Zé Maria, Tobias, Moisés, Ruço, Ademir e Wladimir em pé; agachados Vaguinho, Basílio, Geraldão, Luciano e Romeu

Para colocar um fim na fila de quase 23 anos sem títulos, o Corinthians barrou contratações e optou por trabalhar com um elenco enxuto, mas com jogadores que já conheciam o clube. Foi assim que, em 13 de outubro de 1977, há 40 anos, o time alvinegro derrotou a Ponte Preta por 1 a 0, no Morumbi, e foi campeão Paulista.


A estratégia que ajudou a equipe do Parque São Jorge a colocar um ponto final em anos de sofrimentos teve dois mentores: o técnico Oswaldo Brandão e o professor José Teixeira, preparador físico e auxiliar do treinador gaúcho. 

Eles não começaram a campanha que terminou em título. Na verdade, substituíram Duque, demitido em 27 de março de 1977, após 13 jogos no Paulista. Brandão e Teixeira foram os responsáveis pelo destino do time nos 34 jogos seguintes.

A ideia de barrar contratações foi de Teixeira. Ele apresentou para Brandão um longo estudo sobre os anos do jejum corintiano, apontando quais os erros tinham sido cometidos e que afastavam a agremiação de uma taça.

"Um exemplo do que acontecia naqueles anos difíceis: o Corinthians foi jogar em Salvador e perdeu para o Bahia. O que a diretoria da época fez? Contratou Gilson Porto [atacante] porque ele fez dois gols. Em outro momento, o time foi jogar com o Londrina e empatou, então trouxe o Badeco [volante]. Então o pensamento vigente era de que os nossos jogadores não serviam. Os outros eram sempre melhores", disse Teixeira ao ESPN.com.br.

"O Corinthians desacreditava os jogadores e geralmente terminava uma temporada com mais de 40 atletas no elenco. Não poderia ser campeão assim".

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Oswaldo Brandão e José Teixeira
Oswaldo Brandão e José Teixeira

A tese do professor estava fundamentada em anos de observação. Ele chegou ao Corinthians para trabalhar em 1964. Ficou até 1970. Depois retornou em 1977. Mesmo nos anos em que não esteve no clube, ele manteve sua análise e produziu um relatório, que acabou virando livro: "A história de um tabu que durou 22 Anos".

Após convencer Brandão de que o melhor era confiar no elenco que ambos tinham em mãos em 1977 e não contratar mais ninguém, Teixeira teve a missão de fazer com que o presidente do Corinthians, Vicente Matheus, os apoiassem. 

O mandatário estava desesperado por um título, como qualquer outro corintiano daquela época, e ouviu de Teixeira os motivos para que o Corinthians não contratasse mais jogadores, confiando no grupo, que naquele momento tinha 27 atletas.

"Fui até a casa dele e expliquei a nossa tese. O Corinthians não perdia para ninguém. O Corinthians perdia para ele mesmo. Ele ficou meio assim, achou loucura, mas confiou e foi assim que ficamos com um elenco de 23 jogadores, ou seja, 20 de linha e três goleiros, para fazer mais de 70 jogos naquele ano. E os jogadores muitas vezes fizeram mais de uma função. O Basílio foi camisa 5, 7, 8, 9 e 10", relembrou Teixeira.

Há 40 anos, Corinthians vencia Ponte Preta e encerrava jejum de quase 23 anos

  • Elenco enxuto, mas experiente

Vinte e sete jogadores começaram o Campeonato Paulista de 1977 pelo Corinthians. Ao longo da campanha três deixaram o clube. O lateral Cláudio Marques, que foi para o Coritiba, o volante Givanildo, que voltou para o Santa Cruz, e o ponta-esquerda Edu, que retornou ao Santos.

Mesmo com 24 jogadores a comissão não aprovou contratações.

Mas vale ressaltar que a maioria dos jogadores que defendiam o Corinthians em 1977 tinham experiência. Dos 27 que estiveram na campanha do Paulista, 15 já tinham sido campeões no futebol e 12 buscavam a primeira taça na carreira. Do grupo total, sete tinham iniciado na base alvinegra.

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Osvaldo Brandão foi o comandante em 1977
Osvaldo Brandão foi o comandante em 1977

No time titular, aquele que bateu a Ponte Preta por 1 a 0, em 13 de outubro de 1977, seis jogadores já tinham algum título no currículo.

O lateral Zé Maria foi reserva na Copa do Mundo de 1970; o zagueiro Moisés foi campeão da Taça Brasil de 1968 com o Botafogo e do Brasileiro de 1974 pelo Vasco;  o volante Luciano era pentacampeão pernambucano pelo Santa Cruz e tinha uma taça pelo Sport; o meia Basílio ganhou o Paulista de 1973 pela Lusa; o ponta-direita Vaguinho foi campeão mineiro pelo Atlético-MG em 1970 e o ponta esquerda Romeu foi campeão mineiro em 1970 e brasileiro em 1971 pelo Atlético-MG.

Havia casos como o de Wladimir, Adãozinho, Lance, entre outros, que tinham participado de conquistas menores, como o Torneio Laudo Natel, o Torneio do Povo e até a Copa Internacional São Paulo, jogada no Morumbi. Nenhuma dessas taças, contudo, tinha o impacto que a torcida desejava.

O elenco também havia muitos jogadores que tinham sido vice-campeões do Brasileiro de 1976 pelo Corinthians.

Exemplos que mostram que era um time que não tinha medo de decidir.

  • Ciência envolvida

O Corinthians também fez uso da ciência para ser campeão. O time fez uso da "ciclobiologia", que até hoje é bem incomum no futebol.

"O uso da ciência hoje está bem desenvolvido, mas naquele tempo não era assim. Um dia nós recebemos dois professores de Sociologia no Parque São Jorge e eles falaram: 'Por que vocês não usam a ciclobiologia?' Ninguém entendia nada sobre isso. Começamos a pesquisar e resolvemos dar uma chance", disse Teixeira.

 "A ciclobiologia é o comportamento do ser humano. Exemplo: ‘Parabéns, nasceu seu filho’. Ou ‘Você ganhou na loteria’. É um estímulo emocional positivo. Se chegar e falar assim ‘Faleceu seu melhor amigo’. Você pode se prostrar ou subir de acordo com as informações que vêm. Então, intelectual, emocionalmente e fisicamente isso é uma realidade. E nós naquela época já usávamos para poder discernir o que poderia acontecer antecipadamente antes do jogo", completou.

Em outras palavras, a "ciclobiologia" é uma mistura de matemática, biorritmo e astrologia.

De acordo com o Teixeira, o ponto de partida para identificar o estado físico, intelectual e emocional que cada jogador teria no dia da partida era por meio da data de aniversário. Assim, com dados cruzados os especialistas entregavam um relatório para a comissão técnica do Corinthians.

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Basílio comemora histórico gol na final do Paulista de 1977
Basílio comemora histórico gol na final do Paulista de 1977

"Por uma coincidência, cinco daqueles que estavam em perfeito estado acabam participando do gol. Casos do Basílio, Vaguinho, Zé Maria, Wladimir. Eles estavam. A falta foi: Zé Maria, passa na cabeça do Basílio. Vaguinho chuta de esquerda na trave. Volta para o Wladimir. Ele cabeceia e vai no rosto do Oscar. Volta para o Basílio e ele chuta", explicou Teixeira, com o melhor exemplo da aplicação da "ciclobiologia".

"As previsões que recebíamos falavam também da Ponte, da arbitragem e da comissão técnica. No último jogo a previsão que eu tenho por escrito diz assim: Brandão, Zé Teixeira, Benê Ramos e João Avelino, vários jogadores, máximo positivamente. Zé Duarte: dia critico físico, tanto que ele teve problema de saúde. Nicanor: dia critico. Ele foi expulso no fim do jogo. Oscar: dia critico emocional. Foi expulso. Geraldão: dia critico emocional. foi expulso. Então, todas essas previsões que aconteciam, o Brandão tinha possibilidade de pensar no que ia acontecer e montar um banco. Essa é a história da ciclobiologia".

  • Os campeões

Abaixo, todo o elenco do Corinthians campeão do Campeonato Paulista de 1977 e quantos jogos participaram.

Para ser campeão, o Corinthians fez 48 jogos, com 30 vitórias, seis empates e 12 derrotas. Marcou 73 gols e sofreu 38. 

GOLEIROS
Tobias, 28 - 32J, 19V, 5E, 8D, 28GS
Jairo, 30 - 16J, 11V, 1E, 4D, 10GS
Solito, 20 - Não jogou

LATERAIS
Zé Maria, 28 - 27J, 19V, 2E, 6D, 1GP
Beline, 24 - 2J, 1V, 0E, 1D, 0G
Cláudio Góis, 21 - 2J, 2V, 0G
Wladimir, 23 - 31J, 16V, 4E, 11D, 1GP
Cláudio Mineiro, 25 - 30J, 22V, 2E, 6D
Cláudio Marques, 17 - Não jogou/Voltou ao Coritiba antes do fim da campanha

ZAGUEIROS
Moisés, 29 - 43J, 27V, 6E, 10D
Ademir, 30 - 27J, 15V, 5E, 7D
Zé Eduardo, 23 - 30J, 22V, 2E, 6D
Darcy, 23 - 16J, 8V, 4E, 4D, 1GP

VOLANTES
Ruço, 28 - 33J, 21V, 3E, 9D, 3GP
Luciano, 29 - 42J, 25V, 6E, 11D, 6GP
Givanildo, 29 - 24J, 13V, 4E, 7D, 0G. Voltou ao Santa Cruz durante o segundo turno

MEIAS
Basílio, 28 - 28J, 16V, 4E, 8D, 7GP
Palhinha, 27 - 34J, 23V, 2E, 9D, 9GP
Adãozinho, 25 - 12J, 8V, 1E, 3D, 1GP
Lance, 28 - 11J, 8V, 1E, 2D, 1GP

PONTAS-DIREITA
Vaguinho, 27 - 43J, 26V, 6E,  11D, 8GP
Rubens Nicola, 22 - 4J, 3V, 0E 1D
Alves, 23 - Não jogou

CENTROAVANTES
Geraldão, 28 - 46J, 29V, 6E, 11D, 24GP
Jenildo, 20 - 1J, 1V

PONTAS-ESQUERDA
Romeu, 27 - 39J, 24V, 6E, 9D, 8GP
Edu, 28 - 29J, 16V, 5E, 8D, 2GP. Voltou ao Santos antes do fim da campanha

TÉCNICO
Oswaldo Brandão, 34 jogos, 24 vitórias, 2 empates e 8 derrotas
Duque, 13 jogos, 5 vitórias, 4 empates, 4 derrotas

*Dados do Almanaque do Corinthians, de Celso Unzelte