Análise: 'FIFA 18' faz o melhor do futebol nos videogames, mas ainda peca com cenário brasileiro

Ricardo Caetano/ESPN.com.br

Reprodução/EA Sports
FIFA 18 oferece diversos modos de jogo, todos com bastante profundidade.
FIFA 18 oferece diversos modos de jogo, todos com bastante profundidade.

Ao jogar FIFA 18 pela primeira vez, o mais distraído pode achar que sua TV está no canal errado. Sem qualquer aviso, Real Madrid e Atlético de Madrid surgem na tela, em mais um derby da capital espanhola, disputado no monumental Santiago Bernabéu. "Não estou jogando FIFA", pensa o distraído.

Os jogadores estão lá, a torcida canta para empurrar o time merengue, até o que é visto na TV tem o que costuma se ver em uma transmissão de La Liga. De repente, Cristiano Ronaldo sofre uma falta (se fosse em um jogo real, acabaria desencadeando uma batalha campal) e você assume o controle do português. "Viva! Finalmente estou no controle", comemora o distraído.

A partir da cobrança da falta, o jogador é convidado a entrar na nova temporada do jogo de futebol da EA Sports. O cartão de visita do jogo traz muito das novidades de FIFA 18 e o foco da desenvolvedora. Na verdade, nem tudo, já que o adversário mais tradicional do Real Madrid está "jogando em outro campo".

Por outro lado, o estilo cinematográfico está lá, assim como a recriação de grandes craques, o estilo da transmissão e muitos das características que tem conduzido FIFA nos últimos anos como o game de futebol preferido do público.

Seja no clássico de Madrid ou em jogos dos grandes clubes da Europa, o clima de jogo se faz presente em certos pontos. Os mais importantes do futebol mundial têm direito a hinos da torcida como You'll Never Walk Alone do Liverpool, ou a canção tocada logo após um gol do Real em seu estádio.

Reprodução/EA Sports
A primeira experiência no jogo é um clássico entre Real e Atlético de Madrid.
A primeira experiência no jogo é um clássico entre Real e Atlético de Madrid.

Para o resto, porém, um simples aumento no volume da torcida e já conhecidas faixas com frases comuns, são os truques para deixar o jogo mais "vibrante". Para os "escolhidos", a torcida realmente empolga com seu grito.

Em campo, a Frostbite faz bem a FIFA com uma física sólida e fluida. Particularmente, é a primeira vez que sinto o "peso" em FIFA. Nesta versão, a bola não parece uma "bexiga" sendo disputada pelos jogadores, mas uma bola de futebol com seus 450 gramas e seus 70 cm de circunferência.

Uma disputa ou um chute forte ao gol passa a sensação da gravidade sobre a bola e não a leveza de versões anteriores. Na disputa pela bola, o jogo de corpo funciona: se entrar com o ombro, vence o mais forte - e sem falta.

Nos primeiros dias de teste, porém, pausas irritantes surgiram principalmente durante cobranças de bolas paradas, como faltas e pênaltis. O jogo fica em uma espécie de "vácuo", parado, como se alguma confirmação do "árbitro eletrônico". Após as pausas inexplicáveis, o jogo volta ao normal.

No campo da jogabilidade, há uma melhora significativa de posicionamento em campo por parte da Inteligência Artificial, que acaba refletindo a favor do jogador e os atletas de seu time que não estão sob seu controle direto. Resultado? O posicionamento no ataque para o toque de bola e, principalmente, nas interceptações de passes.

Se a IA dá "chutões" para tirar a bola de sua área, impressiona sua frieza quando damos um "carrinho" em um atleta sob seu controle. O avatar é capaz de brecar a jogada, esperar o que vai acontecer e só então dar o toque certo para fugir da ação adversária.

O "ping-pong" nos passes parece um pouco mais acentuado neste ano e a bola parece ter um ímã, pois a frequência de lances nas traves no parece fora do normal.

A substituição dinâmica é uma grande adição, desde que usada com sabedoria. O sistema de troca rápida de jogadores é genial para quem tem mais de "11 titulares" em seu elenco e sabe de antemão quem colocar ao longo do jogo. É uma opção que agiliza o jogo.

Porém, em casos fora do planejado, deve ser usado com cuidado e não ser afoito, pois trocas erradas podem acontecer. Mesmo com a novidade, não deixe de acessar o painel de estratégia do seu time para verificar a condição geral do elenco.

Visualmente, a Frostbite faz bem ao jogo, tornando animações e o visual dos jogadores de qualidade, principalmente relacionado às grandes estrelas do futebol mundial. A arquibancada parece menos "genérica", mas se você olhar com atenção ainda verá os alguns "gêmeos" separados por apenas algumas fileiras na arquibancada.

A qualidade visual se manifesta mesmo nos detalhes dentro de campo, como o goleiro "pagando geral" para a defesa com uma bola perigosa do adversário ou um companheiro que vira a cabeça para conferir o chute do companheiro no gol. Há menos menus, mas, apesar da boa navegabilidade, algumas opções não possuem fácil acesso e há redundância de alguns menus, com as mesmas opções disponíveis em locais diferentes.

Escolha sua maneira de jogar FIFA 18

Além das partidas avulsas e campeonatos personalizáveis, FIFA 18 possui diversas opções para se jogar futebol. Uma das grandes características de sua profundidade é a capacidade de envolver não só o que acontece nas "quatro linhas", mas fora delas.

No modo Carreira, você pode jogar como um jogador ou técnico de um time. Seu desempenho é medido por notas, que rendem pontos que aperfeiçoam seu avatar. Como administrador, Carreira se aproveita do sucesso de Jornada em FIFA 17 e tem suas próprias sequências cinematográficas, principalmente no trato com jogadores e seus representantes. Aqui, o videogame entra em ação e todas as opções são definidas por um sistema de escolha de respostas que desenvolvem as negociações entre time e jogador.

O futebol feminino está presente, mas só com seleções nacionais. Marta (é muito legal jogar com ela), Cristiane e Cia. estão licenciadas e fazem parte do Brasil, assim como outras estrelas. O espaço ainda é muito pequeno, mas pelo menos a narração é ajustada, com a concordância de gênero em muito do material gravado pelos narradores.

Reprodução/EA Sports
Marta é uma das estrelas do futebol feminino presente no game.
Marta é uma das estrelas do futebol feminino presente no game.

Assim como nos esportes reais, o futebol feminino evoluiu e está próximo ao visto nas partidas masculinas. Exceto pela explosão muscular menor, o jogo feminino flui e é tão bom quanto qualquer outro modo do jogo. Mas as duas estrelas de FIFA 18 são Jornada e FUT.

A segunda temporada de Jornada continua a história de Alex Hunter, aspirante a estrela do futebol mundial. Após sua passagem meteórica na Premier League em FIFA 17, o jogador tem a chance de deixar a Inglaterra para defender outros times de grandes ligas.

Em um tom cinematográfico, com direito a encontros com Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand, o jogador deve conduzir Hunter dentro e fora de campo. Na primeira temporada vimos Hunter surgir de uma peneira, assinar seu primeiro contrato, treinar para melhorar seus atributos, ser emprestado e dar a volta por cima.

Agora, a vida do jogador é afetada pela fama e pela pressão imposta a quem se destaca no meio. No começo da nova jornada, Hunter passa férias no Brasil esperando a pré-temporada começar. O jogador é desafiado a um "gol a gol" em uma comunidade no Rio de Janeiro: uma partida contra garotos em um campo reduzido, com física e um tratamento todo especial que remete aos bons tempos de FIFA Street.

Reprodução/EA Sports
Alex Hunter, a nova estrela inglesa, quer ganhar o mundo na segunda temporada de Jornada.
Alex Hunter, a nova estrela inglesa, quer ganhar o mundo na segunda temporada de Jornada.

Uma vez na pré-temporada, começa o cotidiano de Hunter: treinar para melhor seus atributos, lidar com seus companheiros e diretoria, jogar, cumprir suas metas, ganhar campeonatos e por aí vai.

Você pode importar seu Alex Hunter de FIFA 17, com as estatísticas e escolhas feitas na primeira temporada, ou começar com um novo (escolhendo a posição e o time base). Estrela em ascensão, Hunter é personalizável. Há itens para alterar sua roupa, corte de cabelo e tatuagens, além de elementos relacionados ao uniforme de jogo.

Desta vez é possível pular vídeos, mas isso é algo muito ruim, pois essa é a essência do modo e tudo o que ele tem de melhor, você perde por não acompanhar a história. Na nova temporada, segue o esquema de temperamento em suas ações e repostas: provocativo rende mais fãs e publicidade mas deixa a situação ruim com a comissão técnica; mais calmo rende o inverso.

"Aqui é trabalho, meu filho"

O Ultimate Team mais uma vez vai monopolizar a atenção dos jogadores de FIFA. O modo está cada vez mais forte e popular na franquia e é a nova menina dos olhos da EA, pois alonga seus ganhos financeiros sobre o jogo e se tornou o canal de esports de FIFA.

O FIFA Ultimate Team Championship Series é o circuito competitivo de FIFA, formado por diversas competições regionais que elegem seus melhores jogadores para etapas decisivas. FIFA 18 terá sua própria temporada.

Reprodução/EA Sports
Cada partida em FUT rende recompensas de acordo com o desempenho do jogador.
Cada partida em FUT rende recompensas de acordo com o desempenho do jogador.

Em FUT, os objetivos são criar e desenvolver seu plantel com cartões que simbolizam atletas presentes no jogo. Os jogadores estão cada vez mais aficionados em criar seu elenco e testá-lo contra os demais competidores. Buscar os melhores nomes ou aqueles que se encaixam melhor a sua estratégia sem que o orçamento "vá para o espaço" tornaram-se a nova "coqueluche" da franquia.

Antes reservados ao Xbox One, em FIFA 18 outras plataformas também terão os jogadores "lendários", agora chamado "ícones", como Pelé, Maradona, Ronaldinho Gaúcho e "Fenômeno". Grandes nomes na história do futebol mundial terão três cartas cada de diferentes momentos de sua carreira. Por exemplo, há o Pelé de cada uma das conquistas das Copas do Rei do Futebol. Uma boa homenagem e a oportunidade de vê-los junto aos atuais ídolos do futebol moderno.

Made in "Brasil"

O conteúdo específico do Brasil no mundo dos games é escasso. Quando não somos mercenários, lutadores de capoeira ou representados por uma criatura verde que habita nossa selva, os games de futebol são um oásis no qual o país é protagonista.

No entanto, o Brasil em FIFA 18 é uma decepção. Exceto pela Seleção Brasileira, um dos melhores esquadrões do jogo, o "Brasileirão" é decepcionante.

O máximo de personalização que temos é Thiago Leifert chamando o Santos de "peixe" ou Palmeiras de "verdão". Os uniformes foram recriados com fidelidade, mas de resto temos que suportar o meio de campo do São Paulo com Paes, Chissano, Peixe, Lobateiro e Madinha. Nada de Gatito Fernández no Botafogo: o goleiro do time da "estrela solitária" é Prestão. É um anticlímax para aqueles que gostam de jogar com o time do coração.

Não há estádios brasileiros e as torcidas, no máximo, repetem a batida do Timbalada quando o jogo é times daqui. O overall nacional torna as partidas entre nossos times mais fraca.

Reprodução/EA Sports
Arouca virou goleiro ou Jaílson está com um novo corte de cabelo?
Arouca virou goleiro ou Jaílson está com um novo corte de cabelo?

Todos esses elementos juntos afastam os jogadores da liga brasileira e criam o círculo vicioso: ninguém liga para o Brasil porque não há atrativos e não há atrativos porque ninguém liga para o Brasil.

Como compensação, a narração local é boa, com muitas frases a disposição do jogo. Há poucos, mas perceptíveis, cortes quando é preciso alguma personalização do comentário ou narração.

No entanto, a grande quantidade não fica imune a repetição fora do limite e possui um efeito colateral: a inserção fora do contexto. Muitas vezes a frase dita por Leifert ou Caio Ribeiro não condiz com que o acontece em campo ou eles se contradizem, quando soltam uma informação e, no lance seguinte, tudo é desmentido.

Por exemplo, quando um time está goleando outro e há um gol de quem está atrás no placar, surgem frases como "ainda é possível" ou "é um time de guerreiros". Há diferença técnica entre narrador e comentarista (problemas na mixagem), principalmente relacionado a frases gravadas especialmente para FIFA 18 e reaproveitadas de jogos anteriores.

Assim, FIFA 18 peca no nosso futebol, com contribuição direta da bagunça que é conseguir qualquer tipo de acordo com times e jogadores no Brasil. Para o público daqui, e de todo mundo, é mais um gol feito pela EA Sports.

No final das contas, o esporte bretão é muito bem representando em FIFA 18, que acerta em muito em trazer não só o esporte em si, mas tudo o que envolve uma partida de futebol.

Você pode controlar seu time do coração (melhor que seja europeu), a seleção de seu país, ser o gerente para contratar seus ídolos ou viver um pouco da pressão de Alex Hunter na busca pelo estrelato. Um jogo para quem gosta mesmo de futebol.