Ele trabalhava em quiosque na praia, foi 'parça' de Neymar no Santos e agora é goleador na Tailândia

Luiza Ferraz e Vladimir Bianchini, para o ESPN.com.br

Cortesia / Felipe Azevedo
Felipe e sua família nas praias da Tailândia
Felipe e sua família nas praias da Tailândia

Quando se trata de disputar ligas inusitadas, Felipe Azevedo já virou especialista. Hoje com 30 anos, ele jogou ao lado de Ganso e Neymar no Santos, passou pela Coreia do Sul e hoje é goleador na Tailândia. 

Nascido em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, a sua história no futebol começou um pouco mais tarde do que a de outros atletas. Durante a adolescência, ajudava seus pais em um pequeno comércio familiar que tinham na praia.

“Eu atendia no balcão, cortava coco, ajudava na cozinha... de tudo um pouco. É um trabalho difícil, mas era gostoso, pois a gente fazia em família. Era prazeroso, não trazia tanto dinheiro, mas era gostoso de fazer”, contou o atleta. "Uma vez até atendi o Nando Reis, cantor, que tinha casa lá e estava sempre no nosso quiosque", acrescentou.

  • Como tudo começou

Jogando bola por diversão, ele até fez testes na base de grandes clubes brasileiros como Cruzeiro e São Paulo - neste último, chegou à fase final, mas acabou não vingando. Desta maneira, só teve uma verdadeira oportunidade aos 17 anos de idade.

“Na época em que eu trabalhava no quiosque, também jogava alguns campeonatos de várzea em paralelo. Teve uma vez que um empresário me viu jogar e disse que eu tinha potencial para estar em um clube, aí ele me levou para um teste no XV de Piracicaba”, relatou.

Na equipe interiorana, o atacante fez parte da categoria infantil e juniores até subir para o profissional. De lá, recebeu uma proposta do Ituano e foi para o Juventude trabalhar com o técnico Zetti. “Essa foi uma experiência espetacular, ele tem uma humildade maravilhosa, é um cara muito humano, um bom treinador”, elogiou o atleta.

Antes de ser descoberto pelo Santos, Felipe atuou pelo Paulista de Jundiaí e disputou o Campeonato Paulista, que lhe abriu muitas portas.

“Eu estava me destacando no torneio e o Vágner Mancini, que era treinador do Santos na época, procurou informações minhas e pediu a minha contratação. Eu não pensei duas vezes, até pintaram outros clubes de menor expressão, mas aceitei a proposta, que até o momento era só de empréstimo”, relembrou.

  • Sobre jogar no Santos: 'Foi mágico'
Com quatro gols de Neymar, Santos goleou o Atlético-PR em 2011

Na Vila Belmiro, Felipe esteve ao lado de alguns dos maiores talentos da história do clube, aquela geração que hoje todo mundo conhece - alguns até internacionalmente.

“Atuei com Neymar, Ganso, Alan Patrick e André, além de outros jogadores experientes que já estavam lá antes. Foi uma experiência muito boa ter jogado com essa safra”, contou.

Assim como todo adolescente que aspira ser jogador de futebol profissional, estar no Santos era algo inimaginável. “O primeiro dia para mim foi mágico. Se põe no meu lugar, um cara que veio de uma família humilde, atrás de um sonho e chegar em um clube como esse”, disse. 

“Eu lembro que estava sentado no quarto do centro de treinamento logo que cheguei, aí fiquei olhando. Em todos os lugares tinham uns azulejos com o símbolo do Santos, aí eu olhei aquilo e pensei comigo mesmo: ‘Cara, eu tô no Santos, eu vou jogar pelo Santos'. Esse momento ficou marcado para mim” completou o atleta, em forma de nostalgia.

  • Histórias da Vila: 'Amarram o Neymar em uma árvore'
Gazeta Press
Felipe Azevedo e Neymar durante treinamento do Santos
Felipe Azevedo e Neymar durante treinamento do Santos


Já as histórias dos Meninos da Vila, essas podem render gargalhadas. O atleta define a equipe como “muito unida” e “muito divertida”, relatando que os treinamentos eram comandados pela ‘zueira’ e brincadeiras entre os veteranos e a ‘molecada’.

“Uma vez os meninos mais novos, com Neymar à frente, se juntaram querendo fazer uma rebelião para pegar alguns jogadores mais velhos. Se não me engano, eles pegaram o Pará, aí começaram a bater nele, aí não deixando barato, ele chamou o pessoal mais velho”, contou.

“Aí juntou Kleber Pereira, Fabão, Rodrigo Solto, Rodriguinho [lateral], Germano, Roberto Brum e todos os outros para dar o troco. Eles pegaram os meninos, amarraram eles numas árvores que tinham no CT e jogaram água gelada. A gente dava muita risada com a situação que eles passavam”, recordou o ex-santista.

“Amarraram o Neymar também, aí puxavam ele para cá, puxavam ele para lá. Era uma coisa muito divertida, tinha essa rapaziada que gostava de dar uma bagunçada, fazer uns churrascos, ‘trocar uma ideia’”, acrescentou.

Ele 'sobreviveu' a um elástico de Neymar e ainda chegou rasgando para ganhar o rebote também


Quanto ao camisa 10 da seleção e astro do Paris Saint-Germain, Felipe mostra o seu carinho e admiração, dizendo que o atacante já era destaque desde novo, mas não imaginava toda a proporção que isso ia tomar: “É o jogador mais caro do mundo”.

“Ele tinha uns 16 para 17 anos e era diferenciado demais. Eu lembro que a gente brincava de finalização e os atacantes do time na época, eu, Maikon Leite, [Paulo Henrique] Ganso, Thiago Luis e os meninos apostávamos que quem fizesse menos gols tinha que servir todos os outros no jantar e nas outras refeições. E o Neymar era um cara que nunca precisava servir ninguém”, disse.

“Pela idade que ele tinha, finalizava muito bem, não importa com qual perna – esquerda, direita, ele tinha muita facilidade. É por isso que eu tinha a noção que ele seria um jogador diferenciado, mas não com a proporção que tomou. Ele merece tudo o que acontece para ele”, elogiou o jogador.

“Há um ou dois anos, eu consegui o contato de um amigo que mora com ele e pedi pra ele me mandar um vídeo no WhatsApp para minha cunhada e minha esposa. Ele mandou o vídeo e ainda um abraço para mim por áudio, então você vê a humildade. Na época, ele tava no Barcelona, arrebentando, aí fica claro como ele é humilde e merece tudo isso”, disse.

Sem renovar contrato com o Santos, ele precisou procurar outros clubes até que veio a oportunidade de jogar no Busan I Park, time que disputa a primeira divisão do Campeonato Sul-Coreano. Na equipe asiática, o atacante atuou durante duas temporadas e foi vice-campeão da Copa FA, torneio nacional do país.

  • Tempos de artilharia
Caneta de Cirino, categoria de Felipe Azevedo e arrancada de Lucas Gomes no 'Top 10'

De volta para o Brasil, ele teve uma passagem de destaque pelo Ceará, onde foi campeão do Campeonato Cearense, conquistou a torcida e ainda foi goleador em ocasiões que ficaram marcadas em sua carreira.

“Em 2011, a gente venceu o Grêmio no Brasileiro, eu fiz os três gols e nós ganhamos de 3 a 0, foi um jogo muito marcante”, disse. “Foi uma coisa natural. Nenhum jogador que vai disputar contra um time grande programa ‘vou fazer três gols hoje’, e no Ceará sempre vivi um momento muito bom de artilharia”, afirmou.

Inspirado, Felipe fez jus ao seu ‘momento artilheiro’ em uma partida contra o Guarany de Sobral-CE, quando balançou as vezes por mais vezes.

Gazeta Press
Felipe durante a partida contra o Grêmio que ficou marcada na sua carreira
Felipe durante a partida contra o Grêmio que ficou marcada na sua carreira


“Marquei quatro gols e nós ganhamos de 5 a 0. Nós jogamos muito bem, e quando vi já tinha feito tudo isso de gols. No Ceará fiz o meu melhor ano nessa questão. Se somarem os dois meses – entre 2011 e 2012 -, eu fiz 30 gols, uma marca muito boa”, orgulhou-se.

Depois de sair do time cearense, ele atuou duas temporadas pelo Sport, no qual venceu a Copa Nordeste e o Campeonato Pernambucano.

Em 2015, foi para a Ponte Preta até que uma proposta inusitada bateu a sua porta.

“Um empresário me ligou perguntando se eu tinha interesse em jogar na Tailândia, aí fiquei perplexo, sem saber o que falar. A princípio disse que precisaria pensar, mas a parte financeira era muito boa”, relatou.

“Comecei a tirar informações do clube, do país, aí o treinador, Alexandre Gama, me ligou explicando como funcionava a liga. Falei com outros jogadores, e todo mundo elogiou o país e a competição”, disse.

  • Vida na Tailândia

Dessa maneira, foi transferido para o Chiangrai United no início deste ano, onde é titular absoluto e disputa a primeira divisão do torneio nacional.

“Quando falamos sobre Tailândia, todo mundo acha que não existe futebol, mas acontece que existe sim e é muito competitivo. Tem muitos jogadores brasileiros por aqui, inclusive, acho que todos os times contam com atletas brasileiros”, enfatizou.

Mesmo morando em um país oriental e de uma cultura completamente diferente, o tempo de adaptação foi bem rápido.

“A cidade aqui é muito boa. Não é tão grande, mas tem o básico, um shopping razoável, restaurantes bons, o condomínio onde eu moro é ótimo, a casa é boa, o carro também. Além disso, os tailandeses são muito acolhedores e, apesar da língua, eles tentam entender e ajudar. São parecidos com os brasileiros”, disse. 

Felipe conta que já passou por algumas situações inusitadas no novo clube.

“Logo que eu cheguei, fomos [com o time] para um quartel de polícia e tivemos que fazer umas gincanas lá, cozinhar a nossa própria comida de noite, acender a fogueira e coisas do tipo. Isso é para poder juntar o pessoal”, disse, em seguida relembrando outra ocasião.

Reprodução/ Instagram
Felipe atuando pelo Changriai United
Felipe atuando pelo Changriai United

"Também teve uma vez que estávamos ganhando de 2 a 0 um jogo, estava fácil. Era aniversário do pai do presidente do clube, aí no intervalo do jogo entraram no vestiário com uma bandinha, instrumentos e três pessoas cantando parabéns pro pai dele. Eu nunca tinha visto isso antes, são questões culturais que a gente não entende, mas é muito bom de viver e bem tranquilo", completou. 

Em relação às competições, hoje o Chiangrai United está em quarto lugar na Liga Tailandesa. Se terminar a temporada em segundo, poderá disputar a Champions League da Ásia. 

"Pensar em título nacional agora é meio complicado, mas estamos buscando a Champions. Além disso, também participamos de mais duas copas, e uma delas também da vaga pra disputa", explicou Felipe. 

"A minha situação hoje em campo é muito boa, venho jogando como titular, sou artilheiro da equipe com 19 gols na temporada. A equipe vem bem, numa crescente legal pra chegarmos nessa reta final  e quem sabe buscar o título de uma dessas copas, talvez uma classificação na Liga [dos Campeões] finalizou.