Fã de filmes de ação, rei da Arábia e futuro advogado: conheça o novo xerife do Cruzeiro

Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br

Digão promete lutar por espaço no Cruzeiro, acredita em título brasileiro e aposta em tropeços do Corinthians

Fã de filmes como Tropa de Elite, ídolo no futebol árabe onde foi multicampeão e pensando em ingressar em uma faculdade assim que pendurar as chuteiras. Essa é a trajetória do novo zagueiro do Cruzeiro, Rodrigo Junior Paula Silva, popularmente conhecido como Digão.

O defensor de 29 anos, que estava no Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos, começou nas categorias de base do Fluminense aos 13 anos. Em Xerém, ele conheceu Dedé, seu atual companheiro na Toca da Raposa.

“A gente era bem moleque, uns 16 anos, e nem tínhamos barba ainda (risos). Ele vinha do Volta Redonda e jogamos um tempo juntos antes dele sair. A gente curtia muito na concentração jogar videogame e ficar naquela resenha. Nos treinos, a gente sentava a porrada nos moleques novos (risos)”, disse Digão, ao ESPN.com.br.

Após sair do clube das Laranjeiras, Dedé passou por Volta Redonda e Vasco antes de chegar ao Cruzeiro, em 2013.  

“Quando nos vimos parecia que nada mudou. Ele continua super humilde mesmo depois de ter conquistado muita coisa e ter defendido a seleção brasileira”, elogiou.

O zagueiro lamenta a situação do amigo, que não conseguiu ter uma sequência de jogos desde que se lesionou.

arquivo pessoal
Dedé e Digão jogaram no Flu
Dedé e Digão jogaram no Flu

“Fico triste por causa das lesões dele. Mas tenho certeza que logo ele irá superar isso e voltará jogar futebol”, reconheceu.

O zagueiro passou por todas as categorias de base antes de ser promovido ao time principal, em 2009.

“Queria logo chegar ao profissional, ter reconhecimento, fama e ganhar dinheiro (risos). Em um time grande você está perto disso, mas a concorrência é muito grande. Em Xerém todo ano sai grandes jogadores da base”.

Pelo Fluminense, ele faturou duas vezes o Campeonato Brasileiro (2010 e 2012) antes de sair para o Al-Hilal, em 2014.

  • Rei da Arábia

No período em que ficou na Arábia Saudita, Digão virou ídolo da torcida do Al-Hilal e passou por algumas situações inusitadas.

Enquanto concedia entrevista ao ESPN.com.br, em 2015, ele foi parado pela polícia durante um passeio de carro pelas ruas de Riyadh, a capital do país. Abordado, falou em árabe com o guarda de trânsito, que imediatamente o reconheceu.  O brasileiro acabou liberado sem maiores problemas.

Com uma grande moral entre dirigentes e torcedores, o defensor ganhou presentes como carros, celulares, dinheiro vivo e até um relógio da marca Rolex. Além disso, chegou a viajar com o avião da família real, proprietária do clube.

Arquivo Pessoal
Digão ganhou bolo na Arábia
Digão ganhou bolo na Arábia

"Vira e mexe eu ganhava jantar também, porque tinham donos de restaurantes que eram torcedores do Al-Hilal e nos deixavam comer na faixa! Teve uma vez que cheguei em um restaurante e o cara tinha feito um bolo com uma foto enorme minha jogando pelo time, foi muito legal", relatou.

Além disso, ele entrou uma vez de bermuda em um shopping center - algo proibido no país - porque o segurança era torcedor fanático do time.

Após três anos no Al-Hilal, Digão se transferiu para o Al Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos. Após uma temporada, ele resolveu voltar ao Brasil.

“Eu sentia falta de cobrança e pressão da torcida. Lá era mais interna. Vi que queria ter aquela vontade de jogar vontade de jogar futebol, ter torcida no estádio e tudo mais”, contou.

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  • Acerto com Cruzeiro

Disposto a recomeçar no Brasil, Digão contou com a ajuda dos amigos para acertar com o Cruzeiro. Mesmo com propostas de outros times, ele não pensou duas vezes quando recebeu uma oferta da equipe mineira.

“O clube tem muita tradição. Dois meses antes eu estive com o Rafael Sóbis e o Thiago Neves [ex-colegas de Fluminense], que me contaram como era aqui. Disseram que aqui tem estrutura, suporte e a torcida é bacana”, elogiou.

“Eu já tinha as informações e quando cheguei fui muito bem recebido por todos. O ambiente de trabalho é muito bom e o grupo de jogadores é bem legal. Por causa disso, acho que temos grandes chances de sermos campeões de algum torneio”, relatou.

Reprodução
Thiago Neves e Digão jogaram pelo Al Hilal
Thiago Neves e Digão jogaram pelo Al Hilal

Como treinou por conta própria enquanto não definia seu futuro, Digão precisou pouco tempo para ficar em forma.

“Claro, é diferente de estar com grupo e trabalhando com bola. Eu estava com o condicionamento físico abaixo. Eu me esforcei muito para entrar no mesmo ritmo dos outros e evoluí muito. Em 15 dias já estava treinando com o resto da galera”, afirmou.

O jogador deve estrear com a camisa do Cruzeiro no duelo contra o São Paulo, neste domingo, às 11h (de Brasília).

“No primeiro jogo vou sentir um pouco a falta de ritmo, mas logo vou me readaptar. Estou pronto para jogar. Nosso time está muito bem e a zaga está bem encaixada com o Murilo e o Léo. Espero que a gente mantenha essa pegada até o final do ano”, garantiu.

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  • Fã de Tropa de Elite e futuro advogado

Digão procura aproveitar o pouco tempo livre ao lado da esposa e da filha. Avesso à vida noturna, os passatempos do zagueiro são bem tranquilos.

“Sou um cara bem família e gosto ficar em casa. Para relaxar, curto jogos [de videogame] como Call of Dutty e Fifa. No futebol eu sou melhor e costumo jogar online com a galera”, relatou.

Das poucas vezes que sai de casa, vai para algum restaurante ou ao cinema.

“Gosto de quase de todos os gêneros de filme, menos de terror. Adoro filmes de ação de caras como [os atores] Vin Diesel e Jason Statham. Mas o filme que eu mais gosto e já vi umas 10 vezes é o primeiro ‘Tropa de Elite’. Quando passa na televisão eu sempre paro para ver”, afirmou.

MEHDI ZARE/AFP/GETTY IMAGES
Digão e ação pelo Al-Hilal
Digão e ação pelo Al-Hilal

“Eu tenho um tio que trabalhou no Bope e a realidade é bem parecida ou até pior. Ele me falou que os treinamentos são mais pesados ainda do que é mostrado no filme”, falou.

Além disso, Digão tem planos ambiciosos para quando pendurar as chuteiras: quer fazer faculdade de direito.

“Sempre gostei dessa área e me identifico. Tenho alguns amigos advogados e espero que um dia eu possa fazer a faculdade. Estudo é sempre importante”, alertou.

“O direito tem uma área muito ampla de atuação, mas penso em seguir no direito esportivo. Eu estou nesse meio há muito tempo. Vamos ver o que irá acontecer. Estou com 29 anos e depende do meu corpo, vou até onde ele aguentar”, assegurou.

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Enquanto esse dia não chega, ele se diverte ao se imaginar nos tribunais vestindo terno e gravata. "Já pensou escrito na plaquinha do meu escritório lá Dr. Rodrigo Junior Paula Silva? Ia ser fera! (risos)", finalizou.