Nicholas superou lesão e sono de pai para fazer história na natação

Agência Gazeta Press

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Nicholas Santos levou a prata no Mundial
Nicholas Santos levou a prata no Mundial

A prova dos 50 metros borboleta no Mundial de natação de Budapeste, na Hungria, teve o britânico Benjamin Proud como medalhista de ouro. Aos 22 anos, Proud foi apenas quatro centésimos mais rápido que Nicholas Santos, brasileiro de 37 anos, que precisou superar um estiramento no peitoral e ainda ficou à frente de Andrii Govorov, ucraniano de 25 anos, medalhista de bronze com o tempo de 22’84. Dessa forma, Nicholas se tornou o atleta mais velho a subir ao pódio em mundiais. Mas, mais do que a idade, a lesão foi o principal obstáculo do nadador da UniSanta.

“Foi antes do (Troféu) Maria Lenk, na seletiva. Um mês e meio antes eu tive um estiramento de grau dois no peitoral fazendo musculação. Eu estava treinando para outras provas, mas, por conta disso acabei fazendo mais perna, e o que dava para fazer era nadar os 50 metros”, contou o veterano de Ribeirão Preto, mas que representa a equipe santista atualmente.

“Só não nadei os 100 metros borboleta porque tive a lesão. Estava treinando para os 100 metros também. No meio do caminho eu tive que focar só nos 50 metros”, continuou o atleta de 1,91m.

Naquele momento os 37 anos pesaram a favor de Nicholas, que usou toda sua experiência, inclusive acadêmica, para não deixar que nenhuma frustração atrapalhasse sua concentração. E a prova da força psicológica do nadador foi comprovada quando ele caiu na água e marcou o melhor tempo do mundo em 2017. Consequentemente, convenceu os dirigentes brasileiros a lhe permitirem nadar o Mundial na Hungria.

“Eu sou fisioterapeuta, sabia o tempo que demoraria para a recuperação, o processo de remodelação pode demorar até dois anos, então, ainda não está zerado. Não exagerei para não correr um risco maior. Não era simples. Felizmente eu consegui nadar o Maria Lenk, fiz 22’61, e também felizmente eles me convocaram para esse Mundial, porque para prova de 50 metros estilo eles não me convocariam, mas, por eu ter feito o primeiro tempo do mundo, acho que eles pensaram: “vai ter que levar o cara agora’”, disse, entre risos, lembrando que sua especialidade sofre certa rejeição por não ser uma prova olímpica.

“Eles insistem em tirar essa prova dos 50 metros estilo, a parte de patrocínio não entra, mas essa competição tem prova de 50 estilo, então, por que não levar, né? Às vezes eles pensam: ‘mas os Estados Unidos fazem isso’. Poxa, vamos comparar com uma potência que tem uma renovação de atletas enorme? A gente não tem essa renovação, principalmente no feminino. Precisa de um investimento muito grande na base, porque a gente não tem isso”, cobrou.

Questionado sobre sua rotina como atleta de alto rendimento tão perto dos 40 anos, Nicholas Santos brincou e lembrou do filho, que testemunhou sua conquista em Budapeste na véspera de seu primeiro aniversário.

“Ele fez um ano lá, no dia seguinte à final, fiz questão de que ele fosse, era uma chance de ganhar o ouro, veio a prata, mas para mim valeu como se fosse ouro. 37 anos, já era para eu ter parado de nadar, veio uma prata no Mundial, que não veio de graça, para mim não é fácil”, explicou Nicholas, brincando com a nova fase fora das piscinas.

“O que mudou é que eu tenho um carinha para cuidar em casa, durmo bem menos do que eu dormia. Tenho sono o dia inteiro”, disse, sem se segurar a gargalhada. “Mas não vejo que isso tenha prejudicado meus rendimentos, não”.

O segredo

Ser o atleta mais velho a conquistar uma medalha em um Mundial e ainda ter o melhor tempo do mundo em sua especialidade dentro de um esporte em que os grandes nomes estouram logo cedo, na maioria das vezes antes dos 25 anos, é um feito tão admirável quando curioso. Nicholas Santos, o quase quarentão da natação brasileira, revelou como faz para se manter em alto nível.

“Isso é planejamento, eu tenho dificuldade em treinar oito, nove mil metros por dia. Meu treino é um pouco mais qualitativo, séries mais curtas. As sérias do pessoal mais novo são bem mais puxadas”, revelou. “Meu treino de musculação é bem intenso. Não tenho dificuldade alguma na parte física, mas quinta e sexta eu já começo a sentir um pouco mais de dificuldade na recuperação”, admitiu.

O fato de ser por vezes mais de uma década mais velho que seus concorrentes não costuma preocupar o vice-campeão mundial, que só para pra pensar na situação minutos antes de cair na água para competir.

“Às vezes eu paro para pensar. No Mundial eu olhava para o lado e pensava: ‘caramba, os caras têm 24 anos, muito mais novos que eu’. Mas quem me conhece sabe da seriedade no dia a dia. Foi natural, foi rolando, nunca parei para pensar se eu estou velho, se chegou a hora de parar”, disse, evitando programar sua aposentadoria.

“Os próximos dois anos com certeza estão no meu planejamento. O próximo mundial de piscina curta, mas daqui quatro, oito anos não dá para saber. Enquanto eu tiver competitivo, disputando medalha, não só participando de evento, vou continuar. Vai depender de como meu corpo vai reagir. Tudo vai depender disso. Tem que esperar”.

E pode parecer mentira, mas a partir dessa terça-feira, Nicholas Santos estará na piscina da UniSanta para defender a equipe da casa do Troféu José Finkel, umas das principais competições do calendário brasileiro. Com Nicholas não há sono, lesão ou falta de motivação que o faça pensar em parar.

“A partir de amanhã provavelmente vocês irão me ver com uma cara bem pior. Vou nadar os 50 e os 100 metros livre, os 50 e os 100 metros borboleta, duas vezes, porque vou nadar eliminatória e final, e mais três revezamentos. Vai ser pesado, bem desgastante”, projetou o empolgado nadador.