Tom Brady chega aos 40; veja por que ele virou um mito, dentro e fora do campo

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*Texto de Rafael Belattini e artes de Bárbara Resende, Dalton Cara e Gabriel Lucki

Considerado por muitos como o melhor jogador da história da NFL, Tom Brady completa, nesta quinta-feira, 40 anos de idade.

Thomas Edward Patrick Brady Jr., nascido em San Mateo, na Califórnia, chega à idade em que muitos esportistas já aproveitam a aposentadoria, mas o camisa 12 do New England Patriots segue preparando-se para sua 18ª temporada na liga, e não dá sinais de que ela seja a última.

A história do pequeno torcedor do San Francisco 49ers, recrutado apenas na sexta rodada do draft de 2000, e que é recordista em aparições na grande decisão do futebol americano - saindo delas com cinco anéis de campeão -, já foi contada em diversas oportunidades. 

Porém, o roteiro que seria digno daqueles filmes recheados de clichês de Hollywood tem outros detalhes. Aproveitamos o aniversário do astro para contar um pouco mais sobre a vida e a carreira do jogador. 

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  • Super Bowl ou World Series?

O ídolo de infância de Tom Brady era Joe Montana, quarterback da era de ouro dos 49ers. Apesar de sonhar em seguir os passos na NFL, o futuro astro dos Patriots quase foi parar na MLB.

Reprodução/Facebook
Tom Brady como catcher na escola
Tom Brady como catcher na escola

Aos 17 anos, ainda como estudante da Junípero Serra High School, Brady impressionou os olheiros do Montreal Expos. Jogando como catcher, ele foi recrutado na 18ª rodada do draft apenas porque sabiam que sua primeira paixão era a bola oval.  Seu potencial era muito maior.

“(Escolha) Do final da segunda (rodada), ou começo da terceira”, avaliou o antigo olheiro dos Expos, John Hughes, em entrevista ao MMQB. “Se iríamos oferecer a ele este tipo de valores, sabíamos que seria um jogador das grandes ligas no futuro”, completou. 

“Tinha muito potencial. Era um catcher canhoto de muita força na rebatida e cerebral. Ele tinha força no braço. Ele tinha tudo aquilo que lhe garantia ser projetado como um astro nas grandes ligas. Ele tinha tudo”, afirmou o ex-general manager dos Expos, Kevin Malone.

Nos dois anos que jogou beisebol, Brady tinha média de 31,1% de aproveitamento no bastão com oito home runs, 11 rebatidas duplas, e 44 corridas impulsionadas. Além disso, ao contrário do que acontece com a maioria dos catchers na escola, ele chamava o jogo.

Mas Thomas Edward Brady Sr. gastou mais de US$ 2 mil em fitas de apresentação, sonhando com o recrutamento do filho por um programa universitário vitorioso no futebol americano. Confira:


  • Ajuda psicológica e um guru

Recrutado por Michigan, Brady chegou na universidade como a sétima opção para quarterback em seu primeiro ano. Por dois anos foi reserva de Brian Griese, que comandou a equipe campeã do Rose Bowl na temporada invicta de 1997.

Reprodução/Instagram
Brady na época de jogador de Michigan
Brady na época de jogador de Michigan

Com poucas chances de jogar, Brady precisou de ajuda psicológica para lidar com as frustrações que tinha. Até mesmo uma transferência para a Califórnia foi cogitada. Então ele contou com apoio de Greg Harden, então assistente do diretor atlético da universidade. Uma vez por semana eles se encontravam para trabalhar a confiança de Brady, e também sua performance em campo. 

Desmond Howard, ganhador do Heisman Trophy e MVP do Super Bowl XXXI, e Michael Phelps, dono de 23 medalhas de ouro olímpicas, também foram aconselhados por Harden e, assim como Brady, creditam à ele a inspiração para ter vencido tantos obstáculos em suas carreiras. 

A ajuda contribuiu para que o então camisa 10 encarasse tudo de frente mesmo tendo que disputar pela posição até o último ano da carreira universitária, a qual deixou para trás com o apelido de “Comeback Kid” .

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  • Muito além da sexta rodada

Que Tom Brady foi a 199ª escolha do Draft de 2000, sendo recrutado pelos Patriots com uma escolha compensatória na sexta rodada, todo mundo já ouviu falar. Mas há muito mais a ser dito nesta história.

Boston Globe/Getty
Dick Rehbein, o responsável pelo recrutamento
Dick Rehbein, o responsável pelo recrutamento

Naquele ano os Patriots haviam sido punidos por terem “roubado” Bill Belichick dos Jets. Contratado para ser substituto de Pete Carroll em New England, Belichick tinha Drew Bledsoe, primeira escolha de 1993, como seu quarterback, mas foi convencido a escolher o franzino jogador de Michigan.

O futuro camisa 12 dos Patriots, como se sabe, não encantou ninguém no Combine, mas o então técnico de quaterbacks, Dick Rehbein, descreveu Brady para Belichick como o jogador “que mais encaixava para o sistema” da equipe.

Convencido, Belichick garantiu o início da mais vitoriosa parceria técnico/quarterback da história do esporte. Infelizmente, Rehbein faleceu oito semanas antes de Tom Brady ter a primeira chance como titular, vítima de um problema cardíaco. 

    • Vale por seis

Antes de Brady, seis quarterbacks foram selecionados no Draft de 2000: Chad Pennington (Jets), Giovanni Carmazzi (49ers), Chris Redman (Ravens), Tee Martin (Steelers),  Marc Bulger (Saints) e  Spergon Wynn (Browns).  

Quando comparados os números de Tom Brady com a soma dos seis, fica clara a barganha que os Patriots tiveram naquele recrutamento, já que a performance no Combine não impressionou ninguém. Carmazzi, que ficou com a vaga dos sonhos de Brady, por exemplo, jamais jogou uma partida oficial na NFL.

O camisa 12 tem 235 jogos como titular em New England, com 183 vitórias e 52 derrotas, enquanto a soma dos outros dá 191 jogos com um histórico de 89-102. 

Brady acumula, até agora, 61.582 jardas aéreas na temporada regular, enquanto aqueles que foram selecionados antes que ele conquistaram apenas 44.470. 456 dos passes de Tom transformaram-se em touchdowns, enquanto os seis somaram apenas 246 conexões na endzone.

Quando o assunto é playoffs a comparação é ainda mais impressionante. Enquanto Tom Brady é recordista com 34 jogos, 25 vitórias, 9.094 jardas aéreas e 63 passes para TD, os outros quarterbacks somam nove aparições, com apenas 3 vitórias, 2.362 jardas aéreas e 12 passes para TD. 

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  • Marido de Gisele

Todo fã da NFL já ouviu o termo “Marido de Gisele”, mas o relacionamento, que começou em 2006, não teve polêmicas apenas daquelas de revistas de fofoca. Por diversas vezes foi necessário citar Gisele Bundchen no noticiário esportivo.

No começo, o que incomodava o torcedor era a “Maldição de Gisele”. Os ex-namorados da modelo, Kelly Slater e Leonardo DiCaprio teriam sido “amaldiçoados” durante o relacionamento, numa espécie de “sorte no amor, azar no jogo”. 

Pois, coincidência ou não, Brady perdeu os dois primeiros Super Bowls (os únicos de sua carreira) quando já estava com Gisele, tendo incluso o doloroso da temporada de 2007, quando o título viria de forma invicta.

Em 2011, o relacionamento foi questionado quando Brady apareceu com Gisele em uma peça na Broadway enquanto os Jets garantiam a vaga para a semifinal da AFC. Os Patriots haviam atropelado os rivais na temporada regular daquele ano, mas perderiam em casa o confronto de mata-mata, e a torcida não perdoou.

No ano seguinte, a derrota no Super Bowl para os Giants veio com a polêmica crítica da brasileira: “Meu marido não pode arremessar e pegar a bola ao mesmo tempo, p...! Eu não acredito que eles deixaram a bola cair tantas vezes”.  É claro que aquilo gerou um mal-estar, mas tudo foi contornado e, anos depois, a “maldição” foi quebrada com a conquista do Super Bowl XLIX.

Contudo, Brady não deve ter ficado nada contente com a última da esposa, que afirmou que ele teria sofrido diversas concussões na carreira, enquanto os relatórios médicos nunca apontaram uma. Desta vez, o assunto parece ter sido resolvido apenas internamente.


  • O Deflategate

A final da AFC em janeiro de 2014, com a vitória por 45 a 7 sobre o Indianapolis Colts, marcaria o início de um dos momentos mais conturbados na carreira do quarterback. Quando o adversário alegou que as bolas utilizadas nos ataques dos Patriots estavam mais murchas do que o permitido pela regra, uma investigação foi iniciada e Brady era o alvo.

NY District Court
O desenho de Brady no tribunal
O desenho de Brady no tribunal

A NFL requisitou um antigo aparelho celular do jogador, que havia destruído o item ao trocá-lo por um mais moderno. Uma investigação independente constatou que era “mais provável que ele soubesse” da alteração na pressão das bolas, e o comissário Roger Goodell definiu uma suspensão por quatro jogos.

Brady foi para os tribunais e conseguiu revogar a punição em 2015, mas em novo julgamento a NFL confirmou a suspensão para 2016. O atleta tinha a oportunidade de levar o caso à Suprema Corte, mas preferiu desistir da luta, influenciado pelo estado de saúde da mãe, que luta contra um câncer.

Para a sorte dos torcedores dos Patriots, Jimmy Garoppolo e Jacoby Brissett deram conta do recado e Brady voltou com o time em 3-1, tendo tranquilidade para fazer uma de suas melhores temporadas na liga rumo ao quinto anel.

  • Estilo de vida e negócios

Tom Brady reestruturou seus contratos com os Patriots algumas vezes ao longo dos anos.  Na maioria dos casos, a ideia era abrir espaço na folha de pagamento para reforçar o time, e em 2016 a intenção foi evitar perdas pelos quatro jogos que ficaria de fora (os jogadores recebem seus salários da liga, e quando ficam fora por suspensão, não são pagos).

Mas não é apenas com a NFL que ele ganha dinheiro. O camisa 12 está longe de ser um dos mais bem pagos da Liga, mas é apontado pela revista Forbes como o 15º atleta mais bem pago do mundo, levando para casa US$ 44 milhões (R$ 137,67 milhões) em 2016.

Isso porque ele é garoto-propaganda de marcas de automóveis de luxo, relógio, sapatos, e empresa de materiais esportivos. Além disso, o estilo de vida saudável de Brady já rendeu um livro de receitas e um programa de venda de alimentos, além de uma linha de pijamas esportivos (sim).

Apesar de todo o empreendedorismo do jogador, ele ainda é a “parte pobre” do casal. Seus rendimentos na carreira são calculados em US$ 180 milhões (R$ 563,18 milhões). Já Gisele, segundo a Forbes, já acumulou US$ 380 milhões (R$ 1,18 bilhão).

  • Até quando?

Tom Brady faz 40 anos nesta quinta e diz até quando pretende jogar

Aos 40 anos, e preparando-se para sua 18ª temporada, Tom Brady não dá sinais de quando chegará ao fim seu tempo dentro dos gramados. Ele já afirmou que iria aposentar-se quando sentisse que não estava mais com condições de competir, mas os números não indicam isso.

Segundo dados da Pro Football Focus, o percentual de passes completados (considerando drops, passes desviados, entre outros fatores) vem crescendo. Nos últimos cinco anos, a NFL tem uma média de 72,8%, enquanto Brady teve 74,9% em 2012 e 2014, 72,4% em 2013, 77,7% em 2015, e um impressionante 79,5% na última temporada.

Em entrevista recente, o dono dos Patriots, Robert Kraft, revelou que Brady “estaria disposto a jogar por mais seis ou sete anos”. O pensamento vai de encontro ao que Ian Rapoport, da NFL Network, havia publicado, dizendo que a franquia o via jogando em alto nível por três ou cinco anos.

Com sua rotina regrada, indo dormir às 20 horas, e com um histórico recheado de provas de superação, é difícil apostar contra.