Ele protestou em hino americano; agora, desempregado, é ignorado por times da NFL

Rafael Belattini, do ESPN.com.br

Michael Zagaris/Getty Images Sport
Kaepernick deixou os 49ers em março e segue sem time para jogar
Kaepernick deixou os 49ers em março e segue sem time para jogar

Com a contusão de Joe Flacco, a vaga de quarterback aberta no Baltimore Ravens traz de volta a discussão ao redor de Colin Kaepernick: por que o ex-camisa 7 do San Francisco 49ers não consegue um time na NFL? 

O “milagre” protagonizado por Tom Brady no último Super Bowl, virando o jogo após estar perdendo por 28 a 3, quase foi um feito de Kaepernick, que ficou perto de reverter uma desvantagem que era de 28 a 6 no terceiro quarto na final disputada em 2013.


Anos depois, o quarterback foi apontado como o 27º melhor da posição na última temporada segundo o site especializado Pro Football Focus, e mesmo assim não consegue um a das 32 vagas de titular na liga. Isso é ainda mais polêmico quando tantos times sofrem para encontrar seu “líder do ataque”.

Em 3 de março, Colin Kaepernick optou por deixar o San Francisco 49ers. De lá para cá, 22 quarterbacks assinaram contratos no período de free agency, mesmo apresentando desempenho muito abaixo.

Nos Bears, por exemplo, Mike Glennon foi confirmado como titular após ganhar um contrato de três temporadas e US$ 45 milhões (R$ 141,94 milhões). No último ano, porém, ele só tentou 11 passes em jogos da liga, já que era reserva de Jameis Winston no Tampa Bay Buccaneers. Em seu currículo, são 18 partidas como titular, apenas 59,4% de passes completados e um rating 84,6.

Por mais que Glennon possa ser dispensado no final da temporada levando apenas US$ 16 milhões (R$ 50,42 milhões), isso é mais do que Kaepernick ganhou em seu último ano nos 49ers, quando levou, entre salário e bônus, US$ 14,3 milhões (R$ 45,06 milhões).

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Mas Glennon talvez nem seja apontado como a contratação mais questionável. Ryan Fitzpatrick, que lançou seis interceptações em apenas um jogo em 2016, assinou com os Bucs; Josh McCown, que tem 60 jogos como titular na carreira e 70 fumbles, está nos Jets;  Matt Schaub, dono do recorde de partidas seguidas com pick-six, foi para os Falcons; e até Blaine Gabbert, que perdeu a posição para Kaepernick no ano passado, está empregado, com contrato com os Cardinals.

A resposta pode estar no engajamento político e social de Colin Kaepernick.

  • Reflexos dos protestos

Antes do início da temporada passada, Kaepernick foi alvo de discussões por ter se ajoelhado na hora da execução do hino nacional norte-americano. Tratava-se de um protesto contra a violência policial sofrida por negros no país. A causa ganhou adeptos, mas muita rejeição também.

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Kaepernick (centro) ajoelhado durante hino dos EUA
Kaepernick (centro) ajoelhado durante hino dos EUA

Enquanto alguns colegas de NFL repetiam o gesto antes das partidas, muitos torcedores se revoltaram com o “desrespeito”. Uma pesquisa feita pela J.D. Power, divulgada na última quinta-feira, 26% dos fãs da NFL afirmaram que este tipo de protesto foi o grande responsável por eles terem visto menos jogos do que costumavam ver.

Os protestos afastaram mais os torcedores até mesmo que as notícias de agressões domésticas ligadas a atletas, ou o excesso de faltas e comerciais durante os jogos.

John Mara, um dos proprietários do New York Giants, afirmou em entrevista ao TheMMQB.com que recebeu ameaças de boicote de torcedores caso um jogador da franquia repetisse o gesto. “Não foi uma ou duas cartas. Foram muitas. É uma questão emocional para muita gente, mais do que qualquer outra coisa que eu já me deparei”, afirmou.

  • Na "lista negra"?

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Michael Bennett, jogador de linha defensiva do Seattle Seahawks, não tem dúvidas: “É claro que eu acho que Kaepernick foi colocado em uma ‘lista negra’”, afirmou.

“Obviamente, com todas as coisas a fazer sobre estes problemas, acho que ninguém quer política e questões raciais nos esportes”, disse Bennett. “Acho que são coisas que ninguém quer realmente conversar sobre. Por ele ter trazido isso para os esportes, acho que ele atingiu muita gente de forma errada”, completou.

A opinião é compartilhada por outros jogadores da NFL. Brandon Marshall, que defenderá os Giants em 2017, publicou mensagem em sua conta no Twitter dizendo, em abril, que era hora de Kaepernick ter um emprego.


“É hora do meu irmão Kaepernick assinar um contrato. Ele é melhor que todos os QBs que assinaram nesta free agency”, escreveu.

Mas apenas um time deu a chance de Kaepernick concorrer a uma vaga.

  • Bom demais para ser reserva

No final de maio, Kaepernick fez teste no Seattle Seahawks, brigando pela vaga de reserva de Russell Wilson. A contratação até faria sentido, já que os dois jogadores possuem estilos parecidos de jogo, sendo ameaça tanto nos passes quanto no jogo terrestre. 

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Mas quem acabou assinando contrato foi Austin Davis, que teve uma rápida passagem pelo Denver Broncos em 2016, e dono de um currículo com 10 jogos como titular, 62,4% dos passes completados para 2.548 jardas, 13 touchdowns e 12 interceptações.

A explicação oficial da franquia pela escolha? Colin Kaepernick seria “bom demais” para ser reserva.

“Ele é um titular nesta liga, e eu não posso imaginar que alguém não lhe dará uma chance de jogar”, afirmou  o técnico dos Seahawks, Pete Carroll, que afirmou ver no atleta um titular quando a franquia já tinha um.

Em 2016, Kaepernick foi titular em 11 partidas dos 49ers, completou 59,2% de seus passes para 2.241 jardas, 16 touchdowns e apenas 4 interceptações com uma equipe que venceu apenas dois jogos na temporada.