Ele foi herói de cidade devastada por furacão; agora se apoia na sua história na luta contra doença grave

Rafael Belattini, do ESPN.com.br

Stacy Revere/Getty Images Sport
Steve Gleason foi homenageado pelos Saints pouco após o diagnóstico
Steve Gleason foi homenageado pelos Saints pouco após o diagnóstico

Nascido em Spokane, no estado de Washington, Steve Gleason é identificado como poucos com Nova Orleans, na Luisiana. A característica que une o ex-jogador da NFL com a cidade é a superação de desafios que parecem instransponíveis.

Gleason não foi recrutado no Draft de 2000 e, depois de uma rápida passagem por Indianápolis, viveu seus sete anos de liga defendendo a equipe do New Orleans Saints. Lá, sentiu de perto o drama de uma população deixada à própria sorte em um cenário de devastação após a passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005.


Um ano depois, em setembro de 2006, Gleason fez toda a cidade festejar pela primeira vez no estádio que serviu como casa para diversos desabrigados pelas inundações. 

“Muitas pessoas dizem que os Saints de 2006 deram esperança para as pessoas de Nova Orleans. Eu vejo isso de forma diferente. Quando eu bloqueei aquele punt no Monday Night com o mundo assistindo, eu fui sustentado por um estádio e uma cidade cheia de idealistas absurdos, cabeças duras, inflexíveis e apaixonados. Nós os chamamos de ‘Who Dats’”, revelou o ex-jogador, em entrevista ao ESPN.com.br.

“Esta cidade gera e atrai pessoas únicas. Pessoas simples que são honestas o suficiente para reconhecer suas falhas. Pessoas inovadoras que veem oportunidade onde outros veem o caos. Pessoas humildes. Pessoas transparentes que irão compartilhar com você, quer você goste ou não. Pessoas persistente que reconstroem quando a cidade ou suas vidas se desmoronam. Pessoas ferozes que protegem o que amam, e amam muito”, completou.

NFL: Como a passagem do furacão Katrina mudou a história do New Orleans Saints

“Idealistas” é a forma que Gleason se refere aos cidadãos de Nova Orleans, e também a si mesmo. Afinal, o camisa 37 dos Saints teria que travar sua própria batalha após encerrar a carreira, no fim do ano em que começou com o histórico bloqueio de punt.

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Gleason passou toda a carreira nos Saints
Gleason passou toda a carreira nos Saints

“Em 2011 eu fui diagnosticado com um ‘furacão’ de uma doença – esclerose lateral amiotrófica (ELA). Terminal. Morte entre dois e cinco anos. Assim como os diques desta cidade em 2005, meu corpo invencível havia falhado comigo. Mas como os moradores de uma cidade construída abaixo do nível do mar, eu decidi ser um idealista”, afirmou.

“Nós simplesmente temos que ser firmes, idealistas maníacos. Quando o mundo vê tragédia, idealistas veem oportunidades. Quando o mundo desiste, idealistas reinventam. Idealismo não é para quem tem coração ou mente fraca. ELA e a água rodeando Nova Orleans destruíram nossos corações mil vezes, mas, de alguma forma, como as bananeiras locais, nossos corações se reconstroem todas as vezes”, continuou.

“Reconstruir. Renascer. Repetir”,  pontua Steve Gleason, falando tanto sobre si quanto sobre a cidade que tão bem representa.

  • Lutando não apenas por si

Apesar do diagnostico cruel, Steve não abandonou seus planos. Junto com sua esposa, Michel Varisco, manteve o plano de constituir uma família, e a gravidez foi confirmada poucos meses depois. Além disso, não se abateu, ou correu atrás de promessas de curas milagrosas. Ele decidiu viver.

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Steve e Michel
Steve e Michel

Passado um tempo, a família Gleason decidiu que a luta pela vida não deveria ser apenas deles. Foi criada a fundação “Team Gleason” cujo objetivo é justamente ajudar outras pessoas acometidas pela doença.

“Nossa organização é única pois seu foco principal é ajudar as pessoas a viverem com a doença, através da tecnologia, equipamento, experiências que mudam a vidas e também através da conscientização”, disse a esposa de Steve, Michel. 

“Existem poucos grupos que se concentram quase que exclusivamente nessas pessoas com ELA, por isso temos tido a sorte de poder contar com parcerias incríveis, como da Microsoft. Através desta relação, e de outras, ajudamos a inovar e desenvolver novos e mais poderosos dispositivos. Isto é extremamente efetivo em devolver às pessoas um pouco de sua independência”, explicou.

Uma mudança nas leis dos EUA que proviam ajuda àqueles que sofriam com a ELA a terem acesso a dispositivos tecnológicos que possibilitavam a comunicação. Então foi a vez de aproveitar seu reconhecimento mundial para lutar em outro campo.

“Nunca planejamos estar envolvidos na política, mas devido à mudança em nossas leis de assistência médica, foi necessário desafiar essas regras para que as pessoas pudessem ter acesso total aos dispositivos de comunicação. Por fim, a “Lei Steve Gleason” foi aprovada, garantindo a chance de todos em ter acesso aos dispositivos necessários”, contou Michel.


  • Um testemunho para o mundo

Com a notícia de que seria pai, Steve quis deixar para o filho uma mensagem, já que não sabia qual seria seu estado de saúde, ou se estaria vivo, quando a criança estivesse com uma idade para entender as coisas. Aquilo que seria pessoal, acabou ganhando mais uma vez o mundo. 

Divulgação
Filme está em cartaz no Brasil
Filme está em cartaz no Brasil

“Steve e Michel começaram a filmar suas vidas para este projeto quase que imediatamente após o diagnóstico. O que começou como uma série de vídeo diários e filmes familiares para o filho que viria a nascer, tornou-se um projeto grande, com uma enorme mensagem”, disse Clay Tweel, diretor do documentário A Luta de Steve (Gleason, 2016), que chegou aos cinemas brasileiros na última semana. 

Foram mais de 1.200 horas de material coletado, e a produção acompanha diversos, desde os primeiros dias da doença. A missão do diretor não foi fácil, já que se tratava de um assunto sensível, e de muito da intimidade dos envolvidos. Mas a tarefa passada por Steve foi bem clara. 

‘Eles queriam que o documentário fosse tão cru e real quanto eles, então não me fizeram tirar praticamente nada do que eu queria por. Steve queria que o mundo testemunhasse o real cotidiano de sua doença, da forma como realmente ela é. Isso significava mostrar o bom, o ruim, e o feio de uma vez”, contou Tweel.