Diabo Loiro, Disco Voador? Os 80 anos do bicampeão mundial Wlamir Marques, uma lenda do basquete brasileiro

Guilherme Nagamine e Rafael Valente, para o ESPN.com.br
Reprodução ESPN
Wlamir Marques foi homenageado pelo Corinthians no ano passado
Wlamir Marques foi homenageado pelo Corinthians no ano passado

"A morte não chega com a velhice. A morte chega com o esquecimento".

Há frase acima foi dita há quase 15 anos por Wlamir Marques durante a participação dele no programa "Bola da Vez" dos canais ESPN. Bicampeão mundial com a seleção brasileira, ele fez a citação ao afirmar que sentia-se vivo justamente por ser lembrado pela emissora. Um gesto simples, mas que representa com muita fidelidade esta lenda do esporte nacional, que completa exatos 80 anos neste domingo.


Wlamir nasceu em São Vicente, cidade do litoral paulista. Dono de 1,85 m, ele começou a praticar basquete quando tinha dez anos. Foram três décadas dedicadas à prática do esporte e quase uma vida à serviço da modalidade, como técnico e comentarista.

É até hoje considerado um dos melhores alas-armadores do basquete mundial, eleito pela revista ESPN o nono maior atleta brasileiro de todos os tempos entre 50 nomes, em publicação de 2010.  Jogou ao lado das feras Amaury, Rosa Branca, Ubiratan...

Foi imortalizado no basquete não apenas pela longa lista de títulos, mas pela camisa 5 e pelos apelidos de Diabo Loiro e Disco Voador.

"Eu saltava muito porque fazia atletismo. Então, saltava mais de seis metros em extensão. Eu dava uma passada na cabeça do garrafão e ia até a sexta sem drible. Diziam que eu voava na quadra", explicou certa vez para a ESPN sobre os apelidos.

Pelé do basquete brasileiro, Diabo Loiro e o ET: Conheça a história de Wlamir Marques e seu grande amor

  • Wlamir e os alvinegros

A carreira de Wlamir se iniciou no Clube de Regatas Tumiaru, de São Vicente. Aos 17, ele foi contratado pelo XV de Piracicaba. Aos 25 anos, foi para o Corinthians, onde ficou por dez anos. Encerrou a carreira jogando pelo Tênis Clubes de Campinas, em 1973.


Foi uma trajetória muito vitoriosa: foram sete títulos do Campeonato Paulista (cinco deles pelo Corinthians), três títulos brasileiros e dois sul-americanos pelo clube alvinegro. Ainda ganhou seis edições dos Jogos Abertos do Interior pela seleção de Piracicaba.

"Não existiam muitos times e não havia essa variedade de competições entre clubes que há hoje. Sempre fui contratado por times de ponta do basquete brasileiro e não encontrei grandes dificuldades. Só joguei em alvinegros", relembrou certa vez para o site da CBB.

Ídolo do basquete, Wlamir Marques vence o tempo e se emociona ao 'ganhar' ginásio

A fase no Corinthians foi certamente a melhor de Wlamir. Um dos jogos mais marcantes ocorreu em 5 de julho de 1965 diante do Real Madrid. Foi um amistoso, no ginásio do Parque São Jorge, contra o então bicampeão europeu. E o time paulista venceu por 118 a 109, numa época em que não havia ainda arremesso de três pontos.

Wlamir considera esse jogo o melhor da carreira por todo o contexto. Ele quase ficou fora por conta de uma crise alérgica. O médico do clube foi até a residência do jogador e aplicou uma injeção. O inchaço diminuiu e ele pôde estar em quadra.

"Jamais ficaria fora. Foi um maravilhoso espetáculo para uma noite chuvosa e para a enorme torcida corintiana que compareceu naquele ginásio. Jogo de muita velocidade, muito contra-ataque, com as duas equipes apresentando para a época um poder ofensivo acima dos padrões normais. Jogo muito bonito e muito equilibrado”, relembrou em seu blog na ESPN no aniversário de 50 anos do jogo.

GazetaPress
Wlamir (primeiro à esquerda) com o time do Corinthians, em 1969
Wlamir (primeiro à esquerda) com o time do Corinthians, em 1969

"Quem me conhece mais a fundo, sabe que não vivo da autopromoção. Detesto isso. Mas não posso ignorar que esse foi o melhor jogo da minha carreira esportiva. Fiz 30 pontos no primeiro tempo e 21 no segundo. Diziam que caí de produção no segundo tempo. Nessa hora eu dava apenas uma acanhada risada. Afinal, responder o quê?", completou.

A pontuação foi tão alta que confundiu até os jornalistas. A "Folha de S.Paulo" conseguiu contabilizar "apenas" 40 pontos para Wlamir.

Aquele jogo foi até mais marcante para ele do que a disputa do Mundial de Clubes no ano seguinte, disputada em Madri, na Espanha. O Corinthians chegou à decisão após eliminar o Chicago Jamaco Saints, dos Estados Unidos, por 69 a 62, mas perdeu a inédita da taça para o Varese, da Itália, por 66 a 59. Em 1970, ele voltou a participar da competição, mas a equipe alvinegra terminou na terceira colocação.

“Foram dez anos que estive no Corinthians. Uma dedicação exclusiva, uma dedicação fantástica. Eu sempre digo isso. Para você saber realmente o que é o Corinthians, não basta você torcer. Você tem de vestir a camisa e defender o clube. Aí você vai chegar a conclusão que seu sangue não é vermelho. Ele é branco e preto.”

Arquivo Corinthians
Wlamir recebe troféu sob os olhares do presidente Wadih Helu
Wlamir recebe troféu sob os olhares do presidente Wadih Helu
  • Geração de ouro na seleção

 A trajetória na seleção brasileira também foi histórica. 

Wlamir Marques foi convocado pela primeira vez com apenas 16 anos, quando estava no XV de Piracicaba, e fez parte da geração de ouro, isto é, aquela responsável pelas maiores glórias até hoje da equipe nacional. Eram nomes como Algodão, Amaury, Edson Bispo, Waldemar, Rosa Branca, Ubiratan, Mosquito, Sucar...


Os títulos foram obtidos sob a batuta de Kanela. Assim, Wlamir ostenta dois mundiais (1959 e 1963) e dois vices (1954 e 1970), uma prata no Pan-Americano (1963) e dois bronzes olímpicos (1960 e 1964). Ainda ganhou quatro taças do Sul-Americano.

"O grande trabalho técnico era na seleção brasileira. A estrutura era melhor do que nos clubes. Os treinamentos do técnico Kanela duravam de três a quatro meses. Ele era muito rigoroso, odiava atrasos. Isso deu responsabilidade e desempenho excepcional à seleção brasileira. Ele respeitava muito seus jogadores, mas, às vezes, era muito radical", relembrou Wlamir em entrevista ao site da CBB, em 2003. 

GazetaPress
Wlamir e sua sala de troféus em 1975
Wlamir e sua sala de troféus em 1975

"Em 1959, estava com a seleção em Volta Redonda e o meu filho estava para nascer. Pedi uma folga ao Kanela, mas ele não queria que eu abandonasse os treinos de preparação para o Mundial. Então, pulei o muro de noite, peguei um ônibus e fui para Piracicaba ver meu filho. Quando o Kanela descobriu, ameaçou me cortar, mas depois ficou tudo bem. Fui para o Mundial e fomos campeões", prosseguiu - história que está em seu blog.

Wlamir já havia participado do Mundial de 1954, quando tinha apenas 17 anos. Na edição seguinte, no Chile, participou da histórica conquista. A seleção enfrentou as seleções do Canadá, União Soviética e México na fase de classificação. Depois teve pela frente Formosa, Bulgária, novamente União Soviética, Porto Rico, Estados Unidos e Chile na fase final, vencendo cinco vezes e perdendo apenas uma vez.


Em 1963, no Brasil, novamente foi campeão. A equipe estreou apenas na fase final desafiando Porto Rico, Itália, Iugoslávia, França, União Soviética e Estados Unidos. E fez até mais bonito. Venceu todos os jogos e Wlamir foi eleito o melhor jogador .

"O favoritismo era dividido entre o Brasil, EUA e a União Soviética. Dessa vez não deixamos escapar a vitória. Sem dúvida nenhuma, foi a maior conquista do basquete masculino do Brasil.  Eu era o capitão da seleção e a emoção sentida ao levantar aquele troféu é inimaginável, não sou mais capaz de conta-la. Não existem palavras que possam exprimir emoções, basta-nos senti-las em toda a sua plenitude."

GazetaPress
Wlamir com a família e a esposa Cecília, em 1975
Wlamir com a família e a esposa Cecília, em 1975
  • Wlamir, treinador

Wlamir Marques começou a ser técnico antes mesmo de encerrar a carreira como jogador.  Comandava equipes femininas e isso chegou até mesmo a atrapalhar seus planos na seleção brasileira, como relembrou à CBB em 2003.

"Fui convocado para o Mundial de 1967, no Uruguai, mas, nessa época, eu era técnico do time feminino do XV de Piracicaba. Eu e o Kanela conseguimos dar um jeito de encaixar os dois treinamentos e tudo estava indo bem. Às vésperas do Mundial, ele exigiu dedicação exclusiva. Num mesmo dia, eu tinha um jogo amistoso da seleção e um jogo do Campeonato Paulista. Faltei o amistoso e, por causa disso, o Kanela me cortou. O Brasil foi terceiro lugar nesse Mundial. Logo depois desse episódio, o meu time, o Corinthians, jogou contra os Estados Unidos e fiz mais de quarenta pontos", relembrou.

Como treinador, ele levou o Corinthians ao bicampeonato do Paulista feminino em 1963 e 1964 e o XV de Piracicaba à taça em 1968.

GazetaPress
Wlamir conversa com as crianças do Corinthians, em 1977
Wlamir conversa com as crianças do Corinthians, em 1977

Ao encerrar de fato a carreira como jogador, também virou técnico de equipes masculinas e aumentou a própria galeria de troféus. Ganhou um Paulista pelo Palmeiras, em 1975. Foi campeão dos Jogos Regionais com as meninas do São Caetano, em 1982, e com os rapazes do Cerquilho, em 1987 e 1988. Ainda ganhou três Estaduais mirim. Um pelo Hebraica, com a equipe feminina, e dois com o time masculino corintiano.

Nos anos 80 deu início a carreira como comentarista. Em 1982, trabalhou na Rede Globo durante a exibição do Campeonato Paulista. Dois anos depois foi para a extinta Rede Manchete, onde ficou mais de uma década e participou da cobertura de quatro olimpíadas (1984, 1988, 1992 e 1996). Em 2002, veio para a ESPN, onde até ganhou um blog - para o qual voltou a escrever neste ano - tratando de vários temas relacionados ao basquete.

Wlamir tem ainda em seu currículo a formação em Educação Física e foi durante muitos anos professor de basquete.

GazetaPress
Wlamir orienta time mirim do Corinthians
Wlamir orienta time mirim do Corinthians
  • Homenagens

Voltando ao início deste texto, Wlamir Marques sempre agradeceu as homenagens que recebe em vida. 

Segundo ele, "quando é homenageado em vida, ninguém precisa chorar por você, você mesmo chora". Mas, infelizmente, pode-se afirmar que ele recebeu menos do que merece.

A primeira vez que batizou um ginásio foi em 19 de dezembro e 2015, quando o Clube de Regatas Tumiaru, em São Vicente, promoveu essa honraria. O evento foi acompanhado de perto pela ESPN e emocionou bastante o Diabo Loiro.

“Essa é uma emoção totalmente diferente na minha vida. É a primeira vez que recebo um espaço com o meu nome. E foi no meu clube de origem. Quando criança, pulava o muro e já caía dentro da quadra. Serei eternamente grato ao clube por esse gesto de hoje”, disse.

Wlamir Marques é homenageado pelo Corinthians e se emociona com ginásio com seu nome

Demorou quase um ano para receber homenagem igual do Corinthians, algo que esperou toda a vida. Foi em 22 de outubro de 2016. O ginásio do Parque São Jorge tornou-se Ginásio Poliesportivo Wlamir Marques e novamente emocionou nosso herói.

"Ali (no ginásio do Corinthians) pude sentir as maiores emoções da minha vida, além de poder vestir aquela camiseta de número 5 com muito orgulho e amor. Não foram poucas as homenagens que recebi em minha vida, todas me trazem eternas lembranças, mas essa traz um passado de glórias e de sentimentos arraigados por uma nação alvinegra, sempre presente em meu coração", disse Wlamir na época.

Aos 80 anos, Wlamir Marques merece muito mais homenagens por tamanha dedicação ao basquete e honra as cores do Brasil. Parabéns, Diabo Loiro!