Hollywood, cultura pop, ostentação e fama: 'courtside', o tapete vermelho da NBA colado à quadra

Justin Tinsley, para o The Undefeated*

Quando a NBA não é basquete... é glamour

 

De Rihanna a Jay Z, de Beyoncé a Drake:
o tapete vermelho está ao lado da quadra, e com os pés nela.

 

“RIHANNA ACABOU DE PASSAR POR MIM", gritou Jeff Van Gundy no primeiro quarto do jogo 1 das Finais da NBA de 2017. Ele perdeu completamente a enterrada que LeBron James tinha acabado de dar na cara de JaVale McGee. "Você está brincando comigo?!".

Os comentaristas Mike Breen e Mark Jackson repreenderam seu colega de longa data, mas o breve momento de distração de Van Gundy tinha seus motivos - ela é uma das maiores estrelas pop e uma das pessoas bonitas do mundo. Mas não era apenas Rihanna sentada no courtside da Oracle Arena, em East Oakland, Califórnia. Talvez seja o efeito da trilogia, mas testemunhamos as Finais da NBA mais recheadas de estrelas. Além de Rihanna, Jay Z, Kevin Hart, Marshawn Lynch, Omari Hardwick e Bay Area Too $ hort, Raphael Saadiq e E-40, todos estavam presentes - tanto colados à quadra como sentados algumas fileiras atrás.

No entanto, foi Rihanna, a poucos lugares de distância de Jay Z, quem ganhou as manchetes mundiais graças a seu “contato visual” com Kevin Durant. A vencedora do Grammy e o MVP da NBA de 2014 “trocaram olhares” em mais de uma ocasião, enquanto ela usava sua voz multimilionária para castigar o craque dos Warriors. Mas foi Rihanna quem acabou castigada. KD anotou 38 pontos na vitória de jogo 1, com direito a encarada na superstar.

 

 

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O olhar matador de Rihanna para Kevin Durant no jogo 1 das Finais da NBA
O olhar matador de Rihanna para Kevin Durant no jogo 1 das Finais da NBA

 

CELEBRIDADES E EVENTOS ESPORTIVOS, para citar Tracy "Hustle Man" Morgan, "são como medula espinhal e assentos de carro".

Como as lutas de Muhammad Ali foram uma espécie de Met Galas improvisadas para atores, atrizes, músicos e suas roupas espalhafatosas, em 2015 o confronto entre Floyd Mayweather e Manny Pacquiao reuniu Jay Z, Beyoncé, Don Cheadle, Jake Gyllenhaal, Robert De Niro, Denzel Washington, Antoine Fuqua e mais personalidades no MGM Grand em Las Vegas.

Mas o que torna a experiência na NBA é estar sentado bem ao lado do jogo. Courtside é mais íntimo do que ringside: os pés estão literalmente na quadra. Jay Z refere-se a si mesmo em "Empire State of Mind", hit mundial em 2009:

“Sitting courtside
Knicks and Nets give me high fives
N—-, I be Spiked out, I can trip a referee”

Em tradução livre:

“Sentado ao lado da quadra
Knicks e Nets me dão high fives
N***, eu posso cravar, eu posso derrubar o juiz”

Está longe de ser a primeira homenagem de Shawn Carter à NBA. Na letra de "Welcome To New York City”, de 2002, em parceria com Cam'ron, Jay Z diz:

“I ain’t hard to find
You can catch me front and center
At the Knick game, big chain in all my splendor
Next to Spike if you pan left to right
I own Madison Square

Em tradução livre:

“Não sou difícil de ser encontrado
Você pode me achar na frente, no centro
No jogo dos Knicks, uma grande corrente em todo o meu esplendor
Próximo ao Spike se você olhar da esquerda para a direita
O Madison Square é meu

 

 

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Jay Z com o pé na quadra no jogo 1 das Finais da NBA de 2017
Jay Z com o pé na quadra no jogo 1 das Finais da NBA de 2017

 

FAZ SENTIDO QUE AMBOS OS MOMENTOS LÍRICOS tenham relação com o fã dos Knicks mais famoso do mundo: o diretor Spike Lee. Ele é uma espécie de precursor de Rihanna – e outros novos famosos – ao lado da quadra, ele é a estrela mais conhecida ali, colada no jogo.

Sua presença, inclusive, criou um dos momentos mais inesquecíveis da história. No jogo 5 das finais da Conferência Leste de 1994 entre Knicks e Pacers, Reggie Miller teve um quarto período insano, com 25 pontos, marcados. A cada cesta, os olhares – e alguns palavrões – do craque de Indiana eram lançados na direção de Spike Lee. O momento tenso é imortal, icônico nos playoffs da NBA.

Para os Lakers, a cultura do courtside foi inaugurada pela lendária atriz Doris Day. Estrela máxima do cinema no fim dos anos 50 e início dos 60, ela abriu a porta para os famosos no Los Angeles Sports Arena. Astros como Dean Martin, Jack Lemmon e Walter Matthau seguiram seus passos para acompanhar estrelas como Jerry West, o homem que se tornaria o logotipo da NBA, e Elgin Baylor liderar os Lakers em várias aparições nas Finais. A mudança de Minneapolis para Los Angeles tornou os Lakers o primeiro esquadrão da Costa Oeste da NBA em 1960 - um movimento diretamente influenciado pelo dono da franquia, Bob Shot, percebendo a mina de ouro financeira que os Dodgers encontraram em Los Angeles após sua mudança de Brooklyn, Nova York, dois anos antes.

A aparição das celebridades no courtside explodiu na era "Showtime" dos Lakers, liderados por Magic Johnson. Ele personificou a década de 1980 de Hollywood - o jogo chamativo, a boa aparência e, claro, o sorriso de 2 mil watts. O comediante Arsenio Hall era uma das figurinhas carimbadas no Forum, em Inglewood, casa do time até 1999. Dionne Warwick, Michael J. Fox, Ted Danson, Jimmy Goldstein e, o mais famoso de todos, Jack Nicholson, sempre, sempre, sempre estavam por lá. Eram os reis e as rainhas daquela era de show business.

"Se você é uma pessoa de nível A, e sabemos que os fãs vão dar bananas quando a sua imagem aparecer no placar, então há um valor em ter você ali ", disse Barry Watkins. Ele é vice-presidente executivo e diretor de comunicação da Madison Square Garden Co.. Ele é o “cara” quando o assunto é courtside. "É uma grande parte da marca. Ganhe ou perca, é uma das razões pelas quais as pessoas vêm para os jogos”. Famosos também querem se divertir. Além disso, basquete e Hollywood foram feitos um para o outro talento, egos, competição, drama, controvérsia e animosidades, tudo isso brincando sob as luzes brilhantes.

 

 

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Chris Rock, E40 e Snoop Dog com o pé na quadra no jogo 5, que deu o título aos Warriors
Chris Rock, E40 e Snoop Dog com o pé na quadra no jogo 5, que deu o título aos Warriors

 

DE ACORDO COM SHAWN "PECAS" COSTNER, vice-presidente de relações de jogadores no Roc Nation Sports, o braço esportivo da Roc Nation, de Jay Z, o charme contínuo do courtside tem em grande parte a ver com a popularidade e a influência da cultura do hip-hop. "A coisa mais inovadora que você pode fazer em um jogo de basquete - além de jogar, claro - é sentar ali", disse, em seu escritório em Nova York.

Isso não se deve apenas ao glamour e à bravura associados ao rap. Pecas acredita que, hoje, courtside é muito sobre as dificuldades das jornadas pessoas associadas às maiores estrelas da música. Ele chegou à Roc Nation Sports em 2014, após 18 anos no negócio da música, principalmente como vice-presidente executivo da Def Jam Recordings. Nascido no Bronx, em Nova York. cresceu com Big Pun, Lord Tariq e Jennifer Lopez, passou por V2, Elektra e Arista Records antes de se juntar à Def Jam em 2005. "Quando éramos crianças”, ele disse "e costumávamos assistir aos Knicks x Bulls no dia de Natal, sentávamos na seção 300. Você precisava trazer seus binóculos para assistir. Você sempre quis ver quem era um ou dois garotos negros sentados courtside por que, naquela época, eram apenas um ou dois."

Embora não seja um frequentador regular da beira da quadra, Pecas tem suas memórias. Ele e seu colega de longa data, Mike Kyser, presidente de black music na Atlantic Records, sentaram-se courtside para o Jogo dos Calouros, Torneio de 3 Pontos e de Enterradas no All-Star Weekend de 2012, em Orlando, na Flórida.

Pecas normalmente daria seus ingressos para artistas da cidade para o All-Star Game de domingo, mas o destino ajudou, nem tantos talentos foram naquele ano, e ele e Kyser ficaram com seus courtsides para o grande momento. “Você pensa: PQP!”, disse, e o volume de voz aumenta conforme a memória fica mais latente. “Estou na beira da quadra em um All-Star Game da NBA? Você deve ter certeza que sua roupa está certa, vai saber. E também usar os tênis corretos.”

O jogo, em si, foi um dos mais divertidos dos últimos anos, com uma disputa insana entre LeBron James e Kevin Durant pelo título de cestinha – qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Pecas e seus amigos eternizaram suas memórias nas mídias sociais com hashtags como #OnTheWood e #WoodyHarrelson, um trocadilho com a palavra “wood”, “madeira”, material usado nos pisos das quadras antigamente. No escritório de Pecas, é possível ver, emoldurada na parede, uma foto dele no “New York Daily News”. Ele está assistindo Durant – hoje cliente da Roc Nation – voar para uma enterrada, enquanto LeBron, Kobe Bryant, Carmelo Anthony e Kevin Love, assim como Pecas, acompanham o lance com o olhar.

Pecas disse que é difícil descrever o sentimento de estar no courtside, mas arrisca: “Sentar ali é como voar em um jatinho privado pela primeira vez”, ele diz. “Você nunca mais quer voltar.”

 

 

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O cantor Sean 'P. Diddy' Combs a centímetros da quadra no jogo 5 das Finais da NBA entre Warriors e Cavs
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O cantor Usher antes de achar o seu lugar colado à quadra antes do jogo 3 das Finais da NBA
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O ator Chris Rock no jogo 5 das Finais da NBA entre Warriors e Cavaliers. Courtside, claro!
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O ator Kevin Hart (3º, da esquerda para a direita) durante as Finais da NBA em 2017
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Jay Z e Kevin Hart se divertem no jogo 1 das Finais da NBA em 2017
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Rihanna à beira da quadra na vitória dos Warriors sobre os Cavaliers no jogo 1 da Final da NBA em 2017
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Nunca duvide da lealdade de Spike Lee aos Knicks: em janeiro de 2013, o diretor foi até Londres para ver o jogo contra o Detroit Pistons
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O gesto de Chris Rock tem um destinatário: Will Smith, no jogo 5 das semifinais da Conferência Leste entre Celtics e 76ers em 2012
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Sean 'Diddy' Combs e Snoop Dogg: lado a lado no jogo 6 das Finais da NBA em 2010 entre Celtics e Lakers
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Wanda Durant, a mãe do astro, e a estrela da NFL, Marshawn Lynch, na torcida pelos Warriors no jogo 1 das Finais em 2017. A torcida deu certo.
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*Justin Tinsley é um escritor de cultura e esportes para The Undefeated, site parceiro da ESPN. Tradução, adaptação e edição de Ricardo Zanei. O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em "NBA glamour is all about courtside".