Do sonho ao céu: Chapecoense e o destino impensável

 

 

 

Há sete meses, a Chapecoense embarcou para o jogo de sua vida. Em vez disso, seu maior momento se transformou em uma tragédia que ninguém jamais poderá esquecer.

Por Sam Borden*

 
 

 


 
 

OS BOLSOS DE CHIQUINHO estão cheios de água da chuva. A água escorre por seus ombros. E chega até seus sapatos. A chuva é tão barulhenta que ele mal consegue ouvir a música. É tão forte que ele não consegue ver os caixões.

Chiquinho tenta se concentrar. Este é o seu trabalho. Ele é jardineiro. Toma conta da grama e do solo. E do campo todo. O estádio é a casa dele. No clube todos são seus amigos.

Danilo, um dos goleiros, gostava de brincar com Chiquinho por causa de um remendo mal feito perto da linha de fundo. Apesar de toda a umidade e do calor do sol brasileiro, Chiquinho não conseguia fazer a grama crescer ali. “Cadê a grama?” Danilo fazia essa pergunta com um sorriso maroto e o rosto rígido de Chiquinho se enrugava ainda mais.

Um dos integrantes da comissão técnica, Anderson Paixão, sempre perguntava a Chiquinho sobre o cachorro vira-lata que ele encontrou do lado de fora do estádio há alguns anos. O cachorro estava machucado e chorava – um garoto da vizinhança disse que o cão havia sido atropelado, e Chiquinho resolveu adotar o animal junto com outros funcionários. Deram comida e compraram remédios para ele. Limparam sua barriga, lavaram o pelo, compraram uma coleira e construíram uma casinha no galpão. Chamaram o cachorro de Pitico.

Antes dos treinos, Paixão costumava fazer carinho e brincar com Pitico, jogando bolas para que ele fosse buscar. Às vezes não dava tão certo, porque Pitico estava mais interessado em correr atrás dos passarinhos que voavam bem próximo ao gramado. Pitico e Paixão ficavam brincando, e Chiquinho observava tudo de longe. Depois tirava fotos com seu celular, para poder ficar vendo durante as longas viagens de ônibus na volta para casa no fim do dia. Chiquinho costumava tirar fotos também dos jogadores antes de cada jogo.

Mas, agora, Pitico está desaparecido. E Paixão, amigo de Chiquinho, está em um caixão, assim como Danilo. A água que caiu na cabeça de Chiquinho a tarde toda agora está transformando o gramado em uma banheira. Grandes poças estão se formando, e a água está por todos os lados. O jardineiro Chiquinho está assustado.

 


Chiquinho, o jardineiro faz-tudo da Chapecoense na Arena Condá - Foto: E:60/ESPN

 

 


 
 

Milhares de pessoas estão assistindo aos soldados transportarem um caixão após o outro. Caixões pesados. E se um deles escorregar carregando os caixões de Danilo ou de Anderson Paixão? O caixão vai ficar coberto de lama?

Chiquinho não pode deixar que isso aconteça. Há 50 caixões aqui hoje. Cinquenta. E esse é o campo de Chiquinho. Ele mesmo colocou as coroas de flores e as bandeirinhas amarradas no alambrado. Chiquinho não entende nada de flores, cores ou bandeirinhas, mas ele queria enfeitar o estádio. Queria um velório digno. Ele sabe que os caixões têm que ficar secos. Por isso ele tem que consertar o alagamento.

Enquanto o cortejo segue, ele corre para o fundo do estádio. Alguma coisa está entupida. É provável que seja um cano de drenagem novamente. Ele se inclina e entra no porão de concreto debaixo das arquibancadas, onde todos os tubos ficam emaranhados. Não há nenhum ruído: a drenagem não está funcionando.

Chiquinho bate em um dos canos, tentando descobrir qual válvula está parada. Vai batendo de um em um, testando todos os possíveis candidatos. Mas não consegue achar o problema. Ele decide bater nos canos com a mão. Suas bochechas estão molhadas.

Ele não tem escolha. Chiquinho pega uma serra e começa a agir. Ele vai cortando um cano atrás do outro, destruindo o sistema de drenagem. Mais um cano cortado. E outro. E outro. A serra se move em todas as direções.

Finalmente, Chiquinho encontra o cano que procurava. A água suja espirra para todos os lados. Sua calça e sua camisa estão ensopadas. Chiquinho sai do porão e volta ao campo. A poça no gramado começa a desaparecer. Ele respira, aliviado.

Agora ele se apruma e fica de pé, ainda segurando a serra nas mãos. Ele observa enquanto o restante dos caixões é levado para dentro. Todas as pessoas no estádio observam também. Alguns observam os militares. Outros observam as viúvas, mães ou pais que choram e se abraçam vestindo capas de plástico. Alguns olham as crianças, que correm e brincam e podem ou não estar entendendo por que toda uma cidade do interior do Brasil se reuniu em um estádio de futebol para chorar debaixo da chuva.

Chiquinho só fica de olho nos pés. Não dá para evitar. Ele está rezando para que ninguém escorregue.

 
 

 

 

 

 


 
 

ESTAMOS EM 23 DE NOVEMBRO DE 2016, 10 dias antes da tragédia. Faz calor e o clima é seco. Quase não há vento. A luz do sol atravessa o vitral da Catedral Santo Antônio, que fica no alto de um dos morros. A chuva parece muito distante.

À medida que vai chegando o fim de tarde, o povo de Chapecó enche as ruas da cidade de verde e branco. Os ambulantes preparam cartazes para vender água e cerveja. Os torcedores estacionam seus carros e ficam sentados nos porta-malas. Situada no oeste catarinense, esta pequena cidade conhecida por sua pecuária e suas fazendas está se preparando para o jogo de futebol mais importante de sua história.

Dentro do estádio, Chiquinho constantemente rega a grama, debaixo de temperaturas que chegam a 32 graus Celsius. Ali perto, no Hotel Bertaso, os jogadores da Chapecoense, carinhosamente apelidada de Chape, estão se preparando. Antes das partidas em casa, os jogadores passam a noite concentrados nesse hotel. Eles conversam sobre táticas. Falam sobre formações e estratégias. Depois dos assuntos sérios, eles vão se distrair.

Todo o segundo andar do hotel fica reservado para o clube, e os jogadores aproveitam. Danilo, o goleiro de olhos doces, gosta de conversar. Kempes, o atacante que usa um penteado afro, toca seu pandeiro. Tiaguinho, um jovem ponta com covinhas no rosto, não consegue desligar o telefone.

O clima é muito bom. O jogo de hoje a noite é contra os argentinos do San Lorenzo, a segunda partida da semifinal da Copa Sul-Americana. No primeiro jogo, em Buenos Aires, houve empate por 1 a 1. A Chape só precisa de um empate por 0 a 0 nesta noite, porque o critério de desempate neste torneio são os gols marcados fora de casa. Se passar, a Chape estará na final de um dos mais importantes torneios do continente. Para um time de uma cidade como Chapecó, um clube fundado em 1973 e que estava na última divisão do Brasil até 2009, é um sonho.

 
Pai que perdeu filho na tragédia da Chape ganha camisa histórica de ídolo argentino
 

Os jogadores se preparam para ir ao estádio, mas Tiaguinho não para de mandar mensagens para a mulher, Graziele. Ela só tem 19 anos, mas eles cresceram na mesma cidade e há anos estão apaixonados, desde que Tiaguinho sentou perto dela na escola e mostrou a ela seu braço. Ele escrevera o nome dela no braço com canetinha, em vários lugares, do cotovelo até o pulso. "Tá vendo como eu gosto de você?", ele disse. E ela sorriu.

Um dia antes, pouco depois de os jogadores chegarem ao hotel para começar a concentração, Tiaguinho estava sentado no corredor, do lado de fora de seu quarto. Dois colegas de equipe, Matheus Biteco e Caramelo, chegaram para conversar. "Temos um presente para você", disseram os colegas, e Biteco entregou uma sacola. Tiaguinho pegou e olhou para os dois, desconfiado.

"Foi uma torcedora que mandou, ela gosta de você", disse Biteco. Tiaguinho largou a sacola como se estivesse pegando fogo. Ele não queria que seus amigos achassem que ele poderia se interessar por outra pessoa além de Graziele. "É só abrir, cara", disse Caramelo, entregando outra vez a sacola. De má vontade, Tiaguinho tirou de lá uma caixinha com uma fita brilhante e um bilhete. Ele arregalou os olhos. Era de Graziele.

Tiaguinho franziu a sobrancelha. Abriu o bilhete e leu lentamente, sublinhando com o dedo algumas palavras. Então ele fechou o bilhete, respirou fundo e abriu de novo. Biteco tentava ver o que estava escrito e, de repente, Tiaguinho começou a pular, gritar, dançar e abraçar todo mundo. Ele mostrou os sapatinhos que estavam dentro da caixa. Seus colegas comemoraram e aplaudiram enquanto ele fingia embalar um bebê nos braços.

Desde aquele momento, Tiaguinho está flutuando. Agora mesmo, algumas horas antes do jogo contra o San Lorenzo, ele está conversando com Graziele sobre possíveis nomes para o filho. Os dois querem Maitê, se for menina. Significa "amada". Se for menino, Tiaguinho prefere Santiago, para homenagear a família. Os companheiros avisam Tiaguinho que está na hora de ir. Ele não se aguenta e manda outra mensagem, dizendo que ama Graziele.

 
 

 

 

 

Nos acréscimos, o goleiro Danilo faz uma defesa milagrosa e dá a classificação à final da Copa Sul-Americana. "Por que ele fez aquela defesa no último minuto?", diz a mãe do jogador - Foto: Nelson Almeida/Getty

 

 


 

 

O JOGO começa às 19h. A Arena Condá ferve. Os torcedores cantam e pulam sem parar nas arquibancadas de concreto ou grudados no alambrado que os separam do campo. Nas cabines de imprensa, o radialista que acompanha todos os jogos da Chape, Rafael Henzel, narra e, ao mesmo tempo, faz um vídeo para registrar a energia do estádio antes da bola rolar.

Ele tem 43 anos, usa óculos, tem o cabelo fino e a cara levemente achatada. É a voz da equipe e trabalha com vários outros profissionais, incluindo seu sócio Renan Agnolin. Rafael frequenta os jogos da Chape desde menino. Naquela época, chegava ao estádio sem dinheiro e ficava esperando o jogo começar do lado de fora. Depois que todo mundo estava dento do estádio, ele procurava alguma porta que não estivesse vigiada e entrava de penetra. Era torcedor do time desde a época dos campeonatos amadores. Virou radialista com 15 anos. Quando a Chape conseguiu subir para a primeira divisão do Brasileirão em 2013, ele chorou na cabine de rádio.

Hoje à noite, Rafael está mais elétrico do que o normal, porque vale uma vaga na final. Os jogadores da Chape sabem o que têm que fazer: não podem tomar gol. A Chapecoense não precisa marcar, mas sabe que o San Lorenzo tem um elenco melhor. Os argentinos têm três atletas que já atuaram na primeira divisão inglesa. Um outro que é sempre convocado para a seleção da Argentina. Outros atletas são da seleção paraguaia e da seleção uruguaia.

Enquanto isso, a Chape tem um gol fora de casa marcado no primeiro jogo e vai tentar segurar o resultado.

Depois dos 15 minutos do primeiro tempo, os jogadores da Chape e a torcida começam a ficar mais confiantes. Danilo salta para pegar um chute no canto esquerdo, e a torcida aplaude. O meio-campista Dener dá um chapéu para escapar de um adversário e a torcida grita "Olé!", provocando o jogador do San Lorenzo, que não desiste do lance.

Às vezes, a Chape tenta fazer pressão no campo de defesa do adversário e, em uma dessas tentativas, lá para a metade do primeiro tempo, quase consegue marcar. Willian Thiego, um zagueiro forte, aproveita um cruzamento depois de uma cobrança de falta e manda a bola para o gol. Ele sai comemorando, querendo dividir a emoção com seus companheiros de equipe no banco. E não vê o auxiliar levantar a bandeirinha e anular o que poderia ser o primeiro gol da partida. A comemoração é frustrada, o zagueiro balança a cabeça e volta para o jogo.

A Chape fica atrás, se defendendo a maior parte do jogo. Uma cabeçada do San Lorenzo bate na trave e vai para fora. Danilo se estica todo para defender um chute. Outro chute de longe passa sem assustar.

Os minutos vão passando no segundo tempo. Vinte e cinco. Trinta. Trinta e cinco. Trinta e oito. Trinta e nove. Ainda está 0 a 0. Os torcedores vibram, parece que a Chape vai conseguir. O estádio treme. Nos últimos segundos, o San Lorenzo consegue uma falta e joga a bola na área. No meio de todos os zagueiros, ela acaba sobrando nos pés do experiente argentino Marcos Angeleri. Ele está na cara do gol, dentro da pequena área. Ele só precisa empurrar a bola para dentro: o gol tem 7m de largura, o San Lorenzo vai conseguir estragar a festa da Chape e avançar para a final. O goleiro Danilo parece estar vendido no lance. Na cabine de rádio, Rafael coloca as mãos na cabeça. Ele teme pelo pior: a derrota no último segundo.

Mas enquanto Angeleri arma o chute, Danilo se ergue e salta como se fosse um leão. E consegue evitar o gol, esticando seu pé direito para defender o chute à queima-roupa. Por um momento, parecia que ninguém no estádio tinha entendido o que aconteceu. Depois do fôlego retomado, começam os gritos e aplausos. Danilo bate no peito e vibra muito.

Dentro da cabine de rádio, Rafael não para de gritar o nome de Danilo. Com uma pequena mudança. Ao invés de "Danilo", ele grita "Deus-nilo! Deus-nilo! Deus-nilo!" Quando o árbitro apita o fim do jogo que classifica a Chape para a final, ele grita de novo: "Deus-nilo! Deus-nilo! Deus-nilo!"

Danilo havia se transformado em um herói para a torcida.

 
 

 

 

 

Apenas um dos titulares na foto tirada em 23/11/2016 sobreviveria ao acidente: o zagueiro Neto. Da esquerda para a direita: Danilo, Caramelo, Cléber Santana, Willian Thiego, Neto e Josimar, em pé; Kempes, Gil, Tiaguinho, Ananias e Dener, agachados - Foto: Nelson Almeida/Getty

 

 


 
 

A COMEMORAÇÃO COMEÇA no vestiário abafado. Os jogadores formam um círculo e cantam a música da equipe, aquela que os torcedores cantam sempre que algo bom ou ruim acontece, ou seja, cantam sempre: "Ohhhhhh! Vamos, vamos, Chape! Vamos, vamos, Chape! Vamos, vamos, Chapeeeee!"

Eles estão enlouquecidos. O meia Ananias pula para cima e para baixo no banco em frente ao seu vestiário. Bruno Rangel, o artilheiro do time, está sem camisa e agita as mãos sobre a cabeça. Sérgio Manoel, um dos únicos jogadores ainda de uniforme completo, dança no meio de todos. Follmann, o goleiro reserva, bate com as mãos na porta de seu armário. Até o prefeito de Chapecó, Luciano Buligon, grita enquanto segura um copo de papel na mão.

A festa continua na churrascaria Spettus, lugar habitual das comemorações do time. Paixão, o preparador físico, toca seu cavaquinho. William Thiego está tocando o surdo. Os garçons circulam, cortando as carnes dos enormes espetos. Os jogadores relembram o jogo. Todos fazem um brinde a Danilo, por sua defesa milagrosa. Esposas e namoradas ficam juntas, conversando sobre a felicidade de seus companheiros.

As mulheres da Chape são unidas. Os homens estão sempre jogando, treinando ou concentrados antes dos jogos, por isso as amizades entre suas mulheres são comuns. Quando Graziele recebeu os resultados de seu teste de gravidez (antes de surpreender Tiaguinho com a notícia), ela foi contar para Geisa, esposa de Caramelo, e Val, casada com o volante Gil. Elas não eram amigas há muito tempo, mas quando viram o resultado positivo, abraçaram Graziele e deram os parabéns para a jovem mamãe.

As mulheres conversam sobre o futuro na churrascaria. Sobre a final também, mas não muito. O foco da conversa é a gravidez de Graziele e uma viagem à República Dominicana que algumas famílias planejam fazer juntas nas férias. O papo é sobre biquínis e passeios na praia. Elas falam sobre relaxar.

Aline Machado está na roda da conversa, mas não tira os olhos do marido, Filipe. Ela nunca o tinha visto assim tão feliz nos tempos em que ele jogava no Irã e em outros países do Oriente Médio, nem quando jogava em outros clubes brasileiros. Mesmo quando estava ganhando bem. "Ele parece realizado", diz ela a uma de suas amigas.

Nos dias seguintes nada muda. Pela manhã, Filipe deixa na cozinha um bilhete de amor para Aline escrito em um guardanapo. Enquanto se prepara para a viagem a São Paulo, onde a Chape vai jogar pelo Campeonato Brasileiro antes de se deslocar a Medellín, na Colômbia, para o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, ele coloca Antonella, sua filha de 2 anos, em cima da mala e fica rodando com ela pelo apartamento.

Antonella grita e agarra os braços do pai. Filipe e Aline falam sobre o time, a possível vitória, a viagem para a República Dominicana e sobre como Antonella adora os cães que resolvem problemas no desenho animado "Patrulha Canina". Quando Filipe está na porta, Aline o beija e diz: "Agora vai, vai e aproveita este momento."

No apartamento de Tiaguinho e Graziele, ele coloca a mala na porta e faz carinho na barriga da esposa. No dia de seu casamento, ela parecia uma princesa, usando um vestido branco elegante com um véu comprido e uma tiara de cristal com borboletas. Hoje, ela só quer chegar logo na fase dos desejos, como querer comer picles ou salsichas, em vez de ficar se sentindo mal o tempo todo como agora. Tiaguinho abraça a mulher e fala com o bebê, dizendo que quer ensiná-lo a jogar futebol e algum dia levá-lo para o campo com ele antes de um grande jogo. Ele acaricia a barriga de Graziele antes de ir embora e diz: "Amor, cuide do nosso bebê."

O lateral esquerdo da Chape, Alan Ruschel, tem uma despedida mais agitada. Ele e sua noiva Marina ficam procurando seu passaporte, e ela está preocupada, pensando que isso é uma espécie de sinal, um mau presságio sobre a atuação de seu marido em uma final importante. Mas eles encontram o passaporte, e Alan já pode viajar. Marina sente uma estranha calma enquanto está tomando banho na manhã seguinte. Isso não é comum para ela, que é uma pessoa agitada e cheia de energia. Quando era mais jovem, ela participou de concursos de beleza e às vezes usa um piercing no nariz e pinta seu cabelo mais claro ou mais escuro, dependendo de como está seu humor. Ela está trabalhando no design da sua própria linha de roupas e gosta de passear com o cachorro do casal, que adora mastigar tudo, desde sapatos até móveis.

Marina não está acostumada com a serenidade. Ela comenta com Alan sobre isso e ele ri. "O que você acha que isso significa?", ele pergunta, mas ela não sabe a resposta. Ela não consegue definir a sensação, a única coisa que sabe é que se sentia calma. "Acho que uma coisa muito boa vai acontecer com você", disse ela por fim. "Talvez você marque um gol.”

 
 

 

 

 

Como está o lugar onde caiu o avião da Chape, mostrado por quem foi herói e ajudou sobreviventes

 

O VOO PARA MEDELLÍN decola às 18h18, horário local. Há um pequeno atraso, porque no momento em que as portas estão fechando, um dos jogadores pergunta se pode pegar sua mala que ficou no compartimento de bagagem. Ele deixou o videogame dentro da mala. Depois de muitas piadas, a mala sobe para a cabine.

Isso só foi possível porque este é um voo fretado operado pela LaMia (Línea Aérea Merideña Internacional de Aviación), e não um voo comercial. A LaMia é uma empresa boliviana muito requisitada pelos clubes de futebol para jogos importantes. Algumas semanas antes, nesse mesmo avião, voaram Lionel Messi e a seleção argentina para um jogo das eliminatórias da Copa do Mundo. Uma companhia aérea boliviana não pode fazer um voo do Brasil para a Colômbia, por isso a comitiva da Chape pega um voo comercial de São Paulo, onde joga pelo Campeonato Brasileiro, até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A LaMia vai levar o time de lá para Medellín, local do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional.

Enquanto espera pelo voo, Alan Ruschel faz truques de mágica. Ele adivinha qual carta um colega de equipe escolhe no baralho e faz outra carta desaparecer diante dos olhares de todos. Danilo tenta alguns truques também, mas ele é melhor na plateia do que no palco, já que fica visivelmente espantado quando Alan Ruschel, de repente, faz a carta aparecer novamente.

Todo mundo está ansioso. Uma equipe de televisão da Bolívia faz entrevistas antes da decolagem, e um dos membros da tripulação diz para a câmera: "Acho que vamos voltar com bons resultados". O atacante Kempes gesticula para o tripulante e sorri, dizendo: "Está tudo bem, ele está no comando!" A equipe já tinha voado com a LaMia antes, em um jogo da Copa Sul-Americana. Caio Júnior, o treinador, diz ao entrevistador que viajar saindo da Bolívia "nos dá boa sorte".

Com o avião no ar, os jogadores começam a jogar cartas e tocar samba. Um dos membros da comissão técnica tenta ensinar português a uma aeromoça. O técnico Caio Júnior está na frente, junto com a maioria dos membros da comissão técnica. Kempes fica sentado do lado direito, na janela. Na penúltima fileira, Rafael Henzel está sentando em uma poltrona no meio, junto com outros jornalistas. Alan está sentado ao lado do goleiro reserva Follmann, no meio do avião. Ele estava sentado atrás, mas saiu quando os jornalistas se reuniram lá. Follmann o puxou para sentar ao seu lado.

O voo é longo. Alguns jogadores resolvem comer. Outros dormem. Muitos ficam o tempo todo com o fone de ouvido. Por volta das 21h30, horário local, o avião começa a descida. Outra aeronave, voando de Bogotá para San Andrés, acaba de ser desviada para Medellín por causa de um problema mecânico, de modo que o avião da Chape precisa esperar para pousar. Às 21h49, o piloto do avião da Chape pede prioridade de pouso para a controladora de tráfego aéreo.

Na cabine, Rafael pergunta para a aeromoça quanto tempo falta para pousar. Dez minutos. Dez minutos, disseram. Ele nota que a aeromoça parece preocupada. Às 21h52, a controladora de tráfego aéreo diz ao piloto que outro avião está se preparando para pousar e pergunta se eles podem esperar mais um pouco.

Um minuto depois, um dos motores do Avro RJ85, fabricado na Inglaterra, entra em pane. Mais 13 segundos e o segundo motor entra em pane também. Às 21h55, é a vez do terceiro motor falhar. Catorze segundos se passam e o quarto motor falha. As luzes da cabine se apagam e a ventilação desliga. Não há turbulência ou trepidação, parece que o avião está flutuando em direção ao solo.

Usando o alfabeto fonético padrão para se referir ao indicativo de chamada da LaMia (LMI), o piloto grita pelo rádio com a controladora de tráfego aéreo: "Señorita, Lima Mike India 2933 está em pane total!"

Trinta segundos depois, o piloto chama outra vez: "Lima Mike India, instruções! Instruções, señorita! Instruções para chegar à pista!"

Ele está pedindo instruções. A controladora responde dizendo que o avião desapareceu do radar. Ela tenta guiar o piloto até a pista de qualquer maneira e pergunta qual a altitude do avião. O piloto responde gritando "9.000 pés, senhora. Instruções, instruções!" A controladora pergunta ao piloto qual é a distância do avião até a pista. Há uma pausa. A controladora ouve a palavra "Jesus" pelo rádio. Ela pergunta outra vez ao piloto qual é a altitude do avião, mas o rádio está em silêncio.

Às 21h59, horário local, do dia 28 de novembro, o voo da Chape, que vinha a aproximadamente 240 km/h, se choca contra o Cerro Gordo, uma montanha de 2.600 metros de altitude. No momento do impacto, o avião se divide em duas partes. A parte traseira bate na parte sul da encosta. O nariz termina no lado norte, a quase 150 metros de distância. Um dos motores fica preso nos galhos de uma árvore arrancada. Não houve explosão nem incêndio. No local só foram encontrados restos de metal retorcido e detritos.

A temperatura no Cerro Gordo é de 18 graus Celsius. O céu está nublado e é possível ouvir trovões ao longe. É uma noite como outra qualquer na Colômbia. Depois de viajar quatro horas e quase 3 mil quilômetros, o avião da Chape mergulha no solo a apenas 18 quilômetros da pista do Aeroporto Internacional José María Córdova, ao lado de Medellín.

 
 

 

 

 

Cinco dias depois do acidente de 28/11, a Chapecoense fez uma convocação, pelo Twitter: "Torcedor, você está convocado para homenagear nossos guerreiros. Hoje a noite, a partir das 20h, vamos lotar a Arena Condá. #ForçaChape" - Foto: Reuters/Fredy Builes

 

 


 
 

ALINE MACHADO ESTÁ dormindo, mas é o sono leve de uma mãe de criança pequena. Quando o telefone toca de manhã, ela atende rapidamente. É sua mãe.

No início, Aline não entende o que a mãe está dizendo. Ela ouve as palavras "avião" e "Chape". Então o coração começa a disparar. Aline senta na cama e liga a televisão. E ouve informações confusas sobre algum acidente.

Ela se sente mal. E resolve chamar a babá de Antonella para não ficar sozinha. O grupo de WhatsApp das esposas e namoradas da Chape fica tocando sem parar no telefone. Ninguém sabe o que está acontecendo. Ninguém sabe no que acreditar. Alguém diz que recebeu uma mensagem da Colômbia pelo Facebook, mas não há certeza se é confiável. A mensagem diz que não há vítimas, que foi apenas um pouso de emergência. Ainda há esperança. A televisão e o rádio continuam falando, mas não há confirmação de nada. Depois as notícias começam a mencionar "alguns" sobreviventes e o telefone toca ainda mais.

Aline acredita que Filipe está vivo. Ela acha que pode senti-lo. Desde menina ela conhece Filipe. No primeiro encontro, ele a levou para ver porcos. As amigas dela acharam estranho, mas ela entendeu. Os porcos eram da fazenda da família dele, em Gravataí, perto de Porto Alegre. Filipe queria transformar algum dia aquela fazenda em um campo de futebol para a comunidade. Ele mesmo construiria os vestiários. Faria os gols para que as crianças pudessem vir e brincar. Assim, ele poderia organizar colônias de férias com aulas de futebol. Seria o sonho dos dois.

Naquele primeiro encontro, quando eram apenas adolescentes, Filipe estava contando seus sonhos para Aline. Naquele dia, ela sentiu sua paixão, sua vontade. Todo seu entusiasmo. E agora, no meio da noite, ela ainda sente. A TV diz que um dos sobreviventes é um jogador de defesa. Ela tem certeza de que é Filipe. 100% de certeza. Quando a TV anuncia que o sobrevivente é Neto ela fica feliz, isso significa que um dos amigos de Filipe também sobreviveu.

Depois, ela resolve ir à casa de Rosangela. Rosangela é esposa de Cléber Santana, o capitão do time. Filipe e Cléber Santana são próximos. Quando Cléber foi substituído no final do jogo contra o São Paulo, Filipe ficou com a tarja do capitão e terminou o jogo como líder da equipe.

Aline vai pegar Rosangela, e as duas irão ao estádio juntas esperar por mais notícias ao lado das outras esposas. Quando ela chega na sala de Rosangela, a TV está ligada. Rosangela está sentada. Aline olha para a amiga, olha para a TV e ouve o repórter dizendo: "Não há outros sobreviventes". Ela olha fica olhando para a TV por alguns segundos. Depois desaba no chão.

Após 20 minutos, Aline e Rosangela se aprumam e vão para o estádio. Elas se sentam no vestiário com esposas, namoradas, mães e pais. Todo mundo que tinha alguma ligação com o clube foi ao estádio, porque ninguém sabia para onde ir. Até Chiquinho está lá. Graziele está histérica. Alguém lhe diz: "Seja forte, Grazi, pelo bebê". Um roupeiro começa a reunir os pertences dos jogadores, colocando as coisas em sacolas.

Marina está em um canto. Ela se sente dividida. Jacqueline, Val, Susanna, Aline, Rosangela - todas estão chorando. Marina está chorando também, mas seu noivo, Alan Ruschel, está vivo. O médico da equipe puxou Marina de lado e disse que Alan estava passando por uma cirurgia na Colômbia. Ela não sabe os detalhes da cirurgia, mas sabe que Alan está vivo. Ela tenta confortar as amigas, abraçá-las, mas elas sabem que o noivo de Marina não está morto como os outros. Ela não está viúva como as outras, é diferente.

Quando o roupeiro chega ao armário de Alan, Marina o impede. Ele parece confuso. Ela olha em volta e tenta falar baixo. "Não", diz ela em voz baixa. "Esse não.”

 
 

 

 

 

O jornalista Rafael Henzel assiste aos jogos da Chape desde criança. Repleto de emoção, ele acompanhou o jogo do time reconstruído no dia 6/3/2017 - Foto: Reuters/Diego Vara

 

 


 
 

RAFAEL HENZEL NÃO sabe o que aconteceu. E também não sabe exatamente onde está. Mas consegue ver luzes se movendo, ouve vozes de pessoas estranhas e resolve chamar. "Estou aqui!" grita. "Estou aqui!"

Ele resolve chamar seu amigo e colega radialista. "Renan? Renan?" Renan Agnolin, seu sócio, estava sentado ao seu lado no avião. Mas Rafael não sabe onde está Renan agora. Ele continua chamando o amigo uma e outra vez, mas não tem resposta.

Pouco a pouco, Rafael se dá conta de que está no meio das árvores. Nesse momento, ele vê rostos. São cinco, seis homens. E uma mulher. Eles começam a falar e a tentar arrancar as roupas dele. "Não rasga minha camisa! Não corta minha calça!" Ele não quer perder a única muda de roupa que levou para a Colômbia. Eles dizem que ele vai ficar bem, que vão ajudá-lo. Um deles grita: "Não dorme, Rafa! Não dorme!"

Rafael não se lembra que estava na parte traseira do avião, a que se chocou contra a parte de terra macia na encosta da montanha. Ele não sabe que o terreno, a neblina e a lama não permitiam que os helicópteros pousassem no local do acidente e que demorou horas até que os socorristas chegassem. Tampouco sabe que vai ter que ser retirado do local em uma picape, porque as ambulâncias não conseguem chegar até lá.

Depois de chegar ao hospital, ele começa a entender aos poucos o que está acontecendo, sem saber os detalhes. Sabe que o avião caiu, mas os médicos não lhe dizem quantas pessoas estão mortas. Ele não sabe, por exemplo, que enquanto era levado para a sala de cirurgia, Alan Ruschel perguntava aos médicos onde estavam seus amigos. Nem que o goleiro reserva Follmann vai ter que amputar a perna logo abaixo do joelho. Ou que um médico descreveu Neto como uma pessoa "atualmente" viva, porque não quer parecer muito otimista. Rafael não sabe que Danilo sobreviveu ao desastre e foi resgatado, mas não resistiu e morreu no hospital.

Um dia depois, a esposa de Rafael chega e passa a mão sobre seu rosto, onde um galho de árvore ou um pedaço de estilhaço deixou uma ferida acima do olho direito. Seu abdômen está inchado por causa das sete costelas quebradas. Está sedado e tem um tubo na garganta. Ela olha para o marido e diz: "Vim te buscar". Os olhos dele marejam.

Tanto os médicos como sua mulher querem que Rafael mantenha o foco em sua recuperação, por isso resolvem contar a história para ele em partes. Três dias depois do acidente, ele fica sabendo que há poucos sobreviventes. Ninguém contou ainda exatamente porque o avião caiu. Nem lhe disseram que o número de caixões em Medellín é tão grande que alguns tiveram que ficar no estacionamento da funerária San Vicente. Não há mais espaço do lado de dentro. Ninguém lhe contou que as escolas de Chapecó cancelaram as aulas por dois dias, que os moradores estão fazendo vigílias o dia inteiro no estádio e que as crianças escreveram cartões que se acumulam do lado de fora dos portões. Não contaram a Rafael que a cidade está de luto.

No sábado, cinco dias após a queda, finalmente deixam que ele veja a lista com as vítimas do acidente. Nesse mesmo dia, três aeronaves Hercules C-130 da Força Aérea do Brasil chegam a Chapecó com os corpos das vítimas. Os caixões são colocados em vários caminhões abertos, cada um com uma dúzia ou mais, e levados do aeroporto para o estádio. Soldados carregam os caixões, que estão cobertos com um pano branco e envoltos em plástico devido à chuva.

Chiquinho e seus funcionários prepararam as flores e as bandeiras. Eles deixaram apenas uma trave no campo - a que Danilo estava guardando quando fez a defesa contra o San Lorenzo e que enviou a Chape para a final. A esposa de Danilo coloca uma foto do marido embaixo dela. O padrinho do filho de Danilo bate na trave com as luvas do amigo. Embaixo da tenda, a mãe de Danilo abraça o pai de Filipe e murmura: "Por que ele tinha que fazer aquela defesa no último minuto?"

O presidente do Brasil está presente. O presidente da Fifa também. Quase 100 mil pessoas, cerca de metade da população da cidade, estão dentro da Arena Condá ou nas imediações. A imprensa do mundo todo está cobrindo o velório.

Havia 77 pessoas no avião. Dos 22 jogadores da Chapecoense, três sobreviveram. Outros 23 eram membros da comissão técnica ou dirigentes do clube, além de dois convidados. Havia 21 jornalistas, incluindo Rafael, e a tripulação do voo. Todos falecidos, exceto por uma aeromoça e um técnico de manutenção. Dos 71 mortos, 64 eram brasileiros, cinco bolivianos, um venezuelano e um paraguaio. Cinquenta caixões foram para Chapecó, o restante foi levado para outras cidades.

No hospital, Rafael não assiste ao velório pela televisão. Ele não vê a parte de fora do estádio ser envolvida por uma fita preta gigante. Nem escuta os discursos, onde o prefeito compara a chuva às lágrimas de Deus. Ele não consegue aguentar nada disso. Está muito recente. Tudo o que ele consegue fazer é olhar a lista e ler os nomes de seus amigos repetidas vezes.

 
 

 

 

 

Aline Machado, segurando uma foto de seu marido, Filipe, no memorial de 3/12/2016 - ela se mudou para Gravataí, perto da fazendo da família de Filipe - Foto: Buda Mendes/Getty

 

 


 
 

ALINE MACHADO VAI ao aeroporto ver o caixão de Filipe desembarcar do avião militar. Depois, vai para o estádio. Ela se sente estranha. Não quer estar perto das pessoas do clube, não quer falar sobre como a Chape deve ser "forte, forte" diante da tragédia. Aline não quer ser forte. Ela está revoltada.

Muitas coisas não fazem nenhum sentido, ela tem muitas perguntas. Duas são as mais importantes: por que uma equipe brasileira contrata uma companhia aérea boliviana para levá-la à Colômbia? E o que se passava pela cabeça do piloto?

O pai de Filipe, Osmar, também está muito revoltado. Filipe morreu no dia do aniversário de Osmar. Ele não consegue parar de ler as notícias sobre a LaMia e o piloto. E descobre rapidamente que a LaMia era uma companhia aérea venezuelana que faliu duas vezes e depois foi vendida para investidores bolivianos, que reabriram a empresa em 2015. Descobre também que a empresa tinha três aviões, mas apenas um estava funcionando. E que o piloto, Miguel Quiroga, teve problemas com a força aérea boliviana por ter abandonado o serviço militar sem nenhuma explicação. Miguel Quiroga era também um dos donos da LaMia.

Isso é demais para Osmar. "O piloto é um assassino", diz ele para Aline, conforme aparecem cada vez mais fatos na televisão e no rádio. A maioria dos acidentes são seguidos de um grande incêndio porque o combustível explode, mas os investigadores dizem que todos os medidores de combustível da LaMia encontrados entre os destroços estavam "abaixo de zero", portanto não houve incêndio, nem explosão. O plano de voo oficial de Quiroga é examinado, e os investigadores acreditam que ele pode ter mentido sobre o peso do voo. Além disso, o tempo máximo de voo antes do combustível se esgotar, que é de 4 horas e 22 minutos nessa aeronave, aparece no plano de voo como tempo estimado de viagem. Não havia reserva de combustível para circular o aeroporto caso a pista de pouso estivesse indisponível, por exemplo.

Por que o avião caiu? Osmar fica possesso quando responde: Faltou combustível.

O clube alega que a LaMia já havia transportado outros times de futebol da América do Sul e que tinha boa reputação. Houve pouco tempo entre a vitória na semifinal e a viagem, diz o clube, o que dificultou a tomada de decisões sobre os planos de viagem. No início do torneio, a equipe tinha voado com a LaMia e ficou satisfeita. A LaMia colocou o logotipo da Chape no avião e nos encostos dos bancos, o que deixou o clube feliz. Além disso, o voo fretado era a melhor opção porque assim a equipe poderia sair logo após o jogo, voltando mais cedo para casa do que se tivesse que pegar um avião comercial no dia seguinte.

As explicações não convencem Osmar ou Aline. O primeiro explode de raiva quando lê que outros funcionários da LaMia estão sendo interrogados pela polícia boliviana. A controladora de voo também está sob investigação. Não há nenhuma palavra oficial da LaMia até o momento, mas a resposta, para Osmar, é simples: Foi tudo por causa de dinheiro. A Chape escolheu a LaMia, diz ele à sua família, porque era um pouco mais barato voar com eles do que fretar um voo de outra companhia aérea comercial brasileira. E Quiroga não parou para reabastecer quando devia, diz Osmar, porque não queria tirar dinheiro do próprio bolso. Quiroga tentou forçar para economizar um pouco, e agora seu filho está morto.

Aline conversa com um advogado. Os temas são ações judiciais e processos. Eles se reúnem. Outras esposas e familiares estão interessados no tema também, mas muitos só querem passar a página, tentar aprender como levar a vida sem o marido, o filho ou o irmão.

Aline também quer seguir em frente, mas toda vez que ela sai do quarto, Antonella fica nervosa. Toda vez que ela sai para fazer compras, Antonella chora copiosamente. Aline vai ter que fazer a festa de aniversário da "Patrulha Canina" sozinha. E na fazenda de Filipe, o vestiário ainda não está terminado, a grama precisa ser cortada e as linhas precisam ser pintadas no gramado. Toda vez que Aline vai até lá, para levar Antonella para brincar ou só ficar olhando para o campo, ela sente que essa é uma história que ficou pela metade.

É por isso que Aline não pode deixar para lá e seguir em frente. Por isso, ela continua conversando com o advogado, continua fazendo perguntas, mesmo que não haja respostas. Sempre que ela questiona alguém no clube sobre a tragédia, lhe respondem que todos os diretores da Chape que decidiram contratar a LaMia estavam no avião. Todos os diretores que tomaram a decisão, dizem eles, estão mortos.

 
 

 

 

Policial colombiano relembra resgate de Neto: 'Sinto como se tivesse salvado um irmão'
 

CINQUENTA E QUATRO DIAS depois do acidente, Rafael Henzel volta para sua cabine de rádio. Ele está vestindo uma camisa leve, um chapéu e tem um cordão verde em volta do pescoço para segurar sua credencial. Faz calor nesse dia 21 de janeiro. Suas sete costelas quebradas ainda não estão curadas, mas seus pulmões são fortes. Antes de colocar o fone de ouvido, ele se senta e faz uma pausa. Lembra de Renan Agnolin, que estava ao seu lado no avião.

Tem jogo hoje. É um jogo de pré-temporada na Arena Condá entre a Chape e o Palmeiras, dois campeões no ano anterior. O estádio está lotado. Chiquinho passou horas trabalhando no gramado, determinado a transformá-lo em um palácio. Tudo parece estranho, uma nova equipe, um novo momento. Mas Chiquinho quer deixar bonito, apesar de não conhecer esses jogadores. Pitico está sumido e não foi visto desde a tragédia. Chiquinho acha que é porque o cachorro não está acostumado com os novos jogadores.

Antes do jogo, há uma cerimônia. Alan Ruschel, Neto e Follmann entram em campo. Neto, que teve o cabelo raspado, está com uma cicatriz na parte de trás da cabeça. Follmann está em uma cadeira de rodas, o que restou da sua perna direita envolta em um pano bege. Ele está com um colar cervical negro. Alan empurra a cadeira de Follmann com uma mão e caminha lentamente, ele ainda sente dores após a cirurgia na coluna.

Os torcedores cantam e jogam flores de origami com o símbolo do clube. Os sobreviventes se juntam aos familiares de seus companheiros de equipe no meio do campo. O Atlético Nacional concedeu a final da Copa Sul-Americana para a Chape, por isso agora os jogadores são "campeões eternos".

As medalhas são colocadas nos pescoços das viúvas e das crianças. Várias esposas usam as camisetas de seus maridos viradas de trás para frente, para que os nomes fiquem em destaque. Sentado em sua cadeira, Follmann levanta o troféu em meio às lágrimas. Quando a esposa de Ananias, Barbara, recebe sua medalha, começa a chorar de repente e levanta suas mãos, apontando dois dedos para o céu.

Os novos jogadores entram em campo. O conselho da Chape foi refeito e um novo presidente foi eleito. Vagner Mancini foi contratado como novo treinador. Um novo departamento de futebol foi montado e, em seis semanas, a equipe foi reconstruída: 25 jogadores contratados, além de novos auxiliares técnicos e do pessoal de apoio.

Alguns times emprestaram jogadores para ajudar a Chape. Outros jogadores que tinham passado pela equipe no início de suas carreiras quiseram retornar. Túlio de Melo, um atacante relativamente famoso, tinha jogado pela Chape durante pouco tempo em 2015 e recebeu uma proposta para jogar em uma equipe do Qatar em 2017. O salário era muito bom e a proposta interessante. Mas ele recebeu uma mensagem de seu amigo Neto, quando ainda estava no hospital se recuperando do acidente. A mensagem dizia: "O clube precisa de você". E Túlio de Melo voltou para a Chape.

O jogo começa. A torcida atrás do gol agita suas bandeiras como sempre. É bom torcer. O Palmeiras marca primeiro, a Chape bate uma falta e a bola passa na cara do gol. Nessa hora Douglas Grolli, um jogador das categorias de base da Chape e que voltou para ajudar a reconstruir o clube, aparece para empurrar a bola para o gol.

Há uma explosão de energia, como se todo o estádio tivesse despertado ao mesmo tempo. Alguns torcedores gritam. Outros choram. Muita gente nas arquibancadas está ligada na rádio para ouvir Rafael narrar o que está acontecendo na frente deles. Em sua cabine, os olhos de Rafael se abrem e ele grita "Vem aí cobrança de Niltinho. Olha o gol de empate surgindo. Jogou no segundo pau, olha o gol pintou! Goooooooooool!", ele grita.

"Eu disse! O Grolli ia fazer o gol! O meu coração transborda de alegria! Eu pedi! Se possível o Grolli, criado aqui, marcasse o primeiro gol do renascimento da Chapecoense. A Chapecoense nos enche de orgulho! Seu coração ressurge com um gol do seu remanescente!."

 
 

 

 

 

Neto (à esquerda) e Alan Ruschel (à direita) esperam ajudar na reconstrução da Chape; Jackson Follmann (ao centro) visa à disputa dos Jogos Paraolímpicos. Neto disse, em janeiro: "Se eu não acreditasse que eu pudesse me recuperar, eu ficaria deprimido." - Foto: Nelson Almeida/Getty

 

 


 
 

GRAZIELE TIRA a roupinha do bebê da gaveta. Um jeans minúsculo, calças pastel e shorts listrados. Ela dobra a roupa e vai organizando tudo em pilhas diferentes. Depois ela coloca a roupa de volta na gaveta e fica olhando os sapatinhos do bebê.

Todos os dias ela faz isso. É sua terapia. Ela gosta de organizar as roupinhas e os sapatinhos do bebê enquanto sente os pequenos chutes na barriga. No quarto do bebê há girafas na parede, uma bola de futebol pendurada e fotos de Tiaguinho ao lado do trocador. Ela gosta de ficar ali. E gosta de bagunçar o quarto para depois arrumar novamente.

Seu terapeuta diz que está tudo bem. É bom para ela ter uma foto de Tiaguinho na parede em cima de sua cama, para que ela possa sentir que ele está velando por seu sono. Não tem problema ter uma colagem das fotos dos dois na parede ao lado do quarto do bebê, para que ela não se sinta sozinha. Acreditar que seu marido vai reencarnar como seu filho também não é errado. No exame de ecografia, ela vê os traços do bebê e fica aliviada. Diz para a mãe: "Os olhos do bebê são iguais aos dele."

O bebê vai nascer em julho. Tiaguinho queria que o bebê nascesse no dia 22 de julho, mesmo dia do aniversário de seu pai, e agora Graziele espera também que esse seja o dia. Ela já decidiu que o nome do bebê vai ser Tiago. Foi óbvio: em janeiro, seus amigos e familiares fizeram uma festa para ela de revelação do sexo do bebê. Quando ela cortou o bolo e viu que o interior era azul, todos gritaram "Tiago!" e jogaram confete. Ela chorou. Ela quer levar uma foto de Tiaguinho para a sala de parto. Para que seu marido também esteja lá.

Graziele não gosta de futebol. Ela acompanha um pouco a Chape, mas está morando em sua cidade natal agora, Bom Jardim-RJ, a cerca de 3 horas do Rio de Janeiro. Ela não mantém contato direto com as outras esposas da Chape. Vive perto de seus pais e dos pais de Tiaguinho. Tiago está em sua barriga. E nas suas fotos. E nas mensagens de voz guardadas em seu telefone, que ela escuta escondida.

 

 

 

 

Sofrimento, angústia, saudade: viúvas da tragédia com a Chape contam como é viver a dor da perda
 

ALINE MACHADO TAMBÉM saiu de Chapecó. Ela está em Gravataí, com Antonella. A mãe gosta de brincar de "Patrulha Canina" com Antonella. Quando a filha pergunta sobre Filipe, ela responde que o papai está no céu. Aline diz que ele está junto com o papai da Nina e o papai da Julia, assim Antonella não sente como se ela fosse a única. A menina às vezes olha pela janela antes de dormir, aponta para uma estrela e diz: "Olha lá o papai."

As vidas de Aline e Graziele continuam sem a Chape. Assim como as de Rosangela, Val e muitas outras. Elas precisaram ir embora por causa do acidente. Não havia outro jeito.

Outras preferiram ficar. Chiquinho ainda cuida do gramado e fica atento ao sistema de drenagem quando chove. Algumas semanas depois, ele e seus funcionários guardaram os cobertores e derrubaram a pequena casinha perto do galpão. O cachorro Pitico não voltou, e Chiquinho entende. Mas todo dia, ao voltar para casa no fim da tarde, ele estica seu pescoço e fica olhando pela janela do ônibus, na esperança de encontrar Pitico, correndo, brincando e perseguindo os passarinhos.

Follmann ficou. Ele já tirou o colar cervical, colocou uma prótese alemã na perna e já anda com facilidade, não precisa mais de cadeira de rodas. Está participando de um programa de televisão, onde exibe seus dotes de cantor. Entre risadas, como antes do acidente, diz que vai tentar se tornar um atleta paraolímpico. Ele diz brincando que vai ser fácil, porque sua perna mecânica nunca fica cansada.

Alan Ruschel e Neto também ficaram. Estão fazendo fisioterapia e treinando, suando dobrado nos treinos. Junto com a multidão na Arena Condá, eles assistem aos novos jogadores, energizados pelos gritos, cantos e pelo ritual celebrado no 71º minuto de cada jogo, quando a torcida grita "Vamos, vamos, Chape!" várias vezes, em homenagem às 71 vítimas do acidente.

A equipe vence ou empata 20 de seus 24 primeiros jogos, e isso motiva os dois a trabalharem mais. Marina está preocupada com a coluna de Alan, mas vai aos jogos com ele e também canta no minuto 71. Ela sabe que ele não está abatido, a comissão técnica acha que ele pode voltar a jogar no meio do ano. Rafael Henzel mal pode esperar para voltar a gritar os nomes de Alan e Neto.

A nova comissão técnica tomou uma decisão: não falam mais sobre a tragédia. Até meados de janeiro, o assunto era inevitável, mas depois eles decidiram que o time precisava olhar para frente. "Precisamos escrever nossa própria história", diz o novo treinador aos novos jogadores, mesmo contando com alguns jogadores antigos ainda no grupo.

E por isso, antes de todos os jogos, a Chape vai se concentrar no Hotel Bertaso. O treinador ainda vai falar de estratégias e táticas. Os jogadores ainda vão se sentar na sala do segundo andar, tocar música, enviar mensagens de texto e matar o tempo até que o ônibus leve o time para o estádio. E quando a bola rolar, eles ainda vão jogar no mesmo campo daqueles atletas que vieram antes deles. O campo que Chiquinho prepara semeando, cortando, regando e cuidando do remendo perto da linha de fundo.

 
'Stairway to Heaven': O dia de homenagens na Arena Condá

 

 

 
   

*SAM BORDEN é repórter especial da ESPN. Ele anteriormente trabalhou no "The New York Times" como correspondente internacional em Paris. Edição de Ricardo Zanei, colaboração de Antônio Strini, Dalton Cara, Igor Resende e Matheus Sacramento. O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em "Eternal Champions".