Completando 30 anos, Cássio admite erro em 2016 e revela que sofre mais por ser honesto quando falha

Rafael Belattini, para o ESPN.com.br
Gazeta Press
Cássio, Corinthians
Cássio comemora 30 anos vivendo mais um bom momento no Corinthians

Há cinco anos, no segundo tempo da segunda semifinal da Libertadores, contra o Vasco, Cássio colocava seu nome na história do Corinthians com uma defesa milagrosa na finalização de Diego Souza, em lance que dificilmente sairá da cabeça dos torcedores das duas equipes.

Após aquele momento, veio a conquista do inédito título continental, mais uma atuação heroica na conquista do Mundial da Fifa, sendo eleito o melhor em campo, além de comemorar as conquistas de uma Recopa, um Brasileiro e dois Paulistas.

Nesta quinta-feira, Cássio comemora seu 30º aniversário e volta a viver boa fase, sendo o líder da defesa menos vazada do Brasileiro - ao lado da Chapecoense, com quem também divide a liderança.

Em entrevista exclusiva, o goleiro falou do começo de sua trajetória no clube, creditou a melhora dentro de campo à mudança no ambiente do clube, reconheceu os erros de 2016, e também falou sobre seu relacionamento com Tite, hoje técnico da Seleção Brasileira, e com as consequências que sofre por ser honesto em admitir suas falhas.

  • Cavalo encilhado

No dia 22 de abril de 2012, o então titular do gol do Corinthians, Júlio César deixou o campo debaixo de muitas críticas por falhas na derrota por 3 a 2 contra a Ponte Preta, no Pacaembu, resultado que eliminou o Corinthians do Paulista nas quartas de final.

Com Júlio César no gol, o Corinthians tinha sido campeão Brasileiro no ano anterior, mas o técnico Tite entendeu que aquela era a hora de dar oportunidade a Cássio, que havia sido contratado pouco depois da conquista, tendo o PSV, da Holanda, como último clube.

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"Eu me preparei. Se eu não estivesse bem o Tite não ia me colocar. Poderia até falhar e ia continuar ele. Então eu me preparei para aquilo acontecer", lembrou o goleiro, apontando seu mérito na conquista da titularidade.

"Não caiu de paraquedas. Quem via, até muitas pessoas que trabalhavam, que faziam a cobertura dos treinos, falavam que quando eu assumisse tinha uma grande possibilidade de continuar pelo trabalho que eu vinha apresentando", disse.

No dia 2 de maio, depois de vencer a disputa com Danilo Fernandes, Cássio foi titular e foi decisivo no empate sem gols contra o Emelec, no Equador. Após a confirmação da classificação no jogo da volta, o novo titular foi elogiado até pelo técnico do rival, na época o uruguaio Marcelo Fleitas, que via "um grande futuro" para o goleiro.

"Acho que futebol é assim, vários jogadores tiveram destaque em outros clubes por estarem preparados quando 'o cavalo passa encilhado' e você tem que aproveitar. E eu estava pronto e aproveitei quando apareceu", afirmou.

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  • Erro na preparação

Se esteve preparado em 2012, o próprio goleiro reconhece que pode ter tido um mal ano em 2016 justamente por não ter feito uma preparação adequada. No começo do ano, ele esteve perto de ir para o Besiktas, da Turquia, mas o negócio não foi fechado.

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Cassio chegou a perder a posição de titular em 2016
Cassio chegou a perder a posição de titular em 2016

Perguntado se a negociação pode ter refletido no desempenho abaixo do que costumava apresentar, Cássio admitiu.

"Pode ser. Eu concordo contigo. Até porque ficou nesse negócio de poder sair, de repente eu não consegui fazer uma pré-temporada muito boa. Acho que para o jogador a pré-temporada é fundamental, então eu não consegui fazer uma pré-temporada como fiz em outros anos", afirmou.

"No meu histórico você vai ver que nos anos que eu consegui fazer uma pré-temporada boa eu consegui jogar num nível muito bom. Então eu confesso que atrapalhou um pouquinho e no decorrer do ano eu tive um pouco de dificuldade em me manter num nível bom", completou.

  • Polêmica com Tite

Em má fase, Cássio acabou perdendo a vaga para Walter. A saída, além de tudo, trouxe uma polêmica com o então técnico do Corinthians, Tite, que sacou o goleiro após ele ter sido liberado da concentração para ir ao enterro de sua avó.

Chateado, ele não escondeu a mágoa com Tite e chegou a dizer que esperava que ninguém mais falecesse. O caso, segundo o goleiro, já ficou para trás e seu relacionamento com o hoje técnico da Seleção é de muito respeito.

"Eu reclamei e pedi desculpas depois. Acho que foi num momento inoportuno, que eu estava um pouco conturbado, vinha da perda de uma pessoa que é importante para mim, que é minha avó. Foi ela quem me criou", disse.

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"Conversei com o Tite, tudo foi resolvido, até porque eu tenho um respeito muito grande por ele, e acredito que ele por mim. Conversamos como dois homens", continuou, destacando também seu relacionamento com Mauri Costa Lima, o treinador dos goleiros.

"Até apareceu uma situação do Mauri, que foi a mesma, e nós sentamos e conversamos o que tínhamos que falar um para o outro. A gente tem um respeito e trabalha há um longo tempo para ficar de mal entendido, então conversamos, nos acertamos todos e seguimos o trabalho. Tanto que o Mauri vem me ajudando muito neste ano, me preparando muito bem, para eu estar bem nos campeonatos", concluiu.

  • De volta à velha forma

Com a ajuda de Mauri, Cássio voltou a ser um titular inquestionável no gol do Corinthians. Homenageado, ele recebeu a braçadeira de capitão na decisão do Paulista, para que pudesse levantar a taça. No Brasileiro, apenas um gol tomado e nenhum espaço para questionamentos.

Mas não foi só a atenção na pré-temporada que influenciou nesta mudança na fase de Cássio. O goleiro garante que o ambiente do clube acabou mudando como um todo.

"A gente teve um ano passado não muito bom. Acho que de forma geral, a gente não teve um bom nível, a gente não conseguiu chegar aos objetivos, que eram Libertadores, chegar a títulos, teve um ano bem conturbado. Tite acabou saindo. Ele tinha um plano de jogo e acabou saindo, e entraram treinadores que não conseguiram implantar o trabalho", descreveu.

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O trabalho para enfim voltar aos bons momentos, segundo o goleiro, começou ainda nas férias.

"Então foi um ano bem conturbado e eu também acho que fui um pouco abaixo no ano passado. Esse ano eu me preparei. Antes de acabar o ano eu já tinha o objetivo de voltar, e voltar muito bem. Nas férias mesmo eu já tinha um cronograma de descanso e depois de treinamentos, de trabalho. Voltei num nível bom, consegui fazer uma pré-temporada muito boa e isso me deixou preparado para começar bem o ano", completou.

  • E na hora que erra?

O ano de 2017 tem sido ótimo para Cássio, mas ele sabe que não está imune às falhas, já que "elas acontecem", como garantiu o goleiro na entrevista. Porém, sua maturidade e experiência dentro do clube o fazem passar por elas com muito mais tranquilidade do que no passado.

"É lógico que a gente não quer errar, não quer falhar, mas quando acontece a gente tem que ter tranquilidade", disse.

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"Hoje acho que a gente tem maturidade. Acho que se acontecesse quando eu tinha chegado no Corinthians, de falhar, errar, acho que seria muito mais difícil. Hoje a gente está muito mais calejado pelo tempo de clube e por tudo o que já passamos", explicou.

Cássio afirma ainda que acaba sofrendo um pouco mais que os outros simplesmente por admitir seus erros. "Eu sou muito honesto, você pode ver que nos gols que eu falhei eu falei sempre. Só que às vezes eu acho que algumas pessoas, em momentos que eu não vejo como falha, falam que é falha. Aproveitam por eu ser muito honesto", disse.

Com 30 anos e seis deles vivido no Corinthians, Cássio tem hoje motivos de sobra para comemorar, já que, com ajuda dos companheiros de time, não tem dado muita oportunidade de creditarem à uma falha os poucos gols sofridos pelo clube no ano.